Rebeca Gusmão diz que sofre de bullying virtual até hoje: "me chamam de sapatão, dizem que sou  homem"

Rebeca Gusmão diz que sofre de bullying virtual até hoje: "me chamam de sapatão, dizem que sou homem"

Hoje, aos 29, loira, magra e recém-separada, diz-se pronta para recomeçar – desta vez, muito mais feminina

Maior promessa de medalha feminina na natação em Olimpíadas, ex-atleta – e todo o Brasil – assistiu à triste derrocada de uma carreira brilhante aos 22 anos. Pega em um exame de doping, foi punida e proibida de praticar qualquer esporte. Entrou em depressão, engordou 30 quilos e tentou se matar. Hoje, aos 29, loira, magra e recém-separada, diz-se pronta para recomeçar – desta vez, muito mais feminina

Logo que sentei para conversar com a agora loira Rebeca Gusmão em uma tarde fria e chuvosa em Brasília, ela sacou um iPhone da bolsa. No restaurante em que almoçávamos, mostrou para mim, orgulhosa, uma foto em que aparecia vestida de maiô e touca ao lado da irmã mais velha, na beira de uma piscina. O semblante sério da pequena nadadora, então com 9 anos, revela muito sobre sua relação com o esporte: desde a mais tenra idade, foi treinada para vencer.

Rebeca começou a nadar profissionalmente aos 12 anos em um clube de Brasília, cidade onde nasceu. Depois de apenas três meses de treino puxado, tornou-se a melhor do mundo em sua categoria e conquistou a primeira medalha de ouro, em um campeonato na África do Sul. “Foi uma surpresa”, disse durante a conversa. “Essa medalha estava prevista para vir após três ou quatro anos de treinos.”

Passada a estreia arrebatadora, começou a quebrar os próprios recordes numa escalada incessante e rapidamente tornou-se o maior nome feminino da natação brasileira e a primeira mulher com chances reais de ganhar um ouro em Olimpíadas na modalidade.

Em dez anos de carreira, diz que ganhou mais de 1.500 medalhas. Entram nessa conta as quatro obtidas nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, em 2007. Mas esses títulos foram retirados dela depois que exames deram positivo para uso de anabolizantes e esteroides – resultado que ela contesta até hoje. Naquele momento, Rebeca, com 22 anos, viu sua carreira ruir. Foi suspensa pela Federação Internacional de Natação e nunca mais pôde competir em piscinas. Em 2009, foi proibida de praticar qualquer tipo de esporte profissionalmente pela Corte de Arbitragem do Esporte – na época, jogava futebol em um clube de Brasília.

Sem saber o que fazer da vida, saiu candidata a deputada distrital pelo PCdoB em 2010. Sua votação foi irrisória – teve apenas 437 votos. Arrumou, então, um emprego na Secretaria de Esportes do Distrito Federal, onde deu expediente até meados de setembro. Pediu demissão quando boatos de que participaria do reality show "A Fazenda", da TV Record, começaram a circular. Não foi escalada para a formação inicial do programa. Agora, dedica-se às carreiras de modelo fitness e palestrante motivacional.

Longe das piscinas, Rebeca começou a descontar as frustrações na comida. Em três anos, engordou 30 quilos. Sua saúde mental piorou ainda mais em 2013, quando o marido deu fim ao casamento de seis anos. Em agosto do ano passado, entrou em coma por ter ingerido antidepressivos misturados com bebidas alcoólicas. O episódio foi o ponto de virada para a assombrosa recuperação, detalhada por ela – em meio a outros escândalos – na entrevista a seguir.

MARIE CLAIRE - Depois que parou de nadar, você entrou em uma depressão profunda. Como venceu a doença? REBECA GUSMÃO - No fim do ano passado, quando voltei do hospital [depois do coma], prometi a mim mesma que 2014 seria diferente. Queria deixar tudo para trás e ser uma nova Rebeca: fisicamente, emocionalmente. Mudei minha alimentação e meus hábitos. Tomei remédios, fiz terapia. Voltei a praticar esportes, a sair, a rir e conhecer outras pessoas. MC - Você entrou em coma porque tentou o suicídio? RG - Não foi uma atitude consciente. Fui parar no hospital depois de tomar uma dose maior do que a recomendada dos remédios de depressão misturada com álcool. Sabia que faria mal, mas não a ponto de poder me matar. Já tinha pensado em me suicidar, mas não tinha coragem. Apaguei por três dias. Quando acordei do coma, no hospital, pensei: “Ué, tô aqui?”. E voltei a sentir uma dor no peito que não passava. Minha mãe olhou pra mim e disse: “Você nasceu de novo”.

MC - Como começou essa depressão, essa tristeza? RG - Quando parei de nadar, perdi o sono. Só conseguia dormir às 7 horas da manhã, depois de beber bastante. Chorava muito e comia durante a noite. Sentiame feia, mas não estava em depressão profunda, ainda tinha meu casamento, família e amigos. MC - Quando você caiu de vez?

RG - Quando me separei [do cantor lírico Gutemberg Amaral, 39 anos, com quem foi casada por seis anos]. Porque, quando perdi a natação, transferi meu amor para a vida pessoal. Mas, com o fim do casamento, brinco que não fui para o fundo do poço, mas para o pré-sal da depressão. Perdi 40 quilos em um ano e 20 deles em dois meses. Continuei bebendo, mas aí já não era mais para dormir, era para sair da realidade. Sentia uma dor no peito, na cabeça, que não passava por nada. Era agoniante. Tinha feridas pelo colo de tanto me coçar, me arranhava por sofrimento. Depois a psicóloga me explicou que quem tem depressão faz isso na tentativa de aliviar a dor interna.

MC - Como se sente hoje?

RG - Depressão é como diabetes, não tem cura. Estou sob controle e ainda tomo remédios.

MC - Você ainda gostava do seu ex no momento da separação?

RG - Meu ex-marido foi minha primeira paixão. Foi meu professor de artes na escola, dez anos mais velho do que eu. Ele foi morar fora e nos reencontramos quando eu tinha 21. Logo começamos a namorar. Casamos um ano depois e vivemos épocas boas, claro. Há dois anos, começamos a discordar muito e não soubemos colocar um ponto-final na relação. Até que ficou intragável. Ele decidiu terminar e tive que me segurar muito para não pedir para voltar. E olhe que, no fim, ele me colocava para baixo, me humilhava. Eu me arrumava, mas só ouvia que estava horrorosa. Fazia algo tentando ajudar e ele respondia que eu só atrapalhava. Eu também tive meus erros, evidentemente. Hoje não desejo mal a ele, apesar de ele ter me feito muito mal. Mesmo assim, não deixei de amá-lo quando a relação acabou. Por um tempo ainda pedi a Deus que restaurasse meu casamento.

MC - Agora você está namorando um empresário de Brasília?

RG - Sim. Uma pessoa maravilhosa, que nunca imaginei que existisse. Estamos junto há alguns meses. Mas não conto nada sobre ele: nome, idade, nem o que faz.

MC - Por quê?

RG - Tenho uma revolta muito grande com a mídia. [Na época em que foi pega no exame antidoping] acordava cedo para pegar o jornal na casa dos meus pais e não deixá-los ler as notícias [negativas] que saíam sobre mim. Eles não assistem à TV até hoje por causa disso, pegaram trauma. Uma vez, disseram no Jornal Nacional que eu poderia pegar de dois a cinco anos de cadeia [Rebeca foi acusada – e absolvida – do crime de falsidade ideológica, acusada de ter trocado o exame que continha sua urina para avaliação do teste de doping]. Você imagina que a minha mãe assistiu a isso? [Começa a chorar copiosamente] Lembro que liguei para ela nesse momento. Ela atendeu aos prantos. Eu dizia que não tinha nada daquilo, que ela não precisava se preocupar. Quando desliguei, joguei o telefone na parede de ódio. Fora que perdi minha avó com problemas de coração por causa dessa história. Ela teve um infarto depois que, com o perdão da palavra, uma filha da puta de uma pessoa no mercado falou mal de mim para ela. Faleceu de problemas cardíacos. Ouvi muito: “Você é ruim, matou sua avó”. E, mesmo que tivesse feito [tomado os anabolizantes], é um problema meu. A prejudicada fui eu. Não roubei, não matei, não estuprei. A prejudicada maior dessa história fui eu. Então, hoje, não deixo ninguém falar com a minha família. Em casa não tem telefone fixo para nenhum repórter ligar.

