Campanha combate opressão feita através de "brincadeiras"

Sob a bandeira da “Opressão não é brincadeira”

“Esse ‘nego’ é bonito, tem traços de branco”. É bem provável que você já tenha ouvido frases como essa ou presenciado cenas em que uma pessoa é destratada ou ofendida em público por sua cor, orientação sexual, naturalidade, sexualidade e logo depois o opressor se defende afirmando se tratar de uma brincadeira. 

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Contudo, nascem nas redes sociais movimentos como a campanha “Opressão não é Brincadeira” que têm por objetivo acabar com esse tipo de agressão verbal e ganham a cada dia mais força e novos militantes. Essas campanhas visam mostrar que nesse tipo de abordagem ficam expressos machismo, homofobia, xenofobia e outros tipos de preconceito.

Para a mestre em políticas pública e pesquisadora de gênero da Ufpi (Universidade Federal do Piauí), Dulce Silva, esse tipo de conservadorismo sempre existiu e até mesmo na própria rede social.

Ela acredita que essas agressões devem ser tratadas como crime, mas também é necessário mostrar que aquele comportamento não é correto para haver uma mudança de costume.

“Eu faço parte do movimento feminista, sou do comitê político das mulheres brasileiras. Nós fazemos uma articulação em que qualquer tipo de brincadeira, mas que atinja a nossa dignidade, que atente contra os nossos direitos, nós reagimos e dessa forma quando percebemos deboches como quando falam: ‘mulher é como bife, quando mais bate, mais macia fica’, nós tentamos primeiramente explicar o que aquilo significa, que isso reforça a violência, se torna uma forma de machismo que vai se perpetuando e isso vale para qualquer tipo de preconceito. 

Muita dessas ofensas são crimes e devem ser tratadas como tal. Fazemos um chamamento para que as pessoas denunciem esses tipos de agressões”, afirmou.

Dulce Silva acredita que esse tipo de comportamento pode ser considerado como algo cultural, mas que a discussão é muito mais complexa. A pesquisadora diz que ainda há muito o que percorrer no combate ao preconceito e que a educação é a base para a situação começar a ser modificada.

Ela cita uma campanha que foi criada para ser implantada nas escolas ainda da primeira infância, como forma de criar uma sociedade mais tolerante e respeitosa.

“Antes a luta de todos os movimentos sociais era que esse tipo de atitude se tornasse crime, mas hoje defendemos que além da questão da criminalização, seja também combatido a mudança de hábitos e costumes do povo brasileiro. 

Está sendo feito uma campanha para ser apresentadas nas escolas, já para as crianças aprenderem ainda no ensino básico uma nova forma de se relacionar entre si, uma forma respeitosa. 

Eles irão aprender que não se pode ofender um colega que tenha a cor diferente da sua e assim conhecer o que é preconceito, o que é discriminação. Essa campanha é um apelo ao sentimento ao carinho, amor. Um apelo para o respeito e afetividade”, completou.

A mestra acredita que a forma de educação tem mudado nos últimos anos, mas que a solução não pode ficar apenas nas mãos das gerações futuras, mas toda a sociedade deve se envolver.

“Nós estamos falando de relação entre pessoas, então temos que construir novas formas de relações, pois essa forma que tem sido vivida, tem trazido muitas dores, sofrimentos e crimes em que estão embutidos preconceitos”, concluiu.

Opressão deve ser combatida nas ruas 

A estudante de Comunicação Social, Carmem Kemoly, 24 anos, militante do movimento negro em Teresina, afirma que toda ação contra as opressões são bem vindas, principalmente quando nascem nas rede sociais que tem milhões de usuários conectados, contudo ela defende que esse combate pode, sim, iniciar-se no mundo on-line, mas que deve ser enfrentado mesmo nas ruas, dentro de casa, no dia a dia. 

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"Ser feminista apenas nas redes sociais e na teoria, por exemplo, e não combater esse machismo dentro de sua própria casa com o pai ou seu companheiro, não irá mudar muita coisa", considera. A jovem defende que essa postura deve ser adotadas por todas as militâncias que lutam contra a intolerância e o preconceito.

Os militantes apostam na efetivação da lei 10.639, que obriga o estudo da história e cultura afro brasileira nas escolas, acreditando que esses comportamentos é algo considerado social, apreendido socialmente, logo, a educação séria a peça chave para os métodos de mudança. A jovem acredita que a história precisa ser recontada, reescrita, para que possa ter um outro rumo de ver o mundo.

A militante conta que ouve e testemunha muitas expressões como perguntar se seu cabelo é uma peruca, quando uma negra decide por autoafirmá-lo crespo, ou perguntar que técnica de ela faz para lavá-lo ou deixá-lo daquela forma - cacheado ou brilhante -, sem aceitar que não, é apenas um cabelo crespo solto e em evidência, não existe nenhuma técnica mirabolante, mas as pessoas não aceitam outro padrão de beleza que não seja o liso;

Dizer que cotistas são naturalmente inferiores, que eles rebaixam a produção acadêmica e aprendem mais devagar; Dizer que não é racista porque sua avó, tataravó ou sua própria mãe ou pai são negros. Ela acredita que o primeiro passo para que os próprios negros possam se defender é conhecer a sua própria história, pois, segundo ela, que não tem argumentos não tem como transformar ou modificar a realidade.

"É preciso primeiro que conheçamos, saibamos de onde viemos, quem eram nossos antepassados, quem foram nossos verdadeiros heróis, quem criou essas barreiras para que não pudéssemos ser e saber quem somos. Se tivéssemos a curiosidade de conhecer outras religiões que não apenas a católica, poderíamos nos defrontar com as religiões de matriz africana, que deixa homens e mulheres livres para serem o que quiserem, que não impedem o direito de você ser travesti e de ir assim ao seu terreiro, de circular normalmente como tal antes dos cultos sagrados, e nem impedem homens e mulheres de vestirem saia na hora desses cultos.

Mas o principal combate a ser feito tem que ser na nossa estrutura política e social, através da educação - que não significa apenas engolir conhecimento - e é o que mais tem falhado", pontuou.

Campanha combate naturalização da intolerância 

A Campanha "Opressão Não é Brincadeira", está sendo realizada através das redes sociais para combater a naturalização da opressão que justificada por meio das "brincadeiras". 

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A ideia do grupo que possui mais de 3 mil seguidores no Facebook, nasceu após uma foto que registrou uma frase em um bar, em Porto Alegre, RS, que dizia: "Assédio sexual só é crime quando o cara é feio". Muitas argumentações justificaram essa e outras frases a partir da brincadeira.

O grupo considera que a naturalização de práticas de racismo, machismo, homofobia, transfobia, lesbofobia, xenofobia, entre outras formas de opressão não se justificam e muito menos se amenizam pela "brincadeira". 

Os membros do movimentos pedem que os participantes que já foram vítimas de algum desses preconceitos, façam uma foto com a frase e publique em seu perfil com as #OpressãoNãoéBrincadeira #nãoJustifiqueSuaOpressão.

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Fotos: Luiz Fernando Gonzaga

Fonte: Waldelúcio Barbosa