Uma arte brasileira: dar vida letal a uma bola parada

Uma arte brasileira: dar vida letal a uma bola parada

26/2/2009 - 00h01

Uma arte brasileira: dar vida letal a uma bola parada

Rob Hughes

Em um campo onde arte é movimento e onde o ritmo é o mais importante, é preciso alguém especial para marcar a partir da imobilidade. Juninho Pernambucano é especial, mesmo dentro dos padrões dos grandes brasileiros que, ao longo das décadas, nos deixaram sem ar com o desaforo de seus chutes de bola parada.

O gol de Juninho, no empate de 1 a 1 entre o Lyon e o Barcelona na terça-feira, pode ter nascido de uma natureza morta, mas o voo produzido por seu chute de 30 metros, a forma quase sobrenatural com que calculou o ângulo e fez com que a bola fizesse uma curva, em uma trajetória que fez um bom goleiro parecer um marinheiro bêbado, foi certamente arte.

"O gol de Juninho foi realmente lindo", reconheceu Josep Guardiola, o jovem treinador do Barcelona. Guardiola já viu alguns especialistas em cobranças durante seu tempo como jogador. "Não foi uma falha de Victor Valdés -ninguém poderia ter impedido aquilo."

Valdés é o goleiro do Barcelona. Ela já passou inúmeras horas treinando contra homens como Ronaldinho, Lionel Messi, Xavier Hernández, Thierry Henry, todos exímios cobradores de faltas.

Não foi difícil para Guardiola prever o risco e alertar seus jogadores no vestiário antes do pontapé inicial: "Juninho é um dos melhores jogadores do mundo, capaz de decidir uma partida sozinho".

Imagine, então, a cena no Stade Gerland, em Lyon. A partida mal tinha começado, tinham se passado apenas sete minutos. Juninho, atualmente com 34 anos e falando em aposentadoria, ficou parado inocentemente ao lado da bola. Inocentemente não por causa da distância, mas devido ao ângulo da cobrança, que não sugeria um chute direto ao gol.

Mas no instante em que ele chutou, todos aqueles que assistiam no estádio ou pela televisão perceberam que Juninho criou perigo onde nenhum parecia existir.

Enquanto a bola viajava pelo ar, ele ficou parado como um golfista que deu uma tacada no "rough" (local de grama mais alta), movendo a mão como se para guiar a curva da bola na trajetória que ele pretendia.

Valdés se afastou do gol, começou a voltar para trás e finalmente pareceu perder a noção da direção à medida que foi enganado pela trajetória da bola, que se aninhou, como pretendido, ao lado do poste mais distante.

Um breve silêncio foi seguido por aplausos entusiásticos. Juninho, cujo verdadeiro nome é Antônio Augusto Ribeiro Reis Júnior, era aquele que parecia menos surpreso. Ele estudou os muitos brasileiros que deram vida à bola parada. Ele treinou e treinou, como Didi nos anos 50, Rivelino nos anos 70, Zico nos anos 80 e Rivaldo nos anos 90.

Há um vídeo de um treino da seleção brasileira no qual Juninho treina cobranças de falta. Atrás de uma falsa barreira, o goleiro Júlio César aponta para um ponto no lado inferior, convidando Juninho a superá-lo de uma distância de 20 metros.

Uma, duas, três, quatro, cinco vezes, é exatamente o que Juninho faz. Sempre com o pé direito, sempre com um desvio ou curva diferente da bola. Sempre com um sorriso nos rostos de seus companheiros de seleção.

Saber o que Juninho fará não ajuda a prevenir. Juninho se transferiu do Brasil para a França há oito anos, e está a caminho de conquistar seu oitavo título francês consecutivo com o Lyon, que está em uma classe diferenciada em relação aos demais clubes do seu país.

Mas na terça-feira ele enfrentou o melhor da Europa. O Barcelona, talvez ao lado do Manchester United, apresenta o melhor futebol e um grande número de atacantes capazes de virar uma partida.

Mas o Barça empacou após sua temporada de quebra de recordes. Após o ataque de Juninho, ele teve que suar para salvar a partida. Isso ocorreu após cerca de uma hora atrás no placar. Messi cobrou um escanteio na cabeça de Rafael Márquez, que colocou nas redes de Henry. O resultado deixa a equipe com uma frágil vantagem para a segunda partida no estádio Nou Camp do Barcelona, daqui duas semanas.

Neste sentido, este empate não difere muito das outras três partidas de terça-feira. A Inter de Milão e o Manchester United empataram em 0 a 0 em San Siro. O Atlético de Madrid e o Porto dividiram quatro gols e empataram em 2 a 2 em Madri. O Arsenal superou o Roma com um gol de pênalti de Robin van Persie, em Londres.

Entretanto, a aparente igualdade pode ser enganadora. Apesar de toda bazófia de José Mourinho da Inter, havia um abismo de qualidade e intenção de ataque entre o United e sua equipe.

Durante grande parte da partida, o Manchester, com 6 mil torcedores entre o público de 84 mil em Milão, era uma equipe bem mais audaciosa e envolvente.

A única forma da Inter poder deter Cristiano Ronaldo e Ryan Giggs era com uma monotonia de marcação e faltas que obrigava o árbitro espanhol, Luis Medina Cantalejo, a distribuir cartões, apesar de Mourinho ter acusado o árbitro, como sempre, de perseguir seus jogadores.

Por que, se o Manchester era tão superior, o placar foi tão magro? Júlio César, o mesmo goleiro que treinava com Juninho, mostrou que não importa como se salva a bola. Quando uma tentativa de Ronaldo bateu em seu nariz e se desviou em segurança, Júlio César riu com a mentalidade do goleiro de que nada dói mais do que tomar um gol.

"Nós temos uma grande chance agora", disse Alex Ferguson, o técnico do United. "Nós tivemos uma boa postura e maturidade nesta noite; eu espero que as oportunidades perdidas não se repitam em Old Trafford, no segundo jogo."

Poucas equipes perderam mais chances do que o Arsenal. A terça-feira foi um microcosmo de sua temporada. A equipe londrina teve 14 tentativas contra o Roma, mas Nicklas Bendtner, Samir Nasri e Emmanuel Eboué as desperdiçaram. Assim o Roma, vencido apenas pelo pênalti de Van Persie, acredita que pode vencer a partida no Stadio Olimpico.

Isso pode depender do departamento médico. Metade do time do Arsenal -Cesc Fàbregas, Eduardo, Adebayor, Theo Walcott e Tomas Rosicky -está em tratamento. Mas seu técnico, Arsène Wenger tem este eterno otimismo de que, se conseguir passar para a próxima fase, ele conseguirá vencer a Copa dos Campeões.

É duvidoso se, honestamente, os treinadores do Atlético de Madri ou do Porto sentem o mesmo. Suas equipes marcaram mais do que as outras na terça-feira, mas o resultado de 2 a 2 ocorreu mais por falha das defesas.

Por duas vezes o Atlético de Madrid esteve à frente em seu estádio Vicente Calderón. Por duas vezes o predador argentino do Porto, Lisandro López, respondeu. Mas o momento da noite pertenceu ao goleiro do Porto, Helton.

Quase no intervalo, ele se inclinou para pegar um chute fácil, pingando, de Diego Forlán. Era uma defesa rotineira, mas de alguma forma a bola escorregou por entre as mãos de Helton e foi parar dentro do gol.

Ele também é brasileiro. Do sublime ao ridículo.

Fonte: AFP