ÁLCOOL E VELOCIDADE EM DUAS RODAS: A receita que leva à morte em Teresina

Teresina sofre com epidemia de acidentes de trânsito envolvendo motociclistas que dirigem em alta velocidade e ingerem álcool

Por Sávia Barreto e Juarez Oliveira

Não morra no trânsito. O apelo parece óbvio, mas aponta para a realidade de uma cidade pacata que contrasta com os índices alarmantes de acidentes de moto que tiram vidas, congestionam o sistema de saúde e deixam sequelas em suas vítimas. A quantidade de pessoas que deram entrada no Hospital de Urgência de Teresina (HUT), o maior hospital do Piauí, após terem sofrido acidentes de motocicleta, até agosto deste ano, somam 8.013 pacientes. Neste mesmo período em 2010 foram atendidas 7.082 pessoas. Diariamente são atendidos no HUT uma média de 20 a 30 pessoas vítimas de acidentes com moto. A receita de álcool e direção no final de semana resulta no aumento do número de atendimentos de acidentados com moto, que sobem para uma média de 50 a 60 pessoas por dia.

O neurocirurgião do HUT, Daniel França, lembra um trabalho brasileiro, feito em Minas Gerais, no qual se estudou a quantidade de álcool no sangue e os traumatismos cranianos. Foi concluído que, conforme aumenta a concentração de álcool no sangue, aumenta a incidência de traumas graves e diminui a de traumas leves, ou seja, a gravidade do trauma é proporcional à quantidade de álcool no sangue.

?Isso é ainda mais válido para acidentes de trânsito, especialmente com moto, pois o álcool não tem apenas consequências diretas, mas indiretamente reduz o índice de uso do capacete, aumenta a velocidade de condução e o desrespeito às normas de trânsito?, ressalta.

Daniel França frisa que as mínimas concentrações de álcool no sangue já fazem a diferença em se tratando de motos. ?Em cerca de 90% dos pacientes operados da cabeça por acidentes de moto, o álcool está envolvido com o acidente?. O médico é enfático sobre os caminhos para prevenir acidentes de moto: ?Fiscalização e punição severa?. Para ele, campanhas educativas desvinculadas de fiscalização têm pouquíssimo valor, especialmente em adultos.



De janeiro a agosto desse ano 8013 vítimas de acidente de moto foram atendidas no HUT / Foto: Efrém Ribeiro

Um estudo publicado em 2008 aponta o perfil das vítimas de trauma por acidentes de moto atendidas em um serviço público de emergência em Teresina. Há uma predominância do sexo masculino, correspondendo a 85,8% das vítimas, que se situam principalmente na faixa etária de 15 a 24 anos e de 25 a 34, com Ensinos Fundamental e Médio incompletos, renda mensal de um a dois salários mínimos; em sua maioria solteiros e procedentes do Piauí. Foi verificado que 76% das vítimas sofreram acidente de quinta-feira a domingo; 52,3% dos acidentes ocorreram no período noturno e 80,7% das vítimas apresentaram seqüelas temporárias.

O ?PONTO CEGO? DOS CONDUTORES DE CARROS: MOTOCICLISTAS

Desde 2005, o estudante de Computação na Universidade Estadual do Piauí, Henrique de Paula Barbosa anda de motocicleta. Mesmo priorizando a segurança, conduzindo a moto com velocidades compatíveis com as vias, e sem ingerir álcool antes de dirigir, Henrique foi vítima da irresponsabilidade no trânsito. Ao realizar uma das etapas do vestibular, o estudante voltava para casa quando uma senhora invadiu a preferencial em um carro.

?Eu quebrei minha perna, tive que colocar platina e passei sete meses sem poder pisar com a perna que quebrou, usando muletas. Ela estava com muita velocidade e continuou atravessando a mesma preferencial em alta velocidade mesmo depois do acidente?, lembra.

Depois desse primeiro acidente, Henrique e sua família ficaram apreensivos com o trânsito. ?Desde que eu comecei a andar de moto eu sabia que um pequeno acidente podia ser fatal, então eu sempre usei capacete, sempre procurei andar numa velocidade segura e tomava muito cuidado com ultrapassagens, por que os carros, principalmente os maiores, tem um ponto cego enorme, por que quase ninguém sabe posicionar o retrovisor?, frisa. O estudante foi vítima do uso de álcool quando sofreu outro acidente grave este ano. Ele estava na preferencial em um balão, quando colidiu com um veículo.



