‘A maconha foi condenada por preconceito’, diz especialista Elisaldo Carlini

O médico e professor da Unifesp advoga em favor da maconha e dos opiáceos, e contra o uso de remédios para emagrecer, as anfetaminas.

Carlini tornou-se um dos maiores especialistas no tema, e conta um pouco de suas experiências com drogas. Em nome da ciência, submeteu-se a provar, em laboratório e monitorado por psiquiatras, uma gama de drogas: maconha e derivados, mescalina, alucinógenos, anfetaminas, sibutramina. “Seguia a regra de não tomar nada que pudesse me fazer mal. Por isso não provei crack, sou cardíaco. Tive viagens muito boas, belas visões. E viagens horrorosas, péssimas”. Ele argumenta que a maconha tornou-se uma droga não por razões científicas, mas por motivos culturais e econômicos, e que isso agora começa a mudar dada a falência da guerra às drogas. O médico e professor da Unifesp advoga em favor da maconha e dos opiáceos, e contra o uso de remédios para emagrecer, as anfetaminas.

Por que o senhor resolveu estudar as drogas?

Na década de 1950, havia muitos trabalhos descrevendo os sintomas que a maconha provocaria no corpo baseados numa ideologia internacional de que a maconha era uma droga do diabo, tão perigosa quanto a heroína, o que não corresponde à verdade. Mas como havia o governo americano por trás disso, eles fizeram uma propaganda e convenceram o mundo dessa ideologia. Curiosamente, até o século XIX, início do século XX, a maconha era considerada um medicamento muito importante contra dor, comercializada como medicamento, cultivada para fins industriais porque a fibra da maconha é de excelente qualidade para a fabricação de cordas, roupas e sandálias. A maconha era muito importante economicamente, a tal ponto que no século XVIII o vice-rei de Portugal mandou ao governante da província de São Paulo 16 sacas de sementes de maconha de alta qualidade para serem plantadas na região de São Paulo. Até as velas das naus portuguesas eram feitas de fibras de maconha. Então, contra a maconha houve muito preconceito. Por ser uma droga comum na África, era tida como uma coisa de feitiçaria de negros. Em parte, a maconha foi condenada por preconceito racial, mas também por motivos comerciais. Quando a fibra sintética é desenvolvida, no começo do século XX, ela disputa mercado com a fibra da maconha. Nessa concorrência inventaram-se coisas sobre a maconha.

Mas a maconha não tem efeitos colaterais?

Admitir que a maconha não tem reações secundárias é dizer que ela não é remédio. Não existe remédio que não tenha efeito colateral. A aspirina, por exemplo, ainda é uma das causas mais frequentes de envenenamento de crianças. A maconha tem uma toxicidade que é perfeitamente controlável e não expõe ninguém a perigo exagerado. Os trabalhos que falam sobre efeitos colaterais da maconha têm pouco suporte científico. Trabalhos mais profundos, que seguem milhares de pessoas por vários anos, mostram que a maconha usada continuamente não provocou qualquer prejuízo para a inteligência e a memória dos indivíduos.

No mês passado, Washington DC legalizou o uso da maconha. É um sinal de que os Estados Unidos desistiram da guerra contra o tráfico?

Está provado que a guerra às drogas é uma falência total. E é muito importante que os Estados Unidos, que patrocinaram essa guerra, admitam essa falência. O governo não consegue mais neutralizar a vontade popular. É como a Lei Seca lá. Nunca se bebeu tanto nos Estados Unidos como no período da Lei Seca. Aquilo estimulou o crime. Nos Estados Unidos há quem defenda que o problema do tráfico só existe porque existe a proibição. Os jovens gostam de experiências novas. Querem e têm o direito de experimentar coisas novas. O grande erro é proibir e pronto. Não dá para usar a pedagogia do terror, um método que falhou no mundo inteiro, que é moldar os desejos das pessoas a partir do medo. Isso não funciona mais.

O que acontece em lugares que legalizaram a maconha?

Há um fenômeno interessante acontecendo no estado de Washington, um dos lugares onde a maconha é legal: os pacientes que já usam maconha de forma medicinal há mais de 20 anos estão achando ruim porque associam o remédio à juventude, à “farra”. Aumentou a resistência dos idosos, e os jovens não estão mais querendo usar porque perdeu o glamour, virou careta, algo associado a tratamento do câncer.

Quanto tempo o Brasil deve levar para seguir o caminho dos Estados Unidos?

Aqui no Brasil ainda é proibido prescrever maconha para seus pacientes, mas o Conselho Federal de Medicina já recomenda o uso para uma série de tratamentos, especialmente de convulsões. As autoridades médicas brasileiras dizem que isso tudo pode demorar, mas como agir quando a mãe de uma paciente lhe diz: “O tempo que o senhor tem é o tempo de uma convulsão da minha filha.”? Nos Estados Unidos, mais de 20 estados já têm legislação permitindo o uso da maconha, seja medicinal, seja recreativa.

E quanto às outras drogas?

Estudei muitas outras. Algumas que nada tem a ver com a maconha são as drogas para emagrecimento, as anfetaminas. É um mercado extremamente lucrativo e eu sou totalmente contrário ao uso delas. Frequentemente elas acabam em intoxicação, alucinação. E a sibutramina não é muito melhor do que isso, porque aumenta em 15% problemas cardíacos em pacientes obesos e com diabetes. Não se encontra na sibutramina uma perda de peso que justifique o seu risco. Não há razão para essa droga ter licença.

Mas essas drogas são comercializadas muito mais facilmente do que a maconha.

Sim, dependem de receituário controlado, mas facilmente se obtém. Enquanto a maconha é proibida. E o acesso a opiáceos é super-restrito, e o paciente acaba tendo que ficar com dor. Todo homem tem o direito de não sentir dor. No Brasil é dificílimo ministrar a morfina. Luto há 30 anos para aumentar o acesso à maconha, há 15 para facilitar a receita dos opiáceos e há 20 para restringir o uso de anfetaminas.

E quanto ao crack e à cocaína?

Não acho que elas deveriam ser legalizadas. É difícil liberar sem um sistema eficiente de prevenção ao uso, por meio da educação. Em termos de políticas públicas, cada droga tem que ser tratada de uma maneira. Eu não tenho esperança de a cracolândia acabar, mas é possível fazer com que ela não continue aumentando e se torne uma epidemia. A segunda perspectiva fundamental é tratar o ser humano com dignidade. É possível recuperar a pessoa dando a ela a possibilidade de varrer o chão, como faz o De Braços Abertos (programa da prefeitura de São Paulo). A internação compulsória remonta à Roma Antiga e sua ideia de que o romano deveria ser um exemplo para a humanidade. Aquele que não fosse um exemplo em Roma poderia ser condenado à morte, ser lançado de cima da Rocha Tarpeia. A internação compulsória é a Rocha Tarpeia moderna, a sociedade escolhendo quem ela não quer mais, independentemente da vontade dos indivíduos.

O senhor usa drogas recreativamente?

A minha resposta só pode ser uma: eu não sei. Eu não sei porque se eu digo que sim, como médico acabo tendo um argumento de autoridade, você pode se sentir estimulado a usar e eu não quero que alguém se sinta estimulado só porque me ouviu falar. Se eu digo que não, você pode achar que então é melhor proibir só porque eu disse, o que também não é minha intenção. Portanto, eu digo eu não sei. Não posso ignorar que eu seja formador de opinião, mesmo que eu não queira.

Fonte: O Globo