Valdivia rebate críticos, desdenha do Fla e diz sentir apoio da torcida

Valdivia nega "migué" e Fla: "80% dos palmeirenses acreditam em mim"

O nome de Valdivia nunca é ouvido com indiferença, qualquer que seja o interlocutor. Amado, odiado, controverso, o chileno completou dois anos de Palmeiras nesta semana. Em meio a tantas polêmicas, ele sobrevive na equipe de Luiz Felipe Scolari e tenta engatar, enfim, uma boa sequência como titular.


Valdivia rebate críticos, desdenha do Fla e diz sentir apoio de 80% da torcida

Enquanto não consegue isso, ele fala, dá opiniões, marca sua posição. Migué para se transferir? Ele assegura que não existiu e nem existe. Amigo de Felipão? Talvez, apesar das diferenças. E mesmo com a cobrança de parte da torcida, ele acredita que a maioria ainda está ao seu lado.

? Acredito que 80% dos palmeirenses ainda confiam e sentem carinho por mim. Se ainda estou aqui e lutando, aguentando tudo isso, é por causa dessa maioria. E esses 20% que querem que eu vá embora vão mudar de ideia ? garante.

Nesta entrevista, é possível perceber um Valdivia articulado, complementando a fala com gestos, às vezes suaves, às vezes bruscos. São respostas longas, às vezes com pausas de mesma duração. Pensativo, o Mago se controlou, mas não deixou de falar sobre assuntos espinhosos: o sequestro-relâmpago, a proposta da Arábia Saudita, a sondagem do Flamengo, as informações que vazam diariamente de dentro do clube, as lesões, a relação com Felipão, o futuro.

Às vezes, Valdivia hesitava. Não queria responder. Em outros momentos, desandou a falar. Uma prévia do que pode aparecer na televisão chilena ? e até brasileira, por que não? ? em um futuro não tão distante. De criticado, Valdivia quer passar a crítico. Quer retomar a faculdade de jornalismo que abandonou depois de oito meses, no Chile. Quer ter um programa esportivo na televisão, opinar, receber convidados do mundo da bola.

? Mas sem trairagem, como muitos fazem por aí ? reclamou.

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

Houve um grande desgaste físico e psicológico na Copa do Brasil. Isso faz efeito até hoje? A falta de reposição também prejudica?

Valdivia: Você vê o Santos. Com Neymar e Ganso é outro Santos, há dois ou três jogos eles estavam lá embaixo, agora estão pensando até em título. É um pouco de tudo. Na Copa do Brasil, a gente se esforçou ao máximo para trazer o título, as consequências estão aí. Tem jogador machucado, Luan, Wesley, outros. A cada semana sempre tem alguém novo no departamento médico. Isso não acontece só no Palmeiras, já citei o exemplo do Santos. Eu sempre cito que quando você tem um elenco, é muito mais fácil levar várias competições. Machuca um, entra outro e não tem muito problema. Mas quando acontece o que aconteceu com o Palmeiras, que não tem muito de onde pegar, dificulta um pouco. Não é só isso que está atrapalhando nossa posição no Brasileiro, é um pouco de tudo.

Falta reposição no elenco?

Elenco a gente tem, só que precisa de mais. Com esse elenco que a gente tem, fomos campeões da Copa do Brasil, ganhamos do Grêmio lá no Olímpico e não perdemos para o Coritiba no Couto Pereira. Esse mesmo elenco foi campeão. Precisa de mais. A gente teve a felicidade de ninguém ter uma lesão maior, só agora que teve Assunção e Fernandinho. Tem jogador com dor no joelho, dor muscular, na Copa não aconteceu nada disso.

Você ou algum outro jogador tem atuado com dores? É comum para você?

Eu já joguei assim muitas vezes. Já joguei gripado também, estou um pouco mal agora. Mas é dor comum, dor muscular, isso vai ter sempre. Fiquei fora por 20 dias entre tratamento e recondicionamento para poder voltar a jogar. Aí joguei 90 minutos contra o Flamengo, mais um jogo contra o Atlético-GO, e é normal que o jogador passe a ter incômodo muscular. É muito comum você jogar com dor. A maioria dos jogadores atua assim, é normal.