MC - Mas por que resolveu dar esta entrevista?

RG - Sempre dei entrevistas. Quero proteger meus pais da imprensa.

MC - Afinal, tomou anabolizantes nos jogos de 2007?

RG - Não. Sempre fui muito visada nas competições. Fiz meu primeiro controle de doping aos 13 anos. Nem sabia do que se tratava. Fui testada porque era uma das mais fortes. Sempre tomei cuidado com o que ingeria. Claro que a gente toma suplemento e não é nem para melhorar a performance em uma prova, é para poder aguentar o treinamento.

MC - Alguma vez te ofereceram anabolizantes?

RG - Já. Médicos endocrinologistas. O que não dá para ser é hipócrita. Se alguém me falasse: “Rebeca, tem uma substância aqui que, se você tomar, vai ser campeã olímpica e não é doping”, eu tomaria. Agora, se o médico dissesse que aquilo iria me matar em uma semana, não o faria. E o atleta que negar isso está mentindo. Logo que alguma substância é liberada, tá todo mundo tomando dez vezes a quantidade recomendada no dia seguinte.

MC - Como foi receber o resultado do exame de doping depois dos Jogos do Rio, em 2007? RG - Lembro como se fosse hoje. Era 2 de novembro de 2007. Recebi a ligação do presidente da Confederação [Brasileira de Desportos Aquáticos], dizendo que havia um problema nos meus exames do Pan. Eu perguntei: “Do Pan? Qual exame?”. Ele me chamou lá para resolver. Comecei a chorar na hora. MC - Então você já sabia do que se tratava?

RG - Fiz cinco exames para o Pan, apenas um deu problema. Um único que foi enviado para um laboratório no Canadá. E eu já tinha um processo contra esse laboratório. Hoje, olhando para trás, consigo enxergar que foi uma armação muito grande. No meio do furacão, não conseguia entender nada. Nesse dia, meu pai começou a me ligar sem parar porque o presidente [da Confederação] tinha ligado para ele antes de falar comigo. Eu não via o número dele no telefone e não conseguia atender. Não tinha coragem de mostrar para ele o estado em que estava. Aquilo tirou meu chão. Depois, fui até a casa dos meus pais, disse que não sabia o que estava acontecendo. Ele me abraçou e falou que sempre estariam comigo no momento em que eu precisasse [chora].

MC - Você se arrepende de alguma coisa dessa época?

RG - Não posso me arrepender de ser imatura. Eu precisava viver tudo isso e me tornar mais forte.

MC - Você acredita que foi manipulada por alguém em algum momento de sua carreira?

RG - Uma vez, quando tinha 19 anos, me machuquei e o médico prescreveu uma medicação que tinha substâncias que eu desconhecia. Fui obrigada pela Confederação a assinar um termo assumindo a responsabilidade pelo que tomava e isentando o médico. Assinei chorando para não perder o patrocínio. Se fosse hoje, teria feito um estardalhaço. Por sorte, não consegui abrir o pote e, no fim, não tomei a medicação.

MC - Quando você soube que seria nadadora?

RG - Na infância. Estava em um shopping com meu pai, com a cara colada na vitrine de uma loja de eletrônicos, vendo uma prova do Xuxa [o nadador Fernando Scherer, durante as Olimpíadas de Atlanta, em 1996]. Ele ganhou e me chamou a atenção a maneira como chorava. Aquilo tocou profundamente minha alma. Eu já nadava porque tinha bronquite. Daquele dia em diante, nadei para ir às Olimpíadas. Falei para o meu pai: “Quero ser nadadora profissional, atleta”. Ele perguntou se tinha certeza, alertou para a responsabilidade e disciplina que teria de ter a partir de então. Encarei numa boa.

