Quando vira vício, a busca pelo prazer se torna escravidão... Conheça Histórias Reais!

Ana*, advogada, chegou a se prostituir para ter sexo rápido

Do imperador Cal?gula ao ator Michael Douglas, e mais recentemente o astro Ron Wood, guitarrista dos Rolling Stones, que seriam viciados em sexo, conhecemos rasteiramente o perfil do dependente sexual: o sujeito que n?o consegue passar um dia sem ter suas fantasias realizadas, busca prazer incansavelmente, coleciona aventuras er?ticas. Compuls?o sexual, depend?ncia de sexo, transtorno sexual n?o-especificado ou impulso sexual excessivo s?o algumas defini?es da literatura m?dica para o problema discutido desde relatos da Antig?idade, mas ainda pouco estudado.

Em que ponto um comportamento sexual vigoroso atravessa a linha que separa o prazer da depend?ncia? "Ter vida sexual exuberante n?o significa ser dependente", diz o psiquiatra Aderbal Vieira Jr., da equipe do Programa de Orienta??o e Atendimento a Dependentes (Proad) da Universidade Federal de S?o Paulo (Unifesp). "O que chamamos de depend?ncia n?o-qu?mica, na falta de denomina??o melhor, come?a a se manifestar quando a pessoa sofre algum preju?zo em diversas ?reas da vida." As depend?ncias n?o-qu?micas mais freq?entes atualmente, de acordo com dados do Proad, s?o o v?cio em jogos, internet, compras e sexo.

Se voc? sonha em fazer sexo numa caverna da Capad?cia ou no banheiro da balada mais pr?xima, n?o h? o que temer: "As fantasias colorem a vida. O dependente, no entanto, perde a liberdade de escolha", diz Vieira. A seguir, dois ex-dependentes sexuais -um homem e uma mulher- contam como essa incapacidade de autonegocia??o os levou a momentos desesperadores. Ambos freq?entam, ainda hoje, os Dependentes de Amor e Sexo An?nimos (Dasa), grupo que tem como princ?pio de reabilita??o os 12 passos do Alco?licos An?nimo s (AA), adaptados ? quest?o sexual.

"Sem sexo, eu ficava maluca, totalmente descontrolada"

Ana*, 45 anos, advogada

Vim de um lar desestabilizado pela viol?ncia. Meu pai era alco?latra, uma pessoa bon?ssima, mas que se tornava agressivo e batia na minha m?e quando bebia. Ele era culto, oficial da Pol?cia Militar, trabalhava muito. Quando poderia estar com os filhos, ele se afastava, por ressaca moral. Minha maneira de conquistar seu afeto -e de competir com minhas irm?s- era mostrando boas notas. Ele me estimulava, tanto que prosperei e sempre fui independente financeiramente.

Fui tamb?m uma garota cheia de libido. Meus seios come?aram a crescer aos 11 anos, e fazia algumas brincadeiras com os garotos da escola -deixava que eles pegassem nos meus peitos. Perdi a virgindade cedo, aos 14. Quando uma irm? se casou gr?vida, meu pai disse que ela deveria ter se espelhado no meu exemplo. Mal sabia ele quanta ?gua j? havia passado por baixo dessa ponte.

"Acordei com um estranho no motel, e ? tarde j? estava na cama com outro homem"

Casei aos 21 anos. Meu primeiro marido=2 0era alco?latra como meu pai e ainda por cima usava drogas. Eu j? sabia disso, mas acreditava que meu amor seria suficiente para consert?-lo. Eu sofria viol?ncia f?sica, verbal, moral, sexual. Quando montei meu escrit?rio de advocacia, ele n?o perdia a chance de dizer: "Voc? ? o "macho" da casa, t? cheia de dinheiro. Pra que vou trabalhar?". Mesmo assim, nossa vida sexual era intensa. T?nhamos rela?es quase todos os dias, mas muitas delas for?adas. V?rias vezes, quando b?bado, ele me agrediu fisicamente e depois quis fazer sexo. Eu me anulava, e acreditava que, uma vez desejada, uma vez amada. Se ele estivesse satisfeito, eu estaria bem.

Aos 28 anos, conheci um homem que mexeu comigo -e mexe at? hoje. Acredito que meu padr?o de depend?ncia sexual come?ou a se manifestar mais fortemente a partir desse relacionamento. Ele era meu colega na faculdade. Um cara bonito, introspectivo, noivo, o que ati?ava meu esp?rito de competi??o. Brinquei com ele dizendo que era o genro que minha m?e adoraria ter. N?o demorou para transarmos -e foi maravilhoso. Foi o ?nico homem que, at? hoje, me deu prazer: eu n?o precisava me transformar em mulher fatal para seduzi-lo. Tive orgasmos com outros homens, mas nunca com a mesma intensidade que esse amante provocava.

No meio desse caso, me separei. Mas, como meu amante n?o deixava a noiva, passei a ter outros rolos tamb?m. E acabei me c asando de novo, com outro homem violento. Logo que nos conhecemos, ele me bateu, no meio de uma discuss?o, em um bar. Percebi, tempos depois, que o problema estava em mim, que atra?a pessoas com o mesmo padr?o de comportamento. Eu precisava de algu?m para tentar consertar, tentar sanar a rela??o frustrada de meus pais. Esse segundo marido me evitava sexualmente. E, no per?odo em que fui casada com ele, meu caso com o antigo amante pegou fogo.

