Na Justiça, Ibope admite que audiência em tempo real é muito inútil e não tem valor estatístico

Na Justiça, Ibope admite que audiência em tempo real é muito inútil e não tem valor estatístico

Na Justiça, Ibope admite que audiência em tempo real é inútil e não tem valor estatístico

Poderosa ferramenta do Ibope, o serviço de audiência em tempo real pode determinar se Zezé Di Camargo & Luciano ficam cinco ou 20 minutos cantando ao vivo em um programa dominical. Ou se um calouro se despede rapidamente do público, caso a audiência caia, ou se tem uma segunda chance, caso os números cresçam.

Serve também para orientar editores e diretores de programas como o Domingo Espetacular e Pânico na Band, induzindo a ordem das reportagens a serem exibidas. Na estratégia de guerrilha travada principalmente entre Record e SBT, o "real time" do Ibope influencia até no momento que uma emissora decide ir para o intervalo comercial.

Pois essa ferramenta, um programa de computador que mostra qual a audiência de cada emissora no último minuto, não serve para nada, não tem valor estatístico.

Com a palavra, o próprio Ibope, empresa que detém o monopólio da medição de audiência no Brasil: "Os dados de audiência fornecidos em tempo real são meramente estimativos e, por isso, provisórios, de modo que não devem ser utilizados pelo contratante na tomada de decisões".

A declaração consta do relatório do desembargador Cesar Lacerda que fundamentou o acórdão da 28ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, no dia 25 de junho último, em uma åção judicial movida pela Record contra o Ibope.

Na ação, o Ibope admitiu que seu "real time" não serve para nada como uma estratégia de defesa. No processo, a Record levantou suspeitas sobre a qualidade do serviço de audiência em tempo real para pedir a anulação do contrato entre as duas empresas, o que acarretaria em uma indenização milionária por parte do Ibope. A Record pretendia, ainda acesso à "caixa preta" do Ibope, ou seja, queria saber onde está instalado cada aparelhinho medidor de audiência.

O Ibope jogou o "real time" aos leões para proteger seu principal serviço, que é a "audiência consolidada". Convenceu juízes e desembargadores de que a audiência consolidada permanece crível. E se livrou de ter de abrir seus dados mais secretos para a Record, bem como indenizá-la.

Não tem qualidade

A base do questionamento da Record é um estudo técnico-científico feito pelo jornalista Valdecir Becker, mestre em TV digital, doutor em Engenharia Elétrica, professor da Universidade Federal da Paraíba.

Contratado pela Record no início deste ano, Becker comparou as audiências prévias, fornecidas pelo Ibope em tempo real, com as consolidadas, enviadas pelo instituto na manhã do dia seguinte (em São Paulo).

Becker chegou a uma conclusão assustadora: dos 366 dias de 2012, apenas em um único dia, em julho, a audiência prévia coincidiu com a consolidada. E isso apenas nos números da Globo. Nas demais emissoras, houve variações em todos os dias.

O especialista também observou o comportamento das variações. No caso da Record, sua audiência consolidada foi menor em 182 dias e maior em 184. Já para a Globo, a audiência consolidada foi maior em 192 dias e menor em 173. Já o SBT teve consolidados maiores em 224 dias e menores em 142.

Além de uma variação positiva maior para Globo e SBT, Becker detectou outro comportamento: a audiência perdida pela Record na prévia geralmente aparece como ganho para a Globo na consolidada.

Becker também analisou variações minuto a minuto. "Durante a semana de 1 a 7 de novembro, praticamente todos os minutos variaram positiva ou negativamente. Na média, apenas um minuto por dia não variou entre a audiência prévia e a consolidada, o que é, estatisticamente, insignificante", afirma o professor no laudo, obtido com exclusividade pelo Notícias da TV.

Diante dos resultados, Becker conclui: 1) "é um risco usar estratégica e comercialmente as informações da audiência prévia". 2) "A audiência se baseia na credibilidade. Uma vez que as informações prévias não são confiáveis, sendo constantemente corrigidas, pode-se questionar porque os dados consolidados da audiência o seriam. Do ponto de vista estatístico e da análise da audiência, há dúvidas sobre a qualidade e a utilidade das informações fornecidas pelo Ibope".

O Ibope se denfende

Em nota ao Notícias da TV, o Ibope afirmou que "sempre orienta seus clientes e a imprensa a utilizar apenas dados consolidados de audiência do dia seguinte à transmissão, e não os índices prévios do real time, porque eles podem sofrer ajustes".

A medição do Ibope é feita através de people-meters, aparelhos que identificam o canal que o televisor está sintonizando e quais telespectadores daquela casa estão vendo o programa. Os dados são enviados para uma central, que os processa.

Segundo o instituto, "a recepção dos dados de audiência real time do Ibope pode ser afetada em função de problemas de transmissão de informações. Entre eles, operadoras de telefonia, responsáveis pelo fornecimento serviço de transmissão".

Prossegue o Ibope: "Dependendo da abrangência dessas falhas temporárias, ou seja, se a base estiver abaixo dos 60% da amostra prevista, o serviço real time deixa de publicar os dados. Entretanto, é importante ressaltar que as audiências desses domicílios podem ser recuperadas em até seis horas após esse minuto de falha de comunicação. Dessa forma, o Ibope Media recomenda a utilização do dado overnight _índices consolidados e oficiais de audiência, que ocorrem sempre no próximo dia útil ao da veiculação".

Conclui a nota do Ibope: "Esclarecemos que a exatidão dos números de audiência coletados pelos meters é resultado de processos estatísticos e operacionais adotados pelo instituto. O Ibope Media segue padrões e normas para aprimorar suas práticas e garantir a qualidade de processos, como o controle da amostra instalada, colaboração dos participantes do painel, processo de coleta de dados, renovação amostral, trabalhos de campo (entrevistadores, técnicos, instaladores) e controles de manutenção. Esses processos são auditados anualmente pela empresa Ernst &Young, que utiliza como referência para avaliação standards estabelecidos pelo MRC (Media Rating Council), entidade que reúne emissoras e agências e monitora os serviços de medição de audiência nos EUA. A auditoria da E&Y é contratada pelos clientes por meio da comissão Abap-Redes (Associação Brasileira das Agências de Publicidade, principais redes de televisão e representantes de canais de Pay TV, nacionais e internacionais) desde 1998. Além disso, o Ibope também possui uma estrutura de auditoria interna diretamente ligada à diretoria corporativa do grupo, com um programa que audita anualmente os processos do serviço de audiência de televisão no Brasil e na América Latina."

Fonte: UOL