MC - Nos perfis escritos sobre você, consta a informação de que, aos 8 anos, você conseguia arremessar uma bola de basquete de um lado ao outro da quadra da escola. Isso é verdade?

RG - Desde pequena fui a mais alta da turma [hoje mede 1,78 metro e pesa 73 quilos], sempre tive muita força. Era magrinha, mas muito forte. Uma vez, jogando queimada na 4ª série, quebrei o braço de uma menina ao arremessar a bola nela. Aquilo me assustou muito e as crianças começaram a me chamar de monstro. Chorei um monte. Sempre fui a menina estranha, mas não tímida. Me dava muito bem com os meninos, por exemplo. Quando tinha jogo de futebol, era a única garota escolhida.

MC - Sua sexualidade e seu gênero são motivos de ataques e dúvidas na internet, há especulações de que você seria hermafrodita. Como lida com isso?

RG - É muito triste julgarem pela aparência. Isso é coisa de gente covarde, invejosa. No esporte, quando desconfiam da sua identidade sexual, te obrigam a fazer um exame de feminilidade. Felizmente nunca fui chamada para fazer um desses. Já fiz milhões de controles de doping, mas de feminilidade, nunca. E até hoje sou vítima de bullying vir¬tual: me chamam de sapatão, dizem que sou homem, que pareço o Hulk, que se eu for para a cama com um cara eu que vou comê-lo. Essas pessoas têm que procurar ajuda. Quem perde tempo e energia com esse tipo de coisa?

MC - Você já ficou com mulheres?

RG - Já. Mas é só diversão, não sou bissexual. Nunca me imaginei passando a vida com uma mulher. Sempre que aconteceu foi em festa, quando estava muito alegre. Pegar uma mulher é muito diferente. Apesar de ser só de brincadeira, tem sempre uma ligação mais profunda. É uma coisa doida.

MC - Já fez ménage à trois?

RG - Não. Um namorado já propôs, mas respondi que era um risco. Eu podia achar aquilo muito legal e nunca mais querer transar só com o cara. Ou então o cara podia se apaixonar pela menina, eu podia gostar dela... Não acho que vale a pena estragar o que está bom.

MC - Recentemente, você foi acusada por um médico de ter desviado dinheiro da conta dele e também pelo dono de uma loja de suplementos de não ter pago por mercadorias compradas. O que tem a dizer sobre esses novos escândalos?

RG - Quanto mais famoso você é, mais gente quer aparecer às suas custas. Foram mal-entendidos, que já foram esclarecidos.

MC - Já teve outros problemas com a polícia?

RG - Além do processo por falsidade ideológica, a coisa mais ridícula do mundo, teve outro caso: fui para cima de um cara que atropelou de propósito uma pessoa de que eu gostava. Fomos parar na delegacia. Quando você é uma pessoa pública, é muito difícil fazer uma coisa errada. A verdade é que zé-ninguém não vende mídia, não é mesmo?

MC - Você foi condenada pela Federação Internacional de Natação e pela Corte de Arbitragem do Esporte por uso de anabolizantes. Ainda está recorrendo da decisão?

RG - Sim, mas custa muito dinheiro. Não tenho como pagar. No final do ano passado, quando decidi dar a volta por cima, aceitei que nunca mais seria uma nadadora profissional. Prometi a mim mesma que não ficaria triste quando falassem desse assunto comigo. E ter colocado silicone no peito foi simbólico. Ter seios grandes me atrapalhariam em uma competição. Isso mexia com o meu psicológico, até colocava meias dentro do sutiã quando saía.

MC - O que mudou depois da plástica?

RG - Os homens olham muito mais! E me sinto mais feliz, mais mulher, mais realizada. Estou vivendo minha fase mais feminina. Isso preenche um vazio que eu achava que só completaria com um filho.

MC - Você pensa em ser mãe?

RG - Por enquanto não. Está tudo indo muito bem desse jeito.

 

 

 

 

Fonte: Marie Claire