Juvenal promete um São Paulo "brigador" para temporada 2012

Folclórico, polêmico e centralizador. Juvenal Juvêncio termina 2011 na alça de mira da torcida do São Paulo

Folclórico, polêmico e centralizador. Juvenal Juvêncio termina 2011 na alça de mira da torcida do São Paulo. Afinal, após o tricampeonato brasileiro (2006 a 2008), o clube do Morumbi perdeu o rumo. Longe da Libertadores pelo segundo ano consecutivo, o presidente virou alvo fácil de críticas. Chamado de ditador pela oposição, que tenta a todo custo tirá-lo do poder assumido em 2006, é responsabilizado pela torcida pelos insucessos dentro de campo. Os mais exaltados, inclusive, acreditam que a equipe só vai se reerguer quando ele não estiver no poder.

Mas o ex-delegado, advogado, e presidente pela terceira vez seguida (ele também presidiu o clube de 1988 a 1990) não se entrega. Com pulso firme, diz que fará o que for preciso para fazer o São Paulo voltar a crescer e ser respeitado. Na conversa de uma hora que teve com a reportagem do Globoesporte.com em sua sala dentro do estádio Cícero Pompeu de Toledo, Juvenal surpreendeu. Entre outras coisas, reconhece que deixou o futebol de lado durante a briga para colocar o Morumbi na Copa do Mundo de 2014, se diz aliviado agora por ver a casa dos são-paulinos longe do Mundial e ressalta o prazer que terá em ter o estádio coberto sem o uso do dinheiro público. O dirigente também enche a bola do técnico Emerson Leão e promete:

- Em 2012, o São Paulo será competitivo, brigador. Podem me cobrar.


Juvenal avisa:

GLOBOESPORTE.COM ? Qual avaliação que o senhor faz de 2011?

Juvenal Juvêncio - Não fomos bem. Às vezes, dois ou três jogadores desarranjam o time. O que temos dito é que o conjunto é que faz a diferença. Nominalmente, tínhamos atletas importantes, mas não fomos bem. O conjunto não se mostrou eficaz. Nós mostramos isso, ressaltamos e tivemos a clareza de dizer que, se não tivéssemos sucesso, o problema não era o técnico e sim do plantel. Não é fácil admitir isso. Primeiro, é lugar comum no futebol brasileiro dizer que o problema é o técnico. O problema do São Paulo é que ele está habituado a ir bem, a mídia sabe disso, a população sabe disso. Fomos sete vezes à Libertadores, todas comigo. Até com o (Roberto) Rojas eu fui para a Libertadores. Ganhamos tudo. Agora o time não correspondeu, não foi bem, tivemos a coragem de reconhecer isso e vamos mudar para 2012. Com jogadores de mais ou menos nome, as coisas vão mudar. Não existe fórmula para acertar a formação de um time mas, como gestor, tenho de decidir e estou fazendo isso. É preciso assumir riscos e falar a verdade.

O São Paulo sempre se orgulhou de ser um modelo de organização. No entanto, não ganha títulos desde 2008 e não vai à Libertadores há dois anos. Perderam o rumo?

Quando você monta um time, não tem certeza de sucesso. É momento, circunstância. Quando vendi o Luis Fabiano para o Porto (em 2004), ele não conseguia ser feliz em Portugal. Foi para a Espanha e teve sucesso. Troquei técnico aqui, troquei acolá, mas não tenho nenhum prazer nisso. E isso gera despesas. Lembro de que, quando o Muricy saiu, fui muito criticado. Chamei ele numa sala e falei: "Companheiro, acho que está na hora de trocar". Ele concordou e disse que tinha de mexer mesmo. No dia seguinte, veio receber seu pagamento e seguiu sua vida.

Uma das principais críticas é quanto às contratações. Os torcedores acham que a diretoria tem feito isso muito mal. Qual a sua opinião?

