Biodiversidade do Cerrado piauiense está sendo ameaçada

O Cerrado piauiense compreende mais de 11 milhões de hectares,

Sem ter o reconhecimento como patrimônio nacional e uma lei de uso sustentável, a vegetação nativa do Cerrado piauiense perde cada vez mais espaço.

Esse cenário afeta não só a biodiversidade, como também os povos e comunidades tradicionais que vivem na região. Boa parte de hectares da cobertura vegetal do Cerrado já foi perdida para o agronegócio, em sua maioria para as plantações de soja, cana, eucalipto, algodão e a pecuária extensiva.

O Cerrado piauiense compreende mais de 11 milhões de hectares, sendo que 5 milhões são agricultáveis, distribuídos em 28 municípios, dos quais pouco mais de 20 cultivam soja, milho, arroz e algodão. São 70 mil quilômetros quadrados e população de pouco mais de 220 mil habitantes. São cerca de 420 produtores no Piauí, segundo dados do IBGE.

O professor-doutor em Geografia, Antônio Cardoso Façanha, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), realizou estudos na região e detectou a forte participação do capital privado no bioma.

Ele salienta que a atividade, que retira toda vegetação natural, pode acarretar sérias implicações no futuro. E ressalta que a atividade de agroecologia pode passar por um processo migratório na produção de grãos e causar sérios impactos nos Cerrados piauienses.

“Quando o produto soja ou grão não se tornar mais rentável no mercado consumidor no período de 20 a 30 décadas, nos preocupa, no sentido do que irá acontecer no território com a base natural retirada.

A recuperação dos recursos hídricos é alguma das consequências que podem ser irreversíveis. E se não houver uma política de controle de desmatamento, as gerações futuras podem sofrer graves consequências”, destacou.

Para 2015, a estimativa é que os Cerrados devem produzir mais de 3 milhões de toneladas de soja e milho – são 1 milhão e 858 mil toneladas de soja e 1 milhão e 248 mil toneladas de milho. É a maior produção de grãos já registrada em terras piauienses, segundo o documento Acompanhamento da Safra Brasileira de Grãos.


Atividade de produção nos Cerrados é exógena

Antônio Façanha afirmou ainda que a produção de grãos não abastece o mercado local, mas sim parte do mercado nacional e internacional, por isso não é uma atividade que investe o seu produto final para o consumo da população e se caracteriza como uma atividade exógena, que veio de fora para dentro.

"O Cerrado piauiense possui uma ineficiência de controle do território por parte do Estado no sentido das políticas públicas. Existe um déficit na implantação dos equipamentos sociais para as cidades dos Cerrados e na desigualdade territorial em referência ao que se produz em tecnologia, já que as cidades da região não usufruem das riquezas geradas no campo", destacou.

O doutor exemplificou o caso do município de Uruçuí como estratégia de controle territorial, já que fomentou a expansão do agronegócio e aprofundou as contradições nas relações de trabalho e na vida das pessoas que residem na localidade, uma vez que vivem em uma terra altamente produtiva, mas, em contrapartida, muitos se encontram em condições de miséria.

Nesse sentido, os conflitos gerados dos contrastes econômicos e sociais são cada vez maiores e comuns entre os excessivos lucros dos grandes empresários com a dificuldade de sobrevivência dos pequenos produtores.

"Rediscutir os instrumentos de gestão voltados para políticas públicas e desenvolvimento do território, pensar o território, seu ordenamento em suas constantes transformações são os meios adequados de garantir desenvolvimento com qualidade de vida à população", diz o professor em seu texto publicado no livro "A Territorialidade do Capital". (W.B.)

Mudanças no bioma e ecossistema

Segundo a análise do economista Romildo Torres, o bioma Cerrado vem passando por mudanças significativas em todo o território brasileiro e tem levado a uma reorganização paisagística do ecossistema.

O processo de uso e ocupação tem sido intensificado pelo surgimento constante de novos projetos agrícolas que geram grandes impactos e efeitos negativos sobre mananciais de águas superficiais e subterrâneas, solos, biodiversidade e saúde humana na região.

Ele defende a proposta de implantação de um modelo de Gestão Ambiental no Cerrado do Piauí. "Sem dúvidas a região dos Cerrados piauienses representa uma fronteira de prosperidade, representando cada vez mais um centro promissor de riquezas, um celeiro capaz de produzir, abastecer e

exportar alimentos agropecuários, gerando emprego no campo e nas cidades. Não esquecendo, entretanto, de utilizar uma exploração racional e sustentável para garantir a qualidade de vida das futuras gerações", conclui. (W.B.)

Exploração avançada gera impactos negativos

Com a agroecologia, a arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS) na região chegou aos R$ 77 milhões em 2012 e de acordo com pesquisadores este valor poderia ser maior.

Para o economista Romildo Torres, autor do trabalho sobre os Cerrados que foi publicado pela Fundação CEPRO (Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí), parte desse valor poderia ser destinada para a preservação e conservação da região.

"Eu já tinha realizado um estudo em 1993 e 20 anos depois fui convidado para fazer uma nova avaliação do impacto da economia de uma das maiores fronteiras agrícolas do Brasil sobre a população.

O que pude perceber é que lá existe uma riqueza imensa, mas que não chega aos piauienses, pois muitos deles são empregados dos empresários que chegam de fora e tomam de conta das terras. Eles desmatam a plantação nativa e não respeitam o limite de devastação", destacou.

Ele ressaltou que a agroecologia é importante para a economia do Brasil, mas é preciso considerar os aspectos ambientais e sociais da região, além de valorizar o modo de vida e a economia popular dos Cerrados.

Segundo ele, o predomínio do interesse econômico sobre a conservação do meio ambiente provoca como consequência imediata a degradação ambiental, por meio da perda da camada de solo agrícola e a redução da população de diversas plantas e de animais.

"O impacto da exploração agrícola do Cerrado piauiense, devido à utilização de moderna tecnologia, embasada na mecanização e uso de insumos, como a aplicação de corretivos e fertilizantes sem antes realizar uma análise do solo em laboratório, bem como a aplicação desordenada de agrotóxico, tem estimulado estudos específicos para diminuir os impactos causados pelo incorreto uso e manejo do solo", destacou o economista em seu estudo e análise das potencialidades dos Cerrados piauienses.


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Fonte: Waldelúcio Barbosa