Piauiense posta música na web e inglês o contrata

Piauiense posta música na web e inglês o contrata

Odorico Leal, o Dodô, postou suas músicas no MySpace e foi contratado por um produtor inglês. Mas ele estuda teoria da literatura

Odorico Leal nasceu em Picos, no Piauí, há 27 anos e, sem nunca ter saído do Brasil, ganhou mercado no Reino Unido – na cidade de Bristol. Há dois anos, montou uma página despretensiosa no MySpace com algumas músicas suas. Adotou o misterioso pseudônimo “The amazing broken man”.

Em um clique, foi descoberto pelo produtor musical Kyle Lynd, do popular seriado adolescente Skins (no Brasil exibido no canal VH1 como Juventude à flor da pele). Lynd ouviu, gostou e enviou um e-mail. Odorico (Dodô para os íntimos) ficou surpreso, achou que fosse trote, mas acabou respondendo. Pouco depois, assinava um contrato. Se rendeu uma grana boa? “Deu para pagar alguns meses do aluguel aqui em São Paulo”, diz. O seriado Juventude à flor da pele, produzido desde 2007, acompanha a história de um grupo de amigos entre 16 e 18 anos: festas, namoros, problemas com drogas.

O programa nasceu com o intuito de lançar artistas e bandas com potencial. A banda americana The Gossip, da polêmica vocalista Beth Ditto, ficou popular na Europa depois de ter feito parte da trilha sonora de Juventude à flor da pele. Dodô achou tudo esquisito. Tinha colocado suas músicas lá por puro capricho. “Nem acho que canto ou toco bem”, diz. Seu projeto oficial sempre foi a banda que formou em 2005 com os amigos Gustavo Vidal e Ciro Figueiredo, chamada temporariamente de Oktober Leaves. “Eles, sim, são músicos geniais.” A modéstia pode parecer excessiva, mas é sincera.

Dodô jamais interrompeu os estudos para se dedicar ao sonho de virar astro do rock. Está em São Paulo há quase dois meses, não só para apresentações esporádicas em festas de apê ou galpões alternativos da Rua Augusta. Prepara um projeto de pesquisa para seu doutorado em teoria da literatura, que pretende apresentar no próximo semestre à Universidade de São Paulo. “Se nos próximos anos a música não der certo, darei aula de português e literatura em alguma universidade”, diz, sorridente. Sua vocação é influenciada tanto pela literatura como pela música.

A mãe, Gracinha, de 52 anos, é professora aposentada. O pai, Odorico, de 59, é músico também. Foi ouvindo os discos dos Beatles e dos Rolling Stones do pai que Dodô sonhou em seguir a mesma profissão. O som que produz tem um quê dessas bandas consagradas com algo da música eletrônica da banda alemã Kraftwerk e do rock da inglesa Radiohead. Já compôs em português, inspirado pelo ídolo Belchior. Mas se sente mais à vontade em inglês. Suas letras vão da nostalgia à esperança.

“Don’t let the sun touch my mind” (não deixe o sol tocar minha mente), a melhor, fala do pedido a Deus de um pai para que o filho não se perca. “New year’son”, tema do herói do seriado, celebra o nascimento de seu primeiro sobrinho. “Ainda me permito experimentar”, diz. “Estou buscando um caminho.” Pelo menos uma porta já se abriu.

Fonte: Época