O São Paulo não tem errado nas contratações, dificilmente erramos. Contratamos cinco agora (Fabrício, Bruno Cortês, Maicon, Edson Silva e Paulo Miranda), vamos trazer mais três em janeiro. O São Paulo não compra jogador barato, só temos cuidado em negociar. Pagamos caro pelo Cortês, por exemplo. Tem cidadão que tem dificuldade de vestir a camisa do São Paulo, sofre com a cobrança da torcida. Contratamos muito bem. O São Paulo produz fantasticamente bem na sua base. Estamos promovendo dois atletas, o Rafinha e o Ademilson, que eu não tenho a menor dúvida de que logo vão brilhar e ter repercussão como o Lucas. O Ademílson tem 17 anos, mas é especial. Onde jogou foi artilheiro.

É difícil se adequar à nova política de contratações?

O São Paulo ainda consegue isso com algum êxito porque tem um nome especial perante os atletas. Nós trouxemos o Fabrício em fim de contrato. Mas teve time que apareceu na última hora e ofereceu R$ 80 mil mensais a mais. E ele não quis. Foi o Corinthians. Está ficando cada vez mais difícil contratar. O Paulo Miranda (zagueiro do Bahia), por exemplo, contratei há seis meses. E isso representa um custo. O Cortês foi difícil, jogou na Seleção, ganhou prêmio de melhor lateral do Brasileiro e tivemos de investir alto.

De alguma maneira, a briga política no clube atrapalha?

Não atrapalha absolutamente nada. Nem considero. Respeito as pessoas que fazem isso, mas elas só fazem isso porque não têm o que fazer, não têm prestígio no clube. Cassando ou não cassando a eleição, eu ganho e com 90% dos votos. Aqui a política não atrapalha, eles só vão até o judiciário, mas são despreparados.

Já conseguiu aceitar a saída do Morumbi da Copa?

Sim, não foi tão difícil. A grande pergunta que eu faço é: "valia a pena atender às exigências absurdas da Fifa por causa de 30 dias?" A visão da Fifa sobre a Copa é diferente da nossa. Por exemplo, você é obrigado a fazer um camarote de 150 metros para abrigar o presidente (Joseph) Blatter e outro para cinco mil pessoas, que são os seus convidados. Isso não interessa a nós. O camarote do Blatter precisa estar posicionado de tal maneira, ele precisa estar sentado naquela cadeira para que o ângulo das televisões seja perfeito. O jogo é domingo e, na segunda-feira, ele vai embora e eu faço o que com tudo aquilo? É muita emoção. É claro que reinvindicamos nossa presença. Mas, quando você vê o caderno de encargos da Fifa, que é uma bíblia, reflete se vale a pena. O modelo deles não é o modelo do nosso cotidiano. Eles querem o estádio de futebol, nós queremos um estádio multiuso. Sabe por quê? Porque nenhum estádio de futebol sobrevive. Temos de parar com a poesia e a hipocrisia. Antigamente, o Morumbi dava prejuízo. Tem um custo para manter tudo isso aqui funcionando. Aí você vai jogar contra um time do interior e a renda não paga a luz. Pago R$ 170 mil de luz, R$ 155 mil de água. O custo do Morumbi é alto. Se não tiver um estádio multiuso, não vai para frente. É para o jogo, mas é para o U2, Beyoncé...

Mas a Fifa não foi solícita com o São Paulo...

Pelo contrário, fez tudo o que podia para nos atrapalhar. O Ricardo (Teixeira, presidente da CBF), naquela oportunidade, estava com muito poder. Na vida, tudo muda. Para ser sincero, fomos colocados para fora da Copa, mas ganhamos por isso. Os fatos que serão registrados pela história é que todos os estádios do Brasil que serão usados na Copa tiveram dinheiro público. Em Curitiba, a prefeitura e o governo doaram R$ 120 milhões ao Atlético-PR. O mesmo ocorreu no Sul, onde o Internacional teve a ajuda da Lei de Zoneamento para vender um terreno que abrigava o antigo estádio. Hoje, todos sabem que existe uma discussão de R$ 400 milhões no BNDES e eles não entregam a não ser que seja apresentada uma garantia bancária. Banco não dá garantia para time de futebol. O banco tem juízo.

O que representa para o senhor a modernização do Morumbi?