Essas dores são decorrentes das antigas lesões?

Não, nada. Quando fico fora de algum jogo já falam que é a mesma coxa de sempre, a esquerda, a da fibrose. Não é assim. Isso já sumiu, é parte do passado e não quero nem lembrar. Não tem lesão. O que me deixa fora de algum jogo é produto do cansaço que o corpo vai sentindo pelo fato de ficar três, quatro dias sem treinar, porque ainda não estou 100%. Queria jogar sempre sem dor muscular, mas não dá pelo fato de todos os problemas que tive no passado. Como fiquei fora de vários jogos e voltei a jogar só agora, é normal, mas lesão grave eu não tive mais.


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A biopsia realizada há quatro meses o ajudou?

Desde aquilo eu não tive mais lesões, então ajudou. (Teve um problema muscular na coxa esquerda, que o tirou de campo por 20 dias)

Como é o esquema de treinamentos hoje? Dá para encarar a maratona de jogos entre Brasileiro e Sul-Americana?

Meus treinamentos são controlados. Eu não treino menos do que os outros. Mas quando é uma atividade mais puxada, que vai exigir do músculo, eu faço algo diferente, mas faço. A intenção é jogar todas, eu não quero ser poupado, mas preciso. Agora, por exemplo, fiquei fora contra o Botafogo, pela Sul-Americana, porque o Felipão prefere me ter contra o Santos. E aí eu jogo domingo, quarta, domingo, e fico uma quarta descansando. Devemos fazer isso de novo. Depois disso, mais preparado, acho que dá para ter uma sequência maior. Dá para jogar duas vezes por semana, mas tem de dosar algumas coisas.

Como você lida com as acusações de "migué"? Você já fez isso para não jogar alguma partida?

Nunca! Forcei muito a coxa para jogar, tomei infiltrações muitas vezes. Mas para mim é complicado falar isso, não é o jogador que tem de falar... (longa pausa). Não é o jogador que tem de vir a público falar disso. Forcei a coxa porque o momento não era bom, todo mundo precisava dar algo a mais no ano passado. Quando eu queria dar esse algo a mais, não conseguia. Quando era para parar por um tempo e tratar, vinha aqui no Palmeiras, fazia exames e não dava nada, porque não ia dar nada mesmo. Nunca rompeu o músculo, só tinha as dores. Só depois de forçar umas quatro vezes é que rompe. Mas quando você faz um ultrassom e não dá nada, tem de jogar, não importa a dor, porque senão os caras pensam que você está dando migué. Era para descansar, fortalecer e voltar recuperado 100%. Mas como o exame não dava nada, eu tinha de ir para o jogo. O momento não era bom, Felipão dizia que precisava de mim, de um gás para ajudar. Em 2010 e 2011 o momento não era bom, eu estava aí, pronto para ajudar. Estou falando isso porque você me perguntou, mas já joguei 500 vezes machucado e vocês não falam nada.

A repercussão dessas lesões foi bem negativa...

Tudo foi negativo, mas não me arrependo de ter feito isso, de ter forçado para ajudar o Palmeiras. Quem me conhece sabe o que eu fiz, quem não me conhece prefere falar do que ouve por aí. Tento não dar muita importância para aqueles que preferem falar coisas ruins.

De onde você acha que surgem essas "coisas ruins"? Por que tanta polêmica em torno do Valdivia?

Isso tudo cansa, por isso que prefiro não me importar mais com essas coisas. Apenas ouço os verdadeiros amigos e a família. No mundo do futebol é muito difícil fazer amigos. Se perguntar para uns 500 jogadores, 350 vão te dizer que não é fácil fazer amizades no futebol. Tem os interesseiros, no mundo da bola tem muita inveja. Não é fácil. Tenho muito amigo jogador, e desses amigos a gente cuida. Amigo é quem entra na minha casa, conhece meus pais, meus filhos.


