Conta de peso: Romário, Gamarra, Pet e R10 cobram R$ 85 milhões do Flamengo; confira!

Conta de peso: Romário, Gamarra, Pet e R10 cobram R$ 85 milhões do Flamengo; confira!

"Não sei dos valores. Não participei de nada", limita-se a dizer vice jurídico, Rafael de Piro

Quase um ano e cinco meses após a apresentação apoteótica de Ronaldinho Gaúcho, o Flamengo vê se repetir uma sina que frustra o torcedor e esvazia o caixa do clube. O craque chegou para escrever seu nome na história rubro-negra, mas saiu debaixo de críticas ao seu desempenho em campo e pelo comportamento fora dele. R10 já até trocou de camisa, mas ainda tem a receber do clube carioca. Veste a alvinegra do Atlético-MG e cobra dos rubro-negros suposta dívida no valor estratosférico de R$ 40 milhões. Ao ser o primeiro dos grandes jogadores a esvaziar no clube o armário com liminar debaixo do braço que suspende o contrato, entrou para o seleto rol dos craques também da cobrança: juntou-se a nomes de peso internacional como Romário, Petkovic e Gamarra. Em todos os casos, o divórcio custou caro.

O valor somado dos quatro medalhões na cobrança ao clube chega a assustadores R$ 85 milhões - o litígio de R$ 40 milhões com Ronaldinho ainda não tem decisão final da Justiça. Desses, foram quitados R$ 15,7 milhões. A história é sempre a mesma: o clube deve salários, Fundo de Garantia, direitos de imagem, entre outros encargos trabalhistas. Os números de R10 são os mais altos. Mas os de Romário, Petkovic e Gamarra também dão um bom prejuízo.

Caso Romário

A festa para a chegada de R10 não foi o único caso de euforia que terminou em divórcio com marcas nos tribunais. Quando desembarcou no Rio e foi apresentado à torcida em gigantesca carreata, Romário ainda era o maior jogador do planeta. O ano era o de 1995, seguinte ao da conquista do tetra mundial pela Seleção Brasileira. Tratado como herói, o craque chegou do Barcelona para ser o principal nome do elenco no centenário rubro-negro.

Romário mexeu com o Flamengo. Para o bem e para o mal. Marcou 204 gols em 240 jogos, ganhou dois Cariocas e uma Mercosul, mas, na verdade esperava-se mais do Baixinho. Não conquistou Brasileiro e sequer vaga para disputar a Libertadores. Problemas com treinadores - foi, a exemplo de Ronaldinho, o principal responsável pela queda de Vanderlei Luxemburgo, só que em 1995 -, jogadores e dirigentes nas idas e vindas - saiu e voltou duas vezes em quatro anos - culminaram em 1999, na fase final da Copa Mercosul.

Durante uma viagem para Caxias do Sul, o jogador se meteu em confusão quando deixou a concentração para prestigiar a "Festa da Uva" com vários jogadores e modelos. A escapada acabou em punição. Acabou demitido pelo presidente da época, Edmundo Santos Silva. O jogador foi para o Vasco e entrou na Justiça contra o Rubro-Negro por atrasos de salários, FGTS, direitos de imagem e danos morais.

Romário cobrava R$ 15 milhões. Ganhou na Justiça e, anos depois, fez acordo para quitar a pendência. O Flamengo ficou de pagar com a verba que recebia do Clube dos 13. De 2004 a 2010, cumpriu o acordo. Com o fim da entidade, em 2011, simplesmente passou a ignorar as parcelas que ainda devia. Por causa da inadimplência, a dívida já pulou para R$ 25 milhões.

- No contrato firmado com a RSF (Romário de Souza Farias e Participações) com o Flamengo em 5 de janeiro de 2004, foi acordado o pagamento da dívida de R$ 15.550.000 em 144 parcelas de R$ 108 mil, corrigidas a cada 12 meses. As ações eram na Justiça comum, na 33ª Vara Cível, e na Justiça do Trabalho, na 47ª Vara do Trabalho - afirmou o advogado Paulo Reis.

O advogado cuida do processo trabalhista de Romário e acredita que, dos R$ 25 milhões devidos ao jogador, o clube tenha quitado R$ 9 milhões.

Ex-presidente do Flamengo entre 1995 e 1998 e vice de 2005 até 2009, Kleber Leite foi o dirigente que executou o projeto Romário. Se durante o seu mandato os pagamentos foram cumpridos, depois a coisa desandou na gestão Edmundo Santos Silva, que o sucedeu. Até hoje indignado pela forma como o jogador saiu da Gávea, Kleber não poupou críticas à gestão atual no caso Ronaldinho.

- Tudo isso é uma imensa irresponsabilidade. Esse assunto do Ronaldinho começou mal, caminhou mal e terminou mal. O Flamengo assumiu uma dívida de R$ 70 milhões sem ter um contrato assinado com a Traffic. Deu no que deu. No caso do Romário também houve irresponsabilidade. Mandaram o jogador embora de uma delegação sem amparo jurídico. Aí, além do processo pelo não pagamento de salários, ainda recebeu outro por danos morais. E o clube fica prejudicado.

Kleber, no entanto, não é contra o clube tentar contratar grandes astros. E defende a passagem de Romário no clube, apesar de todos os problemas.

- Quando fui fazer a oferta por ele, já tinha tudo bem amarrado. É assim que tem que ser. A questão não é não contratar. Acho que o Flamengo tem que pensar grande, do tamanho que tem. Sonhar com craques do nível do Romário, do Ronaldinho. E é claro que o Romário deu retorno. Ganhou dois Cariocas, Copa Ouro, Mercosul, que é um título internacional. Fora que a contratação dele representou uma retomada da autoestima. Sacudiu a torcida no país inteiro. Na época, aumentou o número de sócios pagantes de 3 mil para 45 mil. Não é só por títulos que se mede a passagem do jogador pelo clube.

Dívida com Pet

Quem dá valor a títulos e grandes atuações em jogos decisivos não pode deixar de reconhecer a importância de Petkovic para a história do Flamengo. O gol de falta aos 43 minutos do segundo tempo que deu o tricampeonato carioca em 2001 vira e mexe aparece em programas esportivos. O lance já era suficiente para torná-lo ídolo eterno. Mas teve mais. Oito anos após o triunfo, o sérvio ainda conduziu o time, com Adriano, ao título brasileiro em 2009. Só que as atuações memoráveis, nas duas ocasiões, tiveram um custo que pode ser muito maior para os cofres rubro-negros.

Após o primeiro adeus ao Flamengo, Pet entrou na Justiça reclamando de salários atrasados, Fundo de Garantia e direitos de imagem. O Flamengo chegou a pagar aproximadamente R$ 4 milhões ao jogador. Porém, com constantes penhoras sobre suas receitas, oito anos depois, o clube negociou a volta do sérvio e um parcelamento da dívida restante.

Foi combinada uma antecipação de R$ 600 mil ao jogador e 47 parcelas de R$ 200 mil - o que, somadas a honorários de sucumbência e liberação de valores penhorados, totalizava R$ 13 milhões. Neste acordo, feito na gestão de Delair Dumbrosck, o total da dívida corrigida - incluindo o que já fora pago ao atleta - foi reconhecido em R$ 17,1 milhões.

Com os novos atrasos nos pagamentos deste acordo, o clube ficou sujeito à multa prevista no documento de 30% sobre o valor total da dívida (R$ 17,1 milhões). O montante exato que o Flamengo deve hoje a Petkovic é incerto. Está sendo calculado de acordo com movimento recente no processo. Josias Cardoso, procurador do sérvio, não quis confirmar os números. Alegou segurança ao cliente. O escritório do ex-jogador não retornou as ligações. Petkovic foi ao "Tá na Área", programa do SporTV, na última terça-feira, e evitou falar sobre os valores.

- Depois da dívida de 2009, fui realmente à Justiça, era uma cobrança da minha primeira passagem pelo Flamengo. Chegou realmente a esses valores. Na negociação, perdoei, abri mão de metade do dinheiro e fiz um acordo. Esse acordo foi descumprido em 2010. Fiz novo acordo, perdoando o Flamengo de novo. Agora estamos com essa pendência na Justiça ainda... O Flamengo paga, não paga, paga, não paga...

