Beijo vira defesa antidoping para tenista francês

A pena, que poderia chegar a dois anos afastado das quadras, foi divulgada ontem pelo Tribunal Independente Antidoping da ITF

Flagrado com cocaína durante o exame antidoping do Masters 1.000 de Miami, em março deste ano, o tenista francês Richard Gasquet, 23, cumpriu uma suspensão de dois meses e 15 dias, encerrada ontem.

A pena, que poderia chegar a dois anos afastado das quadras, foi divulgada ontem pelo Tribunal Independente Antidoping da ITF (Federação Internacional Antidoping).

A defesa do tenista alegou que a presença da cocaína (benzoilecgonina) foi resultado de beijos trocados com uma jovem, identificada apenas como Pamela, em uma festa.

De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, o caso pode abrir um precedente.

"Só um beijo. Isto é surpreendente. Nunca tinha visto algo assim. Só seria possível se a moça estivesse com a boca cheia de cocaína. Com essa decisão está aberto um precedente para outros casos", afirmou Marco Aurélio Dornelles, especialista em antidoping do COB (Comitê Olímpico Brasileiro).

O advogado esportivo Luciano Hostins, que já trabalhou em vários casos de doping, classificou o caso como "absurdo".

"Uma alegação dessas não tem como ser provada", afirmou o advogado. "O argumento me parece muito frágil."

Cientificamente, médicos apontam que a alegação do tenista francês é possível.

"É verdade que você elimina a cocaína pela saliva, mas é necessário ver o método de análise. O exame precisa ter sido ultrasensível para detectar a cocaína", disse Dornelles.

Coordenador médico da CBT (Confederação Brasileira de Tênis), Rogério Teixeira da Silva, afirmou que existem histórias mirabolantes em casos de defesa de doping, mas confirmou que é possível a transmissão da cocaína pela saliva.

Silva discorda, porém, que a decisão abre um precedente.

"O caso foi avaliado de uma forma isolada", afirmou o médico. "Novos casos serão analisados de acordo com suas peculiaridades", completou.

O caso pode ir à CAS (Corte de Arbitragem do Esporte) e a sentença pode ser reformada.

"Muitas vezes, as federações, fazem um julgamento mais amigo. Mas depois existe uma observação da WADA [Agência Mundial Antidoping]. E você pode ter certeza que a entidade está olhando esse caso", afirmou Eduardo de Rose, especialista em controle de dopagem.

Luciano Hostins disse acreditar que tecnicamente será difícil manter a sentença na CAS, mas afirmou que é a primeira vez que um caso como esse será julgado sob o novo código mundial antidoping.

Ex-número sete do mundo e atual 32º, Gasquet foi apontado pelo tribunal como tímido e reservado, honesto e confiável, íntegro e de bom caráter.

Fonte: Folha Online, www.folha.com.br