Capoeