Fabuloso: \"Não sou bichado e vão engolir o que falaram de mim\"

Atacante sonha reestrear contra o Corinthians e acha possível ultrapassar Chulapa para se tornar o maior artilheiro da história tricolor

A fisionomia continua a mesma. Cabelo curto e batido dos lados. O jeito brincalhão, boa praça, também. Quando a reportagem do GLOBOESPORTE.COM chega ao CT da Barra Funda para conversar com Luis Fabiano, ele aparece com largo sorriso. Antes de a câmera ser ligada, há tempo até para uma brincadeira com a assessoria de imprensa do São Paulo. Só que, quando a entrevista começa para valer, a situação muda de figura.

Ao longo de 45 minutos de papo, percebe-se claramente o carrossel de sensações que toma conta do camisa 9 do Tricolor há 175 dias, desde que sua contratação foi anunciada por ? 7,6 milhões (R$ 17,5 milhões). A alegria da chegada ao aeroporto, a surpresa e a emoção de ver a festa no Morumbi tomado por 45 mil pessoas em um dia que não havia jogo, a ansiedade de ter o nome relacionado para enfrentar o Avaí, a tristeza de ser cortado por causa da fibrose, o desânimo de ter de ser operado para sanar o problema e o desespero em saber que, após ter um problema de cicatrização, necessitaria de uma nova cirurgia.

Mas o atacante de 30 anos não desiste. Mantém o foco no tratamento e está prestes a iniciar a última etapa da recuperação para sua volta aos gramados, que deverá ocorrer entre a segunda quinzena de setembro e o começo de outubro. Nesta entrevista, o Fabuloso abriu o jogo: falou da dura rotina da fisioterapia, de como foi revoltante ouvir os comentários de que estaria bichado, que sonha reestrear no clássico contra o Corinthians, no dia 21 de setembro. E mais: que acha possível encerrar sua carreira como maior artilheiro da história do clube.

- Ultrapassar o Serginho Chulapa não será uma meta fácil, mas é possível. Seria maravilhoso poder marcar o nome na história do São Paulo pelos títulos conquistados e por ter me tornado o maior goleador de todos os tempos. Até porque seria uma marca difícil de ser batida - afirmou o Fabuloso, entre muitas outras coisas. Confira abaixo:



Você foi contratado no dia 11 de março, apresentado 18 dias depois e até agora não estreou. O que passa pela sua cabeça após quase seis meses?

Luis Fabiano: Não é fácil. Eu não esperava. A festa na minha apresentação foi um momento histórico, nunca tinha visto nada parecido no Brasil. Daí para frente, não esperava passar por tantas dificuldades. Mas acho que são coisas pelas quais eu tinha de passar. Na minha carreira, nunca havia ficado mais que dois meses machucado. Agora é ter paciência. Não existe momento certo para machucar. Mas pelo menos tudo isso está ocorrendo no clube que sempre sonhei voltar e isso, sem dúvida, me dá mais motivação para superar tudo que está acontecendo. Estar no São Paulo é o que faz trabalhar ainda mais.

Como está sendo lidar com todo esse processo?

Esperava jogar contra o Avaí (dia 4 de maio, pela Copa do Brasil). Em dois dias, fui da alegria de treinar e ser convocado (pelo técnico do São Paulo) para a tristeza de saber que não jogaria por causa da fibrose e que teria de operar. Aí, você para, pensa e busca forças na família e nos amigos. Todo esse período fora tem me ensinado muitas coisas. Está servindo para eu crescer. Tem sido uma lição de vida.

Fale sobre a sua rotina de tratamento...

Machucar é difícil por isso. Você precisa ter muita cabeça para enfrentar tudo o que os fisioterapeutas pedem para a gente fazer. São muitos exercícios e pior, é muita repetição. Para piorar, é tudo dentro de um ambiente fechado, onde todo jogador odeia ficar. E você não tem folga. É sábado, domingo... Teve dia em que cheguei aqui às oito horas da manhã e fui embora às seis, sete da noite.

Você se assustou com tudo que aconteceu?

Assustar, não assustou. Mas não esperava. Sinceramente, como todos, achava que, tirando a fibrose, tudo estaria resolvido. É claro que, após uma cirurgia, teria de fazer fortalecimento, mas não esperava outro problema (falta de cicatrização). A cicatriz é grande porque a fibrose era grande. Além do que, na segunda operação, foi preciso tirar um músculo, juntar outros dois e costurar. Eu sei de tudo que aconteceu, os médicos me explicaram.



Na sua outra passagem pelo São Paulo, você marcava muitos gols, mas tinha um gênio explosivo e até causou alguns incidentes. Como está fazendo para se controlar agora diante de tantas adversidades?

Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Os erros que cometi naquela passagem foram dentro de campo. Fora, sou completamente diferente. Em 2003, tinha 21 anos, não pensava em nada antes de fazer. Agora já rodei bastante, sou pai e você aprende. Passa a pensar antes de fazer. O momento agora é completamente diferente.

Em algum momento perdeu a cabeça?

Posso te dizer que em vários momentos fiquei bravo, mal-humorado, reclamei muito. Mas durava um minuto (risos). Essa rotina é desgastante, mas é necessária, eu preciso passar por isso para voltar. Nos momentos em que ficava deprimido, várias pessoas apareciam para me dar força e superar.

Em todo esse período como tem sido o contato com os demais jogadores?

Posso dizer que, desde o meu primeiro dia aqui, fui muito bem recebido por todos. Eles passam pelo Reffis, cumprimentam, brincam. Isso é importante, dá muita força. Até porque também existe a expectativa deles de quando poderei estar em campo para trabalhar no dia a dia e ajudá-los em campo.

Você terá custado ao São Paulo R$ 17,5 milhões ao final de quatro anos. Deste valor, 40% já foi quitado e até agora você não entrou em campo? De alguma maneira você se sente em débito por isso?

Sinceramente, não! Se estou aqui, é porque tive uma grande parcela de contribuição. Todo mundo está vendo tudo que estou fazendo para jogar. Não me sinto pressionado por ninguém da diretoria e nem do departamento médico. Todos me dão apoio integral. Não tenho nenhuma dúvida. O futebol é assim, são coisas que você não espera, mas que precisa enfrentar. Esperava ser apresentado e jogar após três ou quatro semanas. Esse era o prazo inicial.

Como está sendo viver como torcedor?

Não é fácil. É um sofrimento constante ficar fora, ainda mais eu sou que sou um cara que tinha de estar lá dentro para ajudar. Quando perde, sou como o torcedor, fico p.. da vida, frustrado.

Você veio para trabalhar com o Carpegiani e, do lado de fora, o viu ser demitido. Como foi esse processo?

É difícil um treinador perder duas ou três partidas e seguir no comando. Vários já caíram. Lamento muito porque tinha vontade de jogar com o Carpegiani. Mas são coisas do futebol, perder clássico (referindo-se a derrota de 5 a 0 para o Corinthians) complica demais, gera desconfiança. Está sendo assim com o Tite no Corinthians. No futebol brasileiro, isso é normal.

Recentemente, o presidente do Corinthians, Andrés Sanches, disse que o Adriano (atacante que também se recupera de lesão) voltará antes que você? Como encara isso?

Eu não ouvi da boca dele, mas escutei os comentários. Se isso vai acontecer, só Deus sabe. É a opinião dele.

Durante os incidentes enfrentados durante a recuperação, certamente você deve ter escutado comentários de pessoas que questionaram o seu estado físico, dizendo que você teria vindo bichado para o São Paulo.

Eu tenho certeza de que vou voltar a jogar. Não vim bichado e muita gente vai engolir o que falou. É lamentável alguém dizer isso porque não estão falando só de um jogador e sim, de um ser humano. Joguei três anos sem férias por causa da Seleção Brasileira, o Sevilla (ESP) não queria me vender porque acreditava que eu voltaria antes do fim da temporada passada, em maio. O que aconteceu pode acontecer com qualquer um no futebol. Mas não adianta ficar falando, na hora certa eu vou dar a resposta em campo.

Na sua primeira passagem pelo São Paulo, você teve o Kaká como seu grande parceiro. Hoje, o Lucas é a grande revelação e percebe-se que existe um entrosamento muito grande com você. É possível comparar os dois?

No talento, sem dúvida. O Lucas chama a atenção, é diferenciado e, sem dúvida nenhuma, vai se tornar um grande jogador. Mas ele o Kaká têm estilos completamente diferentes. O Kaká é mais alto, mais forte e atua de maneira mais centralizada. Os dois são rápidos, mas o Lucas atua mais pelas pontas.

Quando você volta?

Eu só posso dizer que está perto. Essa é a confiança que tenho. Eu pergunto todos os dias para os fisioterapeutas quando vou voltar. Por mim, já estaria no campo, afinal não sou médico e não tenho mais dor. Mas sei que preciso fazer fortalecimento e equilibrar a musculatura. Ninguém mais quer que esse dia chegue do que eu.

A sua volta está próxima, isso é fato. E claro, surge a pergunta: quem vai sair do time?

Isso é com o treinador. Mas eu não quero jogar por nome, quero jogar porque tenho condições. Estou aqui para tentar fazer o meu melhor e mostrar que posso estar em campo. E, se for preciso, estou disposto a lutar pelo meu lugar. Aqui é um grupo e o São Paulo precisa de todos

O torcedor do São Paulo olha para a tabela, olha para o dia 21 de setembro e vê o clássico contra o Corinthians no Morumbi. Dá para sonhar com o Luis Fabiano em campo?

Eu também vejo a tabela e olho para o dia 21 de setembro. Sonhar não custa nada, não paga nada. Sei que a realidade é diferente, mas eu sonho poder jogar esse jogo. Seria especial porque jogar e ganhar esse clássico tem um gostinho a mais.

Quais são os seus planos no São Paulo?

É claro que o primeiro é jogar e isso estou bem perto. Depois, quero brigar pelo Campeonato Brasileiro, o que vai nos levar para a Libertadores no ano que vem, que é um grande objetivo que tenho. É por isso que voltei e é por isso que luto todos os dias. O que o torcedor fez na minha festa foi especial, não esperava nem a recepção que aconteceu no aeroporto. Com tudo isso, sei que a minha responsabilidade aumenta. Todos querem ver o Luis Fabiano do passado. Hoje, sou outro jogador, mas estou pronto para ajudar.

Hoje você é o 12º maior artilheiro da história do São Paulo, com 118 gols (em 160 jogos). Para alcançar o Serginho Chulapa, que é o primeiro e tem 242, faltam 124. Acha isso possível?

É uma meta complicada, mas é possível. Em três anos e pouco, terei de marcar mais ou menos 40 gols por temporada. No meu melhor ano no São Paulo, fiz 45. Não é fácil, mas é algo motivante. Pelo carinho que tenho pelo clube, seria legal marcar o nome na história por títulos e por ser o maior artilheiro da história. E acho que, se isso ocorrer, ninguém vai me alcançar. Até porque, quem surge hoje e destaca, logo vai para a Europa. Ficaria para o resto da vida.

Você pensa na Copa de 2014?

Pensar, eu penso. Enquanto eu jogar, acho que tenho condições de estar na Seleção. Seleção é o tipo da coisa que nunca pode sair da sua cabeça. Mas ainda tenho muitas etapas para percorrer antes de pensar nisso.

Passado mais de um ano, você já conseguiu entender o que aconteceu na Copa do Mundo de 2010?

Não entendo, não aceito e ainda dói demais. Não tem explicação. Ninguém consegue entender como fizemos um brilhante primeiro tempo contra a Holanda e uma segunda etapa horrível. Em Copa do Mundo você não pode errar. Quando isso acontece, ainda mais diante de um adversário como a Holanda, você perde (o Brasil perdeu por 2 a 1 e foi eliminado nas quartas de final). Depois, com um homem a menos (Felipe Mello foi expulso) e todo o nervosismo, ficou difícil reagir. E o Dunga acabou crucificado, o que achei um absurdo.

Para fechar, deixe uma mensagem para o torcedor são-paulino.

Quero agradecer o apoio que estou recebendo desde que cheguei. Onde vou, só escuto palavras de incentivo. Estou lutando muito para voltar e logo logo o Luis Fabiano estará de volta para dar muitas alegrias ao torcedor do São Paulo.



Fonte: Globo Esporte