À margem da sociedade, travestis esbarram no preconceito para viver

À margem da sociedade, travestis esbarram no preconceito para viver

Ultimamente, tem-se falado muito sobre as pessoas transexuais e travestis, por conta do aumento de agressões e assassinatos em Teresina, o que gerou muita discussão e preconceito sobre o assunto. Por desconhecimento, essa pequena parcela da população tem sido julgada, principalmente por conta do seu trabalho.

A prostituição é um assunto delicado, ainda mais quando trata-se de prostituição de trans (Transexuais e Travestis). O que muita gente não sabe é que há motivos para elas acabarem nesse caminho, sendo principalmente a falta de oportunidades e a baixa escolaridade.

Para a secretária geral do Grupo Piauiense de Transexuais e Travestis, o preconceito tanto na família quanto na escola leva as trans a se distanciarem da formação acadêmica.

“Infelizmente, muitas de nós enfrentamos todo um ciclo de preconceito e discriminação, primeiramente na família, que é na maioria das vezes a primeira a excluir quando nós assumimos nossa identidade de gênero e também na escola, o que motiva a evasão escolar, por isso muitas não terminam a escola”, explica.

Como muitas são expulsas de casa, têm que aprender a se virar cedo na vida para poder sobreviver, e como não possuem uma formação acadêmica, as formas encontradas são profissões que não exijam diploma, como cabeleireira, cozinheira, manicure, e a mais comum é a prostituição, praticada por 90% das trans.

Maria Laura afirma que nos últimos tempo as trans têm conseguido ocupar os mais diferentes espaços da sociedade, mas ainda de uma forma sutil.

“Aos poucos estamos conseguindo romper essa barreira, estudando e nos capacitando, como já tem trans na segurança pública, na saúde, na educação demonstrando indo contra a maré”, revela.

Contrariando as estatísticas, a arquiteta Marcela Brás frequentou a universidade e conseguiu se formar, mas as portas foram fechadas quando chegou ao mercado de trabalho.

“Me formei na UFPI, completei o curso e quando fui para o mercado de trabalho o preconceito não me deixou ter uma oportunidade. Eu aparecia nas entrevistas de emprego e falavam que eu iria causar constrangimento nos clientes ou mesmo só mandavam eu esperar, não consegui nenhum trabalho na minha área”, conta, inconformada.

Sem oportunidades, a única opção vista pela transexual foi ir para a vida noturna. Atualmente Marcela tem que fazer programas para pagar as contas e diz que o trabalho na rua é muito perigoso, pois não sabe se voltará para casa viva.

“Infelizmente tive que ir para esse caminho. Eu saio todas as noites de casa sem saber se vou voltar, pois além dos perigos da noite, não sabemos com quem vamos sair, muitas amigas já foram agredidas pelos clientes que não queriam pagar o combinado”, revela.

Um dos fatos que mais marcaram a jovem foi quando um segurança a chamou para fazer um programa e acabou sendo agressivo.” As meninas sempre falavam que havia um segurança que era violento, como eu não sabia, um dia saí com ele. Fomos para um lugar isolado e ele começou a ser agressivo e me deixou em um lugar distante”, relembra.

Maioria dos agressores são clientes homens e da classe média

Susane Sousa, desde criança, via as trans se prostituírem no bairro onde mora e cresceu imaginando que algum dia iria ter que ir para a rua conseguir ganhar a vida.

Aliciada, chegou a ir para o Rio de Janeiro iludida com um futuro melhor. "Cheguei a ir para o Rio, por propostas que recebi, me prometeram muito dinheiro, que eu iria morar em um apartamento.

Quando cheguei lá, não foi bem isso que eu encontrei, por trás de tudo isso existe abuso e exploração sexual, aqui nós temos a liberdade de sair quando e com quem quiser, lá não", lembra.

A jovem de 28 anos conseguiu fazer um curso de auxiliar administrativa com as ONGs que retiravam as travestis das ruas, mas por falta de oportunidade não conseguiu trabalhar na área, voltou para o Piauí e continuou trabalhando na noite. Susane diz ter medo da violência e já teve que correr várias vezes de agressões.

"Lembro de uma vez que estávamos no nosso ponto, quando um carro parou e atirou duas vezes, saímos correndo imediatamente, fiquei muito assustada. Para evitarmos ser agredidas nas ruas, muitas vezes pegamos carona com os policiais para um lugar mais seguro", revela. De acordo com as trans, a maioria de seus agressores são homens de classe média alta e os abusos são constantes.

"Muitas de nós são agredidas nas ruas e durante os programas. Geralmente esses agressores são de classe média alta, eles se aproveitam que muitas meninas não adam com telefone e as levam para lugares distantes, onde são abusadas e as deixam a pé", relata Susane.

Grupos de apoio às Trans

No Piauí, existem cerca de 10 ONGs de apoio às travestis e transexuais espalhadas pelos Estado formando a Articulação Piauiense de Travestis e Transexuais (APPTRA).

Em Teresina, o Grupo Piauiense de Travestis e Transexuais (GPTRANS) existe desde 2009 e desenvolve trabalhos voltados a orientação e bem-estar das trans, realizando encontros para dividir experiências de vida, conselhos, orientações, promoção da cidadania, fiscalização.

O grupo faz trabalhos de orientação a agentes penitenciárias, policiais civis e militares, através do projeto "A gente Transforma", que prevê a elaboração de material educativo - cartilhas, folhetos - e a realização de oficinas sobre direitos humanos e identidade de gênero, atualmente o projeto será realizado com profissionais da saúde e da educação para orientá-los sobre como tratar as transexuais.

Entendendo Identidade de Gênero

A Identidade de Gênero compreende a nossa percepção sobre o gênero ao qual pertencemos e nos identificamos, que nem sempre é correspondente ao gênero biológico, o qual nascemos.

Uma pessoa pode nascer biologicamente menino e ter a identidade de gênero feminina ou vice-versa, o que difere de identidade sexual, no qual define a orientação sexual (homossexual, heterossexual ou bissexual).

É o que acontece no caso das travestis e transexuais. A Maria Laura dos Reis explica que existe uma diferença. "As transexuais podem ser tanto trans-homens quanto uma mulher biologicamente nasce menino, mas tem a identidade de gênero femenino, no caso das trans-mulheres, é o contrário.

A diferença das transexuais para as travestis está em querer realizar a readequação sexual, ou seja, as transexuais não sentem-se bem com o órgão genital o qual nasceram e querem realizar a transgenitalização. Já as travestis aceitam bem seus órgãos." Explica.

Fonte: Rhauan Macedo