A Fraternidade que vem do LAR

A dona de casa, Francisca Teresa, sempre foi dedicada ao esposo e aos dois filhos

A dona de casa, Francisca Teresa, sempre foi dedicada ao esposo e aos dois filhos. Com um casamento estável, de quase 10 anos, ela não imaginava que sua vida iria mudar completamente por confiar demais. ?Não tínhamos conflitos e eu não tinha motivos para desconfiar que ele era infiel?, relata. Foi então que, com a morte de seu esposo, os problemas começaram a aparecer.

O resultado do laudo médico apontou que o esposo de Francisca era portador do vírus da AIDS. O desespero da dona de casa veio em seguida. ?Na mesma hora decidi fazer o exame para saber se eu também tinha. Essas coisas se pega. Mas eu nunca imaginei que aquilo poderia acontecer comigo?, conta. Foi então que os resultados saíram e, juntamente com ele, a tristeza de dona Francisca. ?Eu não sabia o que fazer. Parece coisa de novela. A gente pensa que essas coisas só acontecem com os outros. Quando eu descobri que tinha pego fiquei desesperada?, completa.

Francisca Teresa destaca que ficou aliviada quando soube que os resultados dos exames em seus filhos haviam dado negativo. ?Nessa hora, nem pensei em mim. Só pensava em meus filhos. Eu chorava todo dia. Agradecia a Deus por ter livrado meus filhos dessa doença e pedia a Ele que cuidasse deles, que não deixassem eles sozinhos?, diz com as lágrimas descendo no rosto.

Francisca Teresa está nas estatísticas dos mais de 506 mil brasileiros que possuem o vírus da AIDS. Dados do último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde apontam que o maior número de casos se concentra na região Sudeste, com 60% deles. No Nordeste, o número é de 11,5%. No Piauí, os índices já passam de 2.500 pessoas.

No entanto, apesar dos números ainda serem assustadores, algumas medidas vem sendo tomadas para diminuir o número de pessoas infectadas. E no Piauí, as condições não são diferentes. São campanhas educativas, planos e programas voltados para o atendimento a essas pessoas. Além do trabalho preventivo, há ainda o acompanhamento voltado às pessoas que já convivem com o HIV. E é esse o foco dos atendimentos no Lar da Fraternidade.

Francisca Teresa é uma das centenas de pessoas beneficiadas com as ações e serviços oferecidos pela entidade. Ela conta que, em momentos de dor e dúvidas, encontra apoio, a solidariedade e a fraternidade na vivência com as outras pessoas atendidas pelo Lar da Fraternidade. ?Aqui, a gente sente que estamos de igual para igual. São pessoas que estão vivenciando problemas semelhantes aos seus e você tem oportunidade de dividir isso, para que a dor seja menor?, argumenta.

A ESPERANÇA QUE ALIMENTA A ALMA

Francisca acrescenta que o que lhe dá conforto e forças para seguir em frente é o apoio que recebe das poucas pessoas que sabem de sua doença. Mas para ela, a pior parte da doença é não saber quanto tempo lhe resta. ?Eu queria muito poder acompanhar o crescimento dos meus filhos. Vê eles trabalhando, formando família?, diz aos prantos. Há cinco anos convivendo com a doença, a dona de casa diz que a esperança da descoberta da cura para a doença alimenta sua alma e seus dias. ?Tenho muita fé em Deus que estarei viva quando anunciarem a descoberta da cura?, diz.

E as suas esperanças não são em vão. Desde o surgimento da doença, várias pesquisas foram realizadas no intuito de descobrir uma cura. Apesar de ainda não se ter sido descoberta, pesquisadores já conseguiram desenvolver medicamentos capazes de prolongar a vida dos pacientes portadores do HIV. De 1995 à 2007, a sobrevida dos pacientes com HIV aumentou de 58 para 108 meses. ?Quando agente vê esses dados, agente fica animada e cheia de esperanças?, completa Francisca.

No Lar da Fraternidade além de apoio psicológico e outros serviços, as pessoas atendidas recebem ainda os medicamentos anti-retrovirais. ?Não moro aqui. Mas sempre venho, tanto para fugir um pouco das pressões por ter a doença quanto para receber a medicação, que nos é fornecida gratuitamente?, conta.

CONVIVER COM O PRECONCEITO É AINDA MUITO RUIM

Mas não foi só ter a doença que mudou a vida de Francisca. Ela conta que a convivência com o preconceito ainda lhe traz muitas dores. A preocupação é ainda maior para que dois filhos pequenos não descubram a doença da mãe. ?Eles são muito novinhos, não entenderiam?, argumenta.

Os preconceitos e a discriminação são ainda um dos maiores problemas relatados pelos portadores do HIV. E Francisca Teresa não seria uma exceção. Argumentando a preservação dos filhos do preconceito das pessoas, ela preferiu esconder que tem a doença. ?As pessoas são muito preconceituosas. Muitas vezes até por não conhecer direito. Nem contei aos meus filhos, para que eles não precisem enfrentar preconceitos das pessoas, principalmente na escola, com os coleguinhas. Para que eles não sejam discriminados por uma doença que eles nem tem?, justifica.

O principal desafio é fazer com que as pessoas com AIDS tenham uma vida normal, tanto no ambiente familiar, quanto no trabalho e perante toda a sociedade, priorizando assim, uma vida longa e mais saudável. E é nisso que se concentram os esforços das pessoas no Lar da Fraternidade. E no auxilio à luta contra o preconceito e na promoção da melhoria da qualidade de vida que são desenvolvidas várias atividades no Lar da Fraternidade.

São tantas as atividades que participa que Dona Francisca às vezes chega a esquecer dos problemas. ?Participo de tanta coisa. É tanta coisa boa, que, às vezes nem me lembro que tenho AIDS?, conta.

A dona de casa acrescenta que espera conscientização e cuidados por parte das pessoas. ?Dou um alerta para que as pessoas, mesmo as que são casadas, da importância de se cuidar, de se prevenir. Porque depois que pega, não tem mais jeito?, lamenta.

ENTIDADE É MANTIDA PELA FORÇA DO VOLUNTARIADO

Com o tema ?A esperança que faz acontecer?, a Caminhada da Fraternidade deste ano espera reunir mais de 60 mil pessoas. São pessoas que acordam cedinho para vivenciar a fraternidade e a solidariedade em prol das pessoas que são beneficiadas através das entidades assistidas pela Ação Social Arquidiocesana (ASA). Todo o dinheiro arrecadado é revertido em benefícios para centenas de crianças e jovens em situação de riscos, além de adultos e idosos com câncer e portadoras do HIV, hanseníase e outros males.

E dentre as instituições contempladas está o Lar da Fraternidade. A entidade atende mais de 400 pessoas portadoras do vírus HIV/Aids, não só do Piauí, mas de diversos estados. ?Quem chega aqui, é sempre bem vindo!?, ressalta a coordenadora do Lar da Fraternidade, Irene Nogueira. O local é um espaço de permanente construção, onde sempre se busca colaborar com o aumento da auto-estima e convivência entre pessoas. ?É um espaço que é referência no atendimento ás pessoas com AIDS?, ressalta.

Além de assistência espiritual, as pessoas têm acesso a moradia digna, alimentação orientada, assistência psicológica, médico e farmacêutica, além de participação em atividades que contribuam para que as pessoas reconstruam suas vidas com ações de prevenção e quebra de preconceitos. ?Aqui as pessoas se sentem em casa mesmo. Algumas chegam com um pouco de medo e ficam guardando aquilo para si. Mas, aos poucos, vão percebendo que todos estão ali para ajudar, para apoiar. E então, desabafam?, diz uma das funcionárias do Lar, Joana Lopes Damasceno.

Na edição passada da Caminhada da Fraternidade foram arrecadados mais de R$ 263 mil. Desse montante, mais de R$ 92 mil foram destinados ao Lar da Fraternidade. Para a coordenadora Irene Nogueira, o apoio e a solidariedade das pessoas, que se propõem a caminhar juntas para a construção de um mundo melhor, são fundamentais para a continuação desses trabalhos. ?É observando essas ações que as esperanças de cada uma dessas pessoas é fortalecida. Sem a ação dessas pessoas, não poderíamos atender, em âmbito integral, essas pessoas?, finaliza.

Fonte: Marcos Prado, Mayara Martins