Balé Jovem do Piauí transforma sonhos em realidade

Balé Jovem do Piauí transforma sonhos em realidade

Balé Jovem do Piauí transforma sonhos em realidade

Na espera, a penumbra; até que as cortinas se abrem e o espetáculo finalmente começa. Passos marcados ao som de obras marcantes, na sapatilha o equilíbrio contrasta com os áridos caminhos perseguidos. Alçadas, giram no mais belo pragmatismo da dança, ensaiam o fim de uma história que promete ter um final feliz, contudo no ápice da cena ainda reverberam as batalhas a serem guerreadas. A mágica se esconde, e mais um dia de conquista começa; o próximo destino ainda é um mistério, no entanto se leva a certeza de que nada foi em vão e que o objetivo será alcançado. Em quatro anos o Balé Jovem do Piauí prova que as conquistas se fazem a cada degrau e o que é construído traz além de uma experiência na dança, uma lição de vida.


Obra da paixão da bailarina Marinalva Gamosa, o projeto teve início no ano de 2010, de modo espontâneo e sem grandes pretensões. De braços abertos para repassar a arte que a arrebatou, dava aulas em uma escola de balé na capital, até que a vocação de três meninas chamou sua atenção. “Elas queriam aprender mais, aprimorar a técnica, então comecei a ensiná-las em outro período em um espaço cedido pela própria escola”, conta a idealizadora. Eis o estopim da ação. A partir de então o interesse foi disseminado, tornando o ambiente pequeno para tantas aspirações, logo a direção do local não permitiria mais que o grupo continuasse a utilizar as dependências, assim se fez o primeiro desafio, que poderia ter dado um fim ao projeto que sequer havia iniciado por completo. Alheia a todos os problemas e empecilhos, a alma de guerreira falou mais alto e usando sua voz de comando, convidou as aspirantes à bailarina para ensaiar na sua casa. Deu-se assim o pontapé para uma obra, que hoje modifica vidas e devolve a esperança há quem já duvidava que ela poderia existir.

Nos ensaios “improvisados” na residência da professora, surgiam as primeiras competições e os resultados da família “Balé Jovem do Piauí” apareciam em demasia. Contagiando todas as integrantes. Com o sucesso do projeto, a visibilidade também aumentava e o interesse pela dança batia na porta de Marinalva. “Algumas foram convidadas, mas outras nos procuraram”, garante. O espaço novamente ficou pequeno, era o momento de subir mais um degrau.

“Ficamos dois anos nesse esquema”, afirma a bailarina.O aluguel foi a única solução encontrada, já que ficava inviável efetuar a compra de um imóvel. Assim, atualmente, quinze artistas atuam na Companhia, o foco está na profissionalização, contudo nesta variável cabem outros detalhamentos que fogem da mecanicidade e precisão dos movimentos. O ambiente ainda é minúsculo tamanha pretensão, mas o suficiente para refletir o sorriso da cada acerto e a nostalgia do amadorismo de outrora.

Comprometimento, força de vontade e persistência 

Com conjuntos prontos, duos e solos, o Balé Jovem do Piauí arquiteta apresentações constantemente, este hábito contudo é recente, a preocupação com as competições e a busca pelas bolsas de estudos era tanta que esse plano foi posto de lado em certas ocasiões. 

"Só depois de um tempo fomos perceber que não havia espetáculos, os pais de algumas delas sequer tinham visto as filhas dançarem, então resolvemos mudar isso", destaca a coordenadora do projeto e médica Ana Gamosa.

A semente deixada pelo balé na vida das alunas brota em comprometimento, força de vontade e persistência, absorvidas quase por "osmose" devido às práticas progressistas impostas pela rotina de ensaios, que acontecem de segunda à sábado de 15h às 17h. "A disciplina do balé elas levam para a escola, para casa, aprendem de tudo", destaca Marinalva Gamosa.

Os frutos colhidos pelo grupo não param por aí, com participações seguidas em festivais, tanto de âmbito nacional como internacional, o celeiro de talentos tende a se propagar, de modo que as oportunidades se multiplicam e o objetivo de viver em torno da arte fica ainda mais próximo.

Malabarismo para conseguir competir 

Em um pequeno vasilhame dentro da mochila, fazia companhia a sapatilha e o figurino, um material bem pitoresco e que nada tinha relação com o balé. Sim, Maria Rego carregava pedaços de bolo que buscava vender para finalmente conseguir custear sua passagem para a próxima competição. 

Ao sair dali, a jovem estudante teria que enfrentar novos desafios, que não se limitavam a marcação da coreografia, o tempo é o inimigo e cada compra efetuada diminuía a distância, que teima em dificultar sua trajetória.

Sem grandes incentivos, o Balé Jovem do Piauí não tem condições de arcar com todas as despesas de viagem, e assim como faz Rego, outras ações do tipo se repetem e dão a tônica da corrida efusiva por um lugar ao sol.

Perder os testes ou festivais está fora de cogitação, o crescimento na carreira é entendido como um ideal, e deixar de percorrê-lo orquestraria para uma sensação de desânimo que não combina com as 15 bailarinas da companhia.

Marinalva confessa que as apresentações são intensificadas na época de eventos importantes, afinal até mesmo a inscrição demanda um valor em dinheiro, que na maioria das vezes faz uma diferença substancial para as famílias das alunas. 

“Recentemente tivemos que fazer espetáculos para conseguir o montante para as inscrições, só uma vaga solo era R$ 180, se levássemos o conjunto, então era R$ 80 por pessoa”, explica. Nesse caso em específico, a ação deu certo.

Mesmo assim, o dinheiro arrecadado nunca é o suficiente para as passagens e hospedagem, então volta-se para os métodos emergenciais. Os pais ou responsáveis ficam com o custeio destes vértices. “Temos que fazer rifas, feijoadas, entre outras coisas”, impõe a integrante do grupo Maria Rego.

No anonimato dos bastidores esconde-se a mãe da bailarina, Eliete Rego, autônoma, ela retrata o desenho da tortuosa batalha. “Ás vezes ficamos mais nervosas que elas; é muito difícil de conseguir, quando ela era mais nova eu até a acompanhava nas viagens, mas agora, com a experiência adquirida, já não é necessário, e também fica inviável comprar as passagens para acompanhá-la”, declara.

O apoio incondicional da família traz a força para continuar, é comum encontrar nos arredores da sede mães, pais, tias, que concentram no balé perspectivas, que podem mudar a trajetória das integrantes da iniciativa. 

“A presença é total, sempre muito próximos, mesmo diante de todas as dificuldades. Trazem lanches, ajudam na maquiagem, ou seja, os familiares são praticamente integrantes”, destaca Ana Gamosa. A coordenadora da ação ainda relata.

“Algumas mães colocam até barraquinhas em festejos para vender comida”, afirma.

A casa das sete mulheres 

É impossível apontar as conquistas do Balé Jovem do Piauí sem citar a união das irmãs 'Gamosa'. Ao todo são 14, mas no Piauí residem 7, sendo que até pouco tempo atrás elas viviam na mesma casa. 

"Isso só mudou quando a Ana casou e agora somos seis", insere a apoiadora da iniciativa, Conceição Gamosa. Porém, apesar do minúsculo afastamento, o projeto iniciado por Marinalva segue sendo o motor de uma relação de irmandade, que atua pelo bem. "Sempre foi um sonho de vida da minha irmã, que buscava oferecer todo tipo de atenção a essas meninas.

Hoje, quando ela chega com um problema, buscamos orientá-la e fazer o possível para ajudar. O Balé Jovem contagiou a todas", declara Conceição.

A paixão que contaminou as irmãs faz com que sonhos se transformem em realidade e bailarinas como Isadora Araújo, de 15 anos, fujam do marasmo de uma vida sedentária e partam para o ataque.

"Desde muito tempo almejei isso, sempre quando via a dança me despertava o interesse. Sonho em estar em uma grande companhia, a participação no projeto me trouxe concentração, conheci outros lugares, participei de competições e fiz amigas", afirma. 

Exemplos como este se espalham em forma de gratidão e comprometimento, a seriedade dos ensaios e a rotina pesada são refletidas no abraço caloroso ao fim de cada espetáculo, de mãos dadas as bailarinas viajam no mundo da imaginação, contudo esquecem a utopia e focam no sucesso. O alvo está perto e o tiro deve ser certeiro.

"Quero conseguir uma bolsa de estudos, participar de grandes escolas de dança. Desde os seis anos via os contos e sonhava em ser bailarina, faço porque gosto, é a arte que me possibilitou conhecer pessoas, novas culturas e mudou a minha forma de ver o mundo", detalha Maria Rego. 

A jovem já participou de diversos testes e já chegou a passar de fase. "A concorrência é muito grande, mas o balé já me trouxe vários aprendizados, como ter disciplina, o que acabou me ajudando na escola", insere.

Conformada, a mãe de Rego sabe que o futuro da filha pode estar na mudança de Estado e até mesmo de país, nesse momento os sentimentos se misturam. 

"Ela é uma ótima filha e tenho que apoiá-la no seu sonho. Fico feliz por suas conquistas, e se algum dia ela tiver que ir embora o coração fica triste, mas criamos os filhos para o mundo", diz Eliete Rego.

Mesmo sem apoio, o resultado impressiona 

O Balé Jovem do Piauí, no momento, só conta com mulheres no seu casting, mas a coordenadora da iniciativa destaca que não há restrições, nem mesmo uma faixa etária específica foi imposta, contudo como o objetivo é a profissionalização, geralmente são selecionados participantes entre 7 e 16 anos. 

"As coisas acontecem naturalmente, porém a maioria das bolsas impõe o limite até 18 anos, então é necessário começar a trabalhar cedo. O projeto está aberto aos meninos, inclusive alguns participaram da última seletiva, mas infelizmente não foram aprovados", explica.

Os testes para ingressar no Balé Jovem do Piauí acontecem de acordo com a necessidade para determinado espetáculo. "Fizemos um processo de escolha em janeiro, possivelmente faremos outros no próximo ano", afirma Ana.

Quanto aos resultados da Companhia, a coordenadora se diz impressionada. "Acho incrível, mas foi às custas de muito trabalho, não temos apoio, cada uma de nós tem um emprego diferente, para nós foi pura dedicação", completa. 

Ao tomar por base a mística relação existente entre as integrantes, o sucesso está completo, o espetáculo se transforma, mas as protagonistas continuam mantendo o mesmo foco, em busca do lugar mais alto, na ânsia por uma oportunidade, na perseguição da concretização do grande sonho.








Fonte: Francy Teixeira