É um ato maiúsculo. Um dia eu vou contar essa história. O São Paulo está fazendo uma obra de R$ 350 milhões, 400 milhões, sem mudar as características do seu estádio e não existe um centavo do poder público e um centavo do dinheiro do clube. Zero real! É um fato. O São Paulo está se modernizando sem usar dinheiro público. Não existe polêmica nenhuma em relação ao nosso dinheiro. O sujeito mais compromissado vai enxergar isso. O São Paulo está mostrando que é possível fazer com o seu clube sem mexer com o erário.

Muitos torcedores o criticam por ter largado o time no período em que o senhor tentou colocar o Morumbi na Copa...

Seria correto me criticar porque é claro que isso deu trabalho, me tirou da Barra Funda (local do CT), onde sou muito requisitado pelos atletas. Isso atrapalhou. Mas agora as coisas estão normalizados, estou indo lá quase todos os dias e voltaremos a crescer.

O São Paulo pagará ? 15 milhões pelo Montillo?

Nem a Europa paga ? 15 milhões. Existem 23 clubes com pedido de concordata na Espanha. O comprador está quebrando. Sabe onde tem dinheiro hoje? Na Ucrânia, na Rússia e na China. O que estão pagando lá não existe, é um absurdo. Tem técnico ganhando ? 10 milhões por ano na China. O dinheiro não está mais na Inglaterra e na Itália. O Roma quebrou, um banco assumiu e o revendeu para os Estados Unidos. O Manchester City tem um grupo árabe por trás. O (Silvio) Berlusconi não quer mais investir no Milan. O todo poderoso Barcelona teve de vender espaço na camisa porque tem uma dívida de ? 400 milhões. É preciso ter juízo nesse processo e domar as emoções. Na única vez que mudei isso, me arrependi. Em um jogo contra o Mirassol, tive de passar no meio da torcida do São Paulo para chegar ao espaço que havia sido reservado. E todos pediram a contratação do Cicinho (lateral). Falei para o João Paulo (vice de futebol) contratá-lo e o que aconteceu? Perdi dinheiro.

Como está a questão da Taça das Bolinhas para o senhor (São Paulo e Flamengo brigam na Justiça pela posse definitiva):

Para mim, é uma história encerrada. Havia uma portaria da CBF que dizia que havia dois campeões brasileiros. A Justiça de Pernambuco determinou que isso não existe e a decisão foi ratificada recentemente. A portaria foi desfeita. Se ele (Ricardo Teixeira) fizer outra, desrespeita decisão judicial. Pensamos em fazer uma disputa, dois jogos ou fazer duas taças. Mas aí o Flamengo entrou com processo na Justiça...

O que o São Paulo pode ganhar com a permanência do Leão?

Ele tem muito respeito junto aos atletas, é muito trabalhador. Renovei mais um ano com ele até para ser coerente. Se eu disse que o problema era o plantel, tinha de ficar com ele. O trabalho foi bom, o resultado não. Acredito que com os melhores do elenco, acrescido dos que vão ficar, teremos um time aguerrido. Além do mais, técnico no Brasil está muito ruim. Quando eu era diretor, o treinador recebia um terço do jogador. Hoje, ganha três vezes mais. É difícil achar um grande técnico. Já me falaram para formar. Quando coloquei o Baresi, quase me cortaram o pescoço. O Leão exerceu um papel firme e pode nos dar alegrias em 2012.


Juvenal avisa:

Até agora, cinco reforços foram contratados. Alguns de expressão e outros chegam como apostas. Como o senhor analisa isso?

Quando o Telê era técnico, eu era diretor e trouxe dois jogadores. O Ronaldão veio de São José do Rio Preto e o Pintado de Bragança Paulista. Não tinham expressão, mas foram fundamentais no time que ganhou tudo na década de 90. O Ronaldão calçava 45 e ele não alisava para ninguém. O Pintado era uma cascavel. Falta isso ao São Paulo. Falta um Fabão, um Lugano. Se não tiver um carregador, não ganha. Não dá para ter 11 Messi, 11 Neymar.

Para fechar, o que a torcida pode esperar do São Paulo em 2012?

Um time competitivo, lutador, brigador. Podem me cobrar.


Juvenal avisa:

Fonte: GloboEsporte