Filme sobre Surfistinha terá poucas cenas de sexo

Com um papel na mão, decora a fala que terá no tão alardeado filme sobre sua vida:

Rachel Pacheco, 25, a ex-prostituta Bruna Surfistinha, está contida em um canto do restaurante Paris 6, nos Jardins, região nobre de São Paulo. O garçom passa com taças de vinho e mal olha para ela, que fala baixinho e se movimenta pouco para não atrapalhar.

Com um papel na mão, decora a fala que terá no tão alardeado filme sobre sua vida: "Boa noite. Mesa para dois? Podem me acompanhar. Fiquem à vontade" e ponto final.

Após o sucesso com o blog e o livro em que narra o tempo em que vendia o corpo a seis homens por dia, cinco dias por semana, Surfistinha vendeu sua história para o filme que acabou de ser rodado na terça, em São Paulo, e estreia em julho.

Ciente de que, além do dinheiro pela venda dos direitos para o cinema, lhe sobrou apenas papel de figurante como recepcionista de restaurante, a ex-prostituta está bem comportada atrás dos holofotes.

E a história picante de seu diário como garota de programa, com detalhes de relações a dois, três, quatro... oito, também está longe da que Deborah Secco protagonizará nas telas.

"Não é um filme sobre prostituição, mas a história de uma personagem que tem um lado cinderela em meio ao hardcore", diz o diretor Marcus Baldini, 35, que faz com Surfistinha sua iniciação cinematográfica.

O fato de o cineasta querer "tratar o lado mais humano da personagem" se encaixa perfeitamente na estratégia publicitária do longa. Os produtores esperam que o governo classifique o filme como livre para maiores de 14 anos, para não perder a leva de fãs adolescentes de Surfistinha. De conteúdo pornográfico, "O Doce Veneno de Escorpião" vendeu mais de 250 mil exemplares e foi um sucesso entre os teens.

Além da curiosidade sexual, avaliam produtores, o público se liga à saga da garota rebelde que estudou em um tradicional colégio paulistano e, aos 17, fugiu da casa de classe média alta dos pais para se prostituir.

Mas o diretor garante que haverá "coerência". "Para isso, tem de ter determinadas coisas, como ela cheirando cocaína e, é claro, cenas de sexo. Não haverá nada explícito, mas se precisar mostrar nudez ou os seios [da Deborah Secco], não vou deixar de fazê-lo para evitar uma classificação para um público mais velho. A montagem [edição das imagens] vai dizer mais que filme será", afirma.

A relação do longa com a personagem verdadeira se mostra paradoxal. Ao mesmo tempo em que querem pegar carona com seu sucesso, os produtores deixam a ex-prostituta na sombra. "É lógico que é um benefício ter os fãs da Raquel, mas não me preocupo se vou frustrar o público dela. Cerca de 60% é ficção", diz Baldini.

A Surfistinha real está blindada. A Folha teve acesso às filmagens, na segunda-feira, e falou com Deborah Secco, Cassio Gabus Mendes (que interpreta o cliente que se torna marido), além do diretor, mas não pôde entrevistar a ex-prostituta. Também não foi autorizado que Deborah Secco posasse ao seu lado para uma foto, e a imagem no alto desta página só foi possível porque, no ensaio da cena, ela teve de se posicionar perto da atriz.

Na sequência, a recepcionista (Surfistinha), encaminha Surfistinha (Secco) e Hudson (Mendes) à mesa. Ele lhe oferece uma joia, quer que abandone a prostituição, mas ela recusa e marca com outro cliente.

Por contrato, Pacheco sabe "se comportar" e avisou a assessoria de imprensa, durante a filmagem, quando a reportagem lhe pediu o celular para entrevistá-la no dia seguinte. Ontem, a Folha deixou-lhe um recado, mas ela não retornou.

Surfistinha atrai público, mas faz o anunciante fugir como o diabo da cruz. Ainda falta R$ 1,5 milhão para complementar o orçamento de R$ 5,5 milhões, e a produtora do filme, a TVZero, já ouviu "não" dos principais investidores privados e estatais do cinema.

Fonte: Folha Online, www.folha.com.br