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Você tem esses amigos no Palmeiras? Eles que o mantêm no clube?

Tenho amigos dentro e fora do Palmeiras, mas o que me motiva mais é o clube, o carinho do torcedor. Acredito que 80% dos palmeirenses ainda confiam e sentem carinho por mim. Se ainda estou aqui e lutando, aguentando tudo isso, é por causa dessa maioria. E esses 20% que querem que eu vá embora vão mudar de ideia.

O Felipão, hoje, é considerado um amigo? A relação entre vocês está tranquila?

É boa hoje, ontem, um mês atrás, ano passado... Não temos problemas, ou brigas, apenas não concordo com algumas coisas que ele pensa. É uma questão normal. Mas problema de um querer socar o outro, não tem. Nada a ver. Nossa relação é boa desde sempre. Mas as pessoas preferem falar que não jogo, dou migué, brigo com o treinador, porque isso vende mais, repercute mais. Se sou amigo dele? Bom, amigo... Se falo que não, já pensam que sou inimigo. Portanto, amigo.

Então dá para dizer que você está confortável no Palmeiras?

Sim. Não queria voltar para o Chile depois do sequestro-relâmpago, como disseram por aí, mas a necessidade de ficar perto da família me fez pensar isso. Isso me fez duvidar se adiantava ou não ficar aqui. Nunca me senti carente nem inseguro, nem agora, nem depois do que aconteceu. Nunca precisei de seguranças, de carro blindado, então nunca me senti incomodado com isso. Acho que todos os países têm dificuldades e problemas, perigos, riscos. Não sei se aqui é pior. Não foi a violência que me fez pensar em ir embora, mas sim a necessidade de ficar perto da família.


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Você se sente uma referência dentro do grupo, mesmo jogando pouco?

A referência é muito simples. De quem o pessoal pega mais no pé? Barcos, eu... Automaticamente você já percebe que é referência. Barcos, Assunção, Bruno, que a gente espera que seja o novo Marcos. O próprio torcedor e a imprensa já sabem de quem cobrar mais. Minha responsabilidade está assumida faz tempo, o que pegam no meu pé não é brincadeira.

Mas os gols e assistências estão mais raros, não? No Brasileirão, nenhum gol ou assistência.

Fazedor de gols eu não sou, eu sou o jogador que deixa os outros na cara do gol. Mas às vezes você dá o passe e o cara não faz o gol. O que era para ser assistência não é mais. Não é a mesma coisa deixar o Barcos ou outro jogador na cara do gol. Essa é outra questão. Se deixar o roupeiro na cara do gol, vai perder, o Barcos eu tenho certeza de que faz. É um pouco de tudo isso. Tenho de melhorar, claro. Mas na maioria dos jogos recebo marcação individual, você vê aí a importância que tem no time. Do outro lado os caras fazem questão de te dar essa importância.

Continua apanhando muito?

Sim, sim, isso aí não muda nada. Se for na maldade é problema, mas se for uma pancada de jogo, pela frente, não tem problema. Por trás é na maldade. Mesmo assim, a magia vai voltar, já está aí, quando o Palmeiras precisava de uma saída, de um escape, eu resolvi. Contra o Grêmio (pela Copa do Brasil) fui lá e fiz o gol. Sempre estou aparecendo nos momentos que é para aparecer. Na final eu fiz um gol contra o Coritiba de pênalti (e depois foi expulso), contra o São Paulo já não fiz, mas não tinha a mesma magnitude.

Como você se sente ao ver tantas situações internas sendo expostas? O caso do João Vitor, por exemplo.

Que caso do João Vitor?

Ele admitiu que chegou com ?hálito de cachaça? em um treino nesta semana.

Eu não vi isso, só vi que ele deixou o treino por causa de uma dor. Mas se ele falou, não sei. Não é coisa minha.

Mas os vazamentos incomodam? Já sabem quem é que passa isso para fora?

Não sabemos, mas se precisar a gente faz uma rodinha lá no vestiário e descobre. Mas não é ninguém do grupo, jogador, essas coisas. Estamos muito unidos, a brincadeira continua, o bom ambiente está igual à Copa do Brasil. Isso posso garantir.

A pergunta é recorrente, mas será feita de novo. Vai ficar no Palmeiras para a Libertadores?

Sim... Ah, eu quero. Mas se o treinador e a diretoria não quiserem, temos de arrumar uma saída.


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Você pensou em ir para o Flamengo quando o Palmeiras recebeu a sondagem?

Flamengo, não, de jeito nenhum. É a segunda vez que o Flamengo me procura. Para jogar em outro time no Brasil, não me vejo. Pelo que eu vi, o salário era muito maior do que aqui. Mas estou bem aqui, feliz, gosto daqui, agradeço dia a dia o carinho do torcedor. Sou muito de pele, não pretendo sair para algum outro time.

Mas aquela história de colocar a camisa do Flamengo pegou mal, não?

Nada a ver, coloquei porque estava com frio. É a mesma coisa se jogar o Chile com o Brasil e eu colocar a camisa do Brasil. Qual o problema? Procura aí na internet, você vai achar um monte de casos como esse. Aí um torcedor falou para eu tirar e eu pensei: "Ah, realmente é melhor tirar". E aí colocam que torcedor me xingou...

E a proposta do Al-Ahli, da Arábia Saudita, fez você pensar em mudar de ares?

Quando chegou a proposta da Arábia, o Palmeiras ouviu, gostou, só que o clube pediu uma garantia bancária, fato que os árabes, por terem muito dinheiro, não dão. Como eles não deram, o Palmeiras não me vendeu. A verdade é essa. No momento eu estava em casa, sempre sendo meio questionado pela família para voltar a ver meus filhos. Pensei um pouco, mas não estava muito afim. Sei como é na Arábia, é muito difícil. Quando joguei nos Emirados eu procurei perguntar como era a vida nos outros países lá, fui jogar nesses países e é difícil. A Arábia é um dos países mais complicados para morar. Perguntei ao Marcinho, da Ponte Preta, que jogou no time que me queria. Contou um pouco, quando ele chegou lá prometeram casa, carro, ouro, e ainda está esperando tudo isso. A família demorou para ir, ele morou numa casa que não era a que ele queria, atrasavam quatro meses de salário. Mulher não podia dirigir, não podia sair com roupa normal. É muita coisa... Nos Emirados é diferente, tem Dubai e Abu Dhabi, é normal. Vale a pena visitar.


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Às vezes você é mais notícia pelo que faz fora do que dentro de campo. Como você encara isso?

Não me sinto perseguido. Gostaria que falassem mais do que faço em campo, mas às vezes a gente dá brecha. Esse fato de por a camisa do Flamengo para mim... Não importa. Aì o torcedor pediu para eu tirar a camisa, tirei. Aí dizem que fui xingado pelos torcedores. Nada a ver. Você vê aí a maldade. Vende mais uma notícia ruim do que uma boa a uma notícia simples. Eu sei disso, fiz oito meses de jornalismo, conversava com muita gente, sei o que vende mais, o que interessa, o que não interessa.

Jornalismo? Quando foi isso?

Quando eu estava no Chile, início de carreira, comecei a fazer faculdade porque me interesso muito pelo assunto, gosto de saber como funciona. Parei porque não dava para conciliar com o futebol, não tinha tempo. Aí optei pelo futebol, mas pretendo retomar quando encerrar a carreira.

Pensa em ser comentarista, apresentador, algo do tipo?

É o que eu quero, vou comentar, cornetar. Primeiro comentarista, depois quero ter meu programa de TV, com entrevistas, essas coisas. Seria bem legal. Mas no meu programa não vai ter trairagem. Se o cara jogou mal, vou dizer que jogou mal. Mas o que ele faz fora de campo não me interessa.

Fonte: GloboEsporte.com