Autistas podem apresentar habilidades criativas extraordinárias

Tratamento é fundamental, mas a evolução depende de cada pessoa

“O pai dele dizia que eu ia criar uma cobra, mas eu nunca o vi assim, fui à frente, lutei e hoje ele é o meu maior orgulho”. Esse é o relato de Francisca Pereira, mãe do adolescente Matheus Falcão, diagnosticado com autismo aos 2 anos de idade e que se viu sozinha com três filhos para criar quando foi abandonada pelo ex-marido, que não assumiu a responsabilidade de cuidar do filho. A voluntária da AMA (Associação de Amigos dos Autistas do Piauí), onde o filho faz terapia, revela que constatou os sinais do distúrbio muito cedo, pois ele jogava o corpo contra a parede e fazia movimentos repetitivos com as mãos.

“Eu sofri muito e meu relacionamento acabou, meu marido e pai do Matheus me abandonou, saiu de casa, mas eu não desisti do meu filho”, disse. Hoje, aos 16 anos, o jovem está matriculado no 1° ano do Ensino Médio em uma escola regular e tem um bom relacionamento com os demais alunos do colégio, além de se destacar com bons resultados escolares e na evolução do seu tratamento. “No começo, ele não fazia quase nada, mas foi se destacando e já tem a independência dele para tomar banho, escovar os dentes e comer, além de desenhar muito bem. Ele me surpreende muito a cada dia”, disse.

Apaixonado por política e um verdadeiro talento nas artes visuais, o garoto é um exímio cartunista dos candidatos em época de eleição e já está agendada a data para ir ao Cartório Eleitoral retirar seu título de eleitor, já que acabou de completar idade suficiente para exercer sua cidadania com o direito do voto. Matheus Falcão, destaca que um dos seus programas favoritos é assistir à televisão e ficar informado sobre tudo o que acontece.

O Manual de Saúde Mental classifica os três graus de distúrbio do autismo como Transtornos do Espectro Autista – TEA que é uma condição geral para um grupo de desordens complexas do desenvolvimento do cérebro, antes, durante ou logo após o nascimento. Esses se caracterizam pela dificuldade na comunicação social e comportamentos repetitivos. Embora todas as pessoas que possuem o distúrbio partilhem essas dificuldades, o seu estado irá afetá-las com intensidades diferentes. Assim, essas diferenças podem existir desde o nascimento e serem óbvias para todos ou podem ser mais sutis e se tornarem mais visíveis ao longo do desenvolvimento.

Tratamento é fundamental, mas a evolução depende de cada pessoa

A psicóloga Ijaiza Marques explica que o transtorno pode ser associado à deficiência intelectual, dificuldades de coordenação motora e de atenção, mas os portadores do autismo de alto desempenho são excepcionalmente inteligentes, talentosos e especializados em uma determinada área, como a música ou a matemática. Ela lembra que o tratamento vai depender de cada caso. “Um dos grandes comprometimentos está relacionado ao comportamento, interação social e movimentos estereotipados. O atendimento é individualizado e nós orientamos as famílias para que eles possam continuar o tratamento em casa e isso é importante porque, às vezes, eles estão muito mais fragilizados”, disse a especialista.

Alguns portadores podem balançar, rodar ou agitar as mãos para criar sensação, ou para ajudar com o balanço e postura ou para lidar com o estresse ou, ainda, para demonstrar alegria. Outros possuem sensibilidade sensorial e se comunicam através do corpo. Um bom desenvolvimento do esquema corporal pressupõe uma boa evolução da motricidade, das percepções espaciais e temporais, e da afetividade.

As pessoas com autismo podem ter alguma forma de sensibilidade sensorial. Isto pode ocorrer em um ou em mais dos cinco sentidos – visão, audição, olfato, tato e paladar – que podem ser mais ou menos intensificados. Por exemplo, uma pessoa com autismo pode achar determinados sons de fundo insuportavelmente barulhentos, quando outras pessoas ignorariam. Isto pode causar ansiedade ou mesmo dor física. (W.B.)

Autistas podem apresentar habilidades extraordinárias

Uma recente pesquisa publicada na revista Science Advances concluiu que pessoas com características autistas dão respostas mais criativas para problemas que testam o chamado “pensamento divergente”, ou seja, a capacidade de oferecer várias respostas diferentes a uma pergunta.

A diretora pedagógica da AMA, Maria Rosália Oliveira, afirma que existem autistas com habilidades extraordinárias, denominados de autistas de alto desempenho, mas que são uma minoria, representando menos de 5% dos portadores do distúrbio. Eles apresentam uma memória surpreendente, além de outras habilidades extraordinárias que não são exibidas pela maioria das pessoas, tais como cálculo matemático, habilidades artísticas e musicais.

“Existe um grupo muito grande no Brasil e no mundo de pessoas com síndrome de Asperger que contribuem muito com novas pesquisas sobre o assunto. Nenhum deles apresentam dificuldade intelectual e alguns deles o Q.I. é acima do padrão, têm facilidade muito grande de desenvolver habilidades apesar da dificuldade na interação social”, afirmou Maria Rosália.

Segundo ela, as crianças já apresentam alguns sintomas desde a sua amamentação que possuem dificuldade em interagir com a mãe e em segurar o seio, chora muito, tem dificuldade para dormir, mas é mais comum identificar o transtorno com 2 a 3 anos.

Fonte: Jornal Meio Norte