Nossa necessidade de transar era fora do comum. Faz?amos sexo no carro, no motel, em lugares p?blicos. O ponto crucial da nossa hist?ria sempre foi sexual, embora eu alimentasse a fantasia rom?ntica de me casar com ele, mas ele jamais quis se separar. Depois de cinco anos, nos afastamos, por vontade dele -disse que eu era pegajosa, ciumenta, e que n?o estava pronto para um relacionamento s?rio.

Foi ent?o que minha busca por sexo a qualquer custo se intensificou. Sentindo-me rejeitada pelo amante e pelo meu marido, sa?a ? ca?a. Era uma esp?cie de vingan?a, e quem acabava machucada e agredida era eu. Quando sentia falta de sexo, acontecia o que chamo de "disparada de gatilho". Uma coisa descomedida.

Cheguei a ter tr?s homens num s? dia. Acordei no motel com um cara com quem havia sa?do na noite anterior. ? tarde, um rapaz que eu conhecia -e cuja mulher, minha amiga, estava gr?vida- me ligou e fomos transar. ? noite, tive ma is um encontro, dessa vez com uma pessoa da minha fam?lia, um primo.

"Cheguei a ficar numa esquina e sa?a com os caras sem nem cobrar nada"

Fui v?rias vezes para a cama com desconhecidos com quem cruzava em ?nibus, em bares. Cheguei a me vestir de prostituta e ir para uma esquina. Eu nem cobrava. Fazia isso para ter sexo r?pido. Comecei a transar tamb?m com mulheres. Tive um caso com uma funcion?ria do meu escrit?rio durante dois anos. Namorei at? um presidi?rio, que conhecia da ?poca da faculdade. Eu ia semanalmente ao pres?dio, nos dias de visita ?ntima, e a sensa??o de transar numa cela me deixava excitad?ssima. Uma das poucas taras que n?o realizei foi transar com um travesti. Nem sei com quantos homens dormi nessa ?poca. Foram mais de 100, com certeza. E, muitas vezes, deixei de usar camisinha. Fiz o exame de HIV h? um ano e, gra?as a Deus, deu negativo.

Sem sexo, eu ficava maluca, descontrolada. Essas crises afetavam outras ?reas: eu descontava na comida, tinha alucina?es ? noite, criava fantasias sexuais o tempo todo, ficava perturbada, n?o conseguia me concentrar no trabalho. At meu cabelo ca?a! Eu pensava no meu ex-amante sem parar, achava que morreria se n?o tivesse aquele homem! Corri risco de vida v?rias vezes, dirigindo de madrugada, alcoolizada. Apesar do perigo, essas situa?es me fascinavam, era uma adrenalina grande. Trair meu marido me dava prazer, e para isso tinha in?meras desculpas: curso ? noite, ch? de cozinha, uma tia que morreu, problemas com clientes.

Em 1998, aos 35 anos, meu segundo casamento acabou depois de cinco anos. Suas crises de viol?ncia contra mim se tornavam cada vez mais freq?entes e a ?nica sa?da foi a separa??o. Eu j? havia reencontrado o amante havia alguns meses, ele me ligou dizendo que tinha sonhado comigo, que sentia minha falta. Atendi prontamente, como um fumante que n?o consegue abandonar o v?cio. Voltamos a transar loucamente. Muitas vezes deixei de trabalhar para encontr?-lo. Soltei as r?deas do meu neg?cio, largando tudo na m?o dos empregados. Perdi clientes e acabei fechando o escrit?rio.

Quando n?o estava com o amante, continuava nas "disparadas de gatilho". Fui ficando endividada, desmotivada. Lembrei dos grupos de apoio a dependentes. Conhecia os 12 passos dos Alco?licos An?nimos, por causa do meu pai, e procurei o Mada [Mulheres que Amam Demais An?nimas], pensando que meu problema era depend?ncia afetiva. Ali, me aconselharam a participar do Dasa [Dependentes de Amor e Sexo An?nimos]. Foi o que me sal vou.

H? dois anos, freq?ento os dois grupos, e fa?o psicoterapia. Nesse tempo, percebi que, no fundo, o que eu queria era aquele amor rom?ntico, caseiro, de novela. Buscava o sexo para suprir a rejei??o. Digo que tenho duas personalidades: sou uma "puta doutora" ou uma "doutora puta", mas a imagem que cultivo socialmente ? a de boa mo?a.

Minha rela??o com meu amante n?o est? resolvida. Ainda nos vemos de vez em quando, ele nunca se casou. Mas entendi que ele n?o est? comigo porque n?o quer. Simples assim. Hoje, estou namorando um rapaz interessante, tranq?ilo, que conheci no metr?. Ele tem um perfil diferente dos homens pelos quais sempre me senti atra?da. ? gentil, trabalha e paga suas contas, ? solteiro, tem 34 anos, uma gra?a! Estamos no come?o do namoro, mas quero apostar num relacionamento saud?vel. Tamb?m n?o tenho mais necessidade de ser aprovada por um homem, pois estou investindo em mim, na minha qualidade de vida. Fa?o um curso de p?s-gradua??o, retomei o trabalho em casa, captei novos clientes e planejo viagens que sempre imaginei, mas nunca fiz, por ter colocado o sexo acima de tudo."

Fonte: Marie Clarie