Henrique de Paula relembra os acidentes que sofreu quando andava de moto / Foto: Arquivo Pessoal

?O acidente não foi em alta velocidade por que nós estávamos no balão, mas foi o suficiente para quebrar minha outra perna e me fazer colocar platina de novo. Uma atendente do SAMU foi que me chamou atenção dizendo que o motorista do carro estava ?visivelmente alcoolizado??, conta. Henrique de Paula teve que passar cinco meses afastado do trabalho de auxiliar administrativo e em maio do próximo ano volta à mesa de cirurgia para retirar a platina. ?Eu vendi a moto e provavelmente nunca voltarei a andar em uma?, conclui.

CPTRAN REGISTRA ATÉ QUATRO ACIDENTES DE MOTO POR DIA EM TERESINA

A Companhia Independente de Trânsito de Teresina (Cptran) registra uma média de quatro acidentes de moto por dia. No primeiro semestre deste ano, foram contabilizados 550 acidentes de moto com vítimas e 93 sem vítimas. No ano passado foram 596 com vítimas e 110 sem vítimas. O recuo nos índices de acidentes se dá, principalmente, por causa do aumento na fiscalização. Em julho, agosto e setembro de 2011 ocorreram 268 acidentes com vítimas em Teresina e 47 sem vítimas.

Das 11.004 notificações expedidas nos primeiros oito meses do ano pela Companhia, 3.700 foram motivadas pela falta do capacete e 2.871 infrações foram registradas por falta de habilitação. Já motos não registradas ou não licenciadas chegaram a 1.712 ocorrências. Entre as regiões com maior quantidade de acidentes de moto na capital, estão o Grande Dirceu, as avenidas Joaquim Nelson e Noé Mendes, na zona sudeste.



No primeiro semestre foram registrados 643 acidentes em Teresina / Foto: Efrém Ribeiro

Eles são mais de 2.027 apenas na capital e trabalham sobre duas rodas. O agravante na profissão é que os efeitos de um acidente envolvendo mototaxistas também recaem nos passageiros. Os mototaxistas de Teresina, no entanto, têm priorizado a educação na batalha contra o aumento no número de acidentes com motos. O presidente do Sindicato dos Mototaxistas de Teresina, Celso Luís Pereira, afirma que a educação no trânsito deve ser para todos.

?Antes de conseguir a licença para ser mototaxista é preciso fazer um curso de direção defensiva e outro de atendimento ao cliente. Estamos sempre oferecendo cursos aos mototaxistas, mas também é preciso que haja mais respeito com a classe?, conta Celso, ressaltando que, mesmo sem dados de acidentes envolvendo mototaxistas, as colisões são mais comuns em pistas molhadas e envolvendo pessoas embriagadas.



Celso Luís diz que mototaxistas têm priorizado a educação para reduzir acidentes / Foto: Hélvio Menezes

No ano passado, 60% das indenizações relativas ao seguro DPVAT (Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre ou por sua Carga a Pessoas Transportadas ou Não) foram pagas para acidentes envolvendo motocicletas. Teresina já é a 5ª cidade brasileira com trânsito mais violento, já que os acidentes de trânsito estão entre as principais causas de morte entre homens de 20 a 24 anos na capital, segundo dados do Ministério da Saúde. Com relação aos acidentes com motocicletas, o Piauí registra a taxa de 14,7 mortes de motociclistas por cada grupo de 100 mil habitantes, a segunda maior taxa de todo o Brasil, perdendo apenas para Rondônia, de acordo com o Ministério Público do Estado. Os dados do Departamento Estadual de Trânsito mostram ainda que 91% dos acidentes de trânsito com vítimas fatais envolvem motociclistas, na faixa etária entre 17 e 35 anos de idade.

CRESCIMENTO DO NÚMERO DE MOTOS COINCIDE COM AUMENTO DE ACIDENTES

O número de motocicletas no Piauí já é 32,52% maior que o número de carros. São 318.246 motocicletas contra 214.727 carros, o que representa uma relação de 1,48 motos para cada carro. De acordo com o Diretor de Infrações do Departamento de Trânsito do Piauí (Detran-PI), João da Cruz de Sousa Neto, esse aumento no número de motocicletas é maior no interior, onde as pessoas estão trocando outras foram de transporte pela motocicleta. ?A quantidade de motocicletas tem crescido atualmente até por conta do maior poder aquisitivo da população. No interior a quantidade de motocicletas tem crescido bastante, as pessoas estão trocando as bicicletas, os animais de carga e de transporte, pela moto?.

Como os casos mais graves de acidentes são enviados para a capital, o sistema de saúde fica sobrecarregado. Com um número significativo de pessoas com baixa escolaridade no Piauí, que desconhecem as sinalizações de trânsito e utilizam motos em seus deslocamentos, a quantidade de acidentes tende a aumentar. Além disso, a facilidade para adquirir uma motocicleta faz com que esses índices sejam cada vez mais altos. João Neto lembra que por conta do preço do seguro obrigatório das motocicletas, que é de R$ 270, o número de veículos irregulares é cada vez maior. ?Além do seguro obrigatório, quem adquire uma motocicleta tem de pagar as taxas do Detran e do IPVA, o que eleva o custo para se regularizar uma moto, que pode chegar a R$ 400. Assim, o número de veículos irregulares é muito grande e por isso temos que reforçar a fiscalização?.

O Detran realiza blitzes para fiscalizar o trânsito em Teresina e no interior. João Neto explica que na capital o Detran faz fiscalizações em parceria com a Polícia Militar, com a Strans (Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito) e com a Polícia Rodoviária Federal. ?No interior fazemos o planejamento entre os agentes de trânsito e passamos um ou dois dias realizando as blitzes. No caso das motocicletas as principais infrações registradas são a falta de capacete, veículos não registrados e falta de equipamentos obrigatórios, como os retrovisores?. O diretor comenta que no interior é difícil ver alguém utilizando capacete e é comum registrar motos com mais de duas pessoas ou até carregando animais na garupa.



Falta de uso de capacete é a infração mais comum cometida pelos motociclistas / Foto: Maurício Pokemón

Mesmo com a fiscalização mais rígida por parte dos órgãos de trânsito, os acidentes envolvendo motocicletas em Teresina tem aumentado a cada ano. De acordo com a gerente de educação no trânsito da Strans e coordenadora do Projeto Vida no Trânsito, em Teresina, Audea Lima, esse aumento no número de acidentes é decorrente, além do grande número de motocicletas, da própria vulnerabilidade desse tipo de transporte. ?Esse grande número de acidentes se dá pelo comportamento de risco que os motociclistas têm adotado e pela falta de uso dos equipamentos de segurança, como capacete?.

O número cada vez mais alto de acidentes de trânsito envolvendo motociclistas chamou a atenção do Governo brasileiro, que em junho do ano passado lançou o Projeto ?Vida no Trânsito?, que envolve vários Ministérios em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e a Bloomberg Philanthropies, fundação internacional de promoção de atividades na área social. A princípio as cidades escolhidas para a implantação do Projeto, que tem o objetivo principal de reduzir lesões e óbitos no trânsito, foram Teresina, Palmas (TO), Campo Grande (MS), Belo Horizonte (MG) e Curitiba (PR).

Como parte do processo para reduzir esses índices de acidentes, a Strans tem trabalhado em parceria com o Projeto Vida no Trânsito, realizando campanhas educativas para promover o uso do capacete e mostrar aos motociclistas a importância da condução responsável. ?Temos realizado campanhas educativas com a produção do manual do motociclista responsável, além da elaboração de campanhas para o rádio e a Tv. Fizemos também blitzes educativas com cerca de 4.000 motociclistas mostrando a necessidade do comportamento seguro e uso do capacete de forma correta. O capacete não evita o acidente mas pode reduzir a gravidade das consequências?, informa Audea Lima.



Audea Lima explica que educação, fiscalização e sinalização são determinantes para reduzir o número de acidentes / Foto: Maurício Pokemón

A coordenadora explica que o que já pode ser constatado como resultado da campanha é que o número de mortes em decorrência de acidentes com motocicletas não registrou aumento no primeiro semestre de 2011, de acordo com os dados do sistema de informações de mortalidade, do Ministério da Saúde. Audea explica que o programa tem a participação de vários órgãos no Piauí, como a Fundação Municipal de Saúde, o Detran, a PRF, PM, OAB, Semec, Semplan, Sest/Senat, Ciptran, entre outras instituições. ?Como parte da campanha realizamos o evento "Um Grito pela Vida". A Maçonaria e o Ministério Público Estadual também estão realizando campanhas preventivas. Infelizmente, não podemos determinar quantas vidas estão sendo salvas, mas pela tendência esse número está em crescimento?.

Audea elenca a bebida e a velocidade como os fatores determinantes para aumentar a gravidade dos acidentes de trânsito. No caso das motocicletas essa combinação é ainda mais grave, pois a falta do uso do capacete somado ao álcool e à velocidade pode ocasionar acidentes fatais. As punições para pilotar sob a influência de álcool ou entorpecentes vão de detenção de seis meses a três anos; suspensão da Carteira Nacional de Habilitação por 12 meses; multa de R$ 957,70; retenção do veículo até a apresentação de um condutor habilitado e recolhimento do documento de habilitação.

A coordenadora explica ainda que o caminho para se reduzir os acidentes com motocicletas passa necessariamente pela educação e pela fiscalização, além de engenharia de tráfego e sinalização adequada. ?Há pessoas que necessitam de mais educação, outras que devem ser mais fiscalizadas e ainda outros que precisem apenas de mais sinalização. Por isso esse tripé é fundamental?.

Fonte: Savia Barreto