Ércio Braga, diretor jurídico do Flamengo quando Delair Dumbrosck assumiu interinamente a presidência - Márcio Braga tirou licença por motivos de saúde -, disse que pediu demissão após o acordo do clube firmado com o jogador. Segundo ele, a negociação só não foi boa para o Flamengo.

- Botei o cargo à disposição na época porque considerei o acordo lesivo. O valor negociado ficou bem acima do de débito. O Flamengo ainda pagou os honorários do advogado dele. Um absurdo.

Delair Dumbrosck discorda da afirmação de que o acordo com Pet foi ruim para o Flamengo. E põe o aumento da dívida com o ex-jogador na conta da atual presidente.

- De forma alguma foi lesivo o contrato. Reduzi a dívida, que já era de R$ 17 milhões, para R$ 10 milhões. Pulou de novo para os R$ 17 milhões porque o Flamengo começou a atrasar os pagamentos e aí veio a multa. Foi erro da atual diretoria.

Gamarra

Petkovic não foi o único astro gringo a deixar o clube lembrando a frase com sotaque do ex-tricolor paraguaio Romerito tão conhecida nos anos 1980. "Quiero mi dinero" virou mantra também para Carlos Alberto Pavón Gamarra. Na época considerado o maior zagueiro do mundo, o paraguaio chegou com banca e alto salário. Em volta com uma série de contusões e salários atrasados, brindou os torcedores rubro-negros com seu futebol talentoso por apenas 30 partidas, com um gol marcado.

Os constantes atrasos nos salários, depósito de Fundo de Garantia e pagamentos dos direitos de imagem fizeram o jogador desistir de continuar no clube. Rumou para o futebol grego e acionou o Flamengo na Justiça. Dos craques contratados sob expectativa de marcarem época, foi o que menos brilhou na relação custo-benefício e o que mais acabou recebendo proporcionalmente na Justiça: dos R$ 3 milhões, já recebeu R$ 2,7 milhões.

A relação conturbada do Flamengo com craques de prestígio internacional é apenas um dos capítulos. Segundo um ex-diretor, que pediu para não ser identificado, o quadro geral é ainda mais desolador.

- Há outras coisas lá dentro que as pessoas não imaginam. Se um salário de qualquer jogador atrasar por um dia, já existe multa de 30%. Lá dentro, tem muito funcionário com desvio de função. Quando sai, entra na Justiça e ganha. Não existe a menor política de pessoal. Como pode acontecer uma coisa dessas num clube como o Flamengo? - afirmou.

Como o Flamengo reconhece ao menos uma dívida de R$ 5 milhões com Ronaldinho Gaúcho, a única coisa certa é que a dívida milionária do clube com craques vai aumentar.

O Baixinho, por exemplo, faturou na Justiça R$ 25 milhões - até agora, recebeu do clube R$ 9 milhões. A cobrança do sérvio atingiu a cifra de R$ 17 milhões. O número de parcelas quitadas a partir do acordo feito em 2009 não foi informado pelo clube, tampouco pelos advogados do ex-jogador. Antes desse parcelamento, o sérvio já havia recebido cerca de R$ 4 milhões.

A de Gamarra é a mais baixa: R$ 3 milhões - e o clube já pagou R$ 2,7 milhões ao ex-zagueiro paraguaio. As negociações das dívidas foram tão confusas, com várias paralisações nos pagamentos por parte do clube, que os próprios representantes jurídicos dos ex-atletas tiveram dificuldade de calcular o valor atual, ainda sujeito a mudanças, especialmente no caso de Pet.

- Não sei dos valores. Não participei de nada com relação a Pet, Gamarra e Romário. Depois, poderei falar a respeito do caso do Ronaldinho, mas não agora, pois está sob segredo de Justiça - limitou-se a dizer o vice jurídico do Flamengo, Rafael de Piro.

Fonte: Globo Esporte, www.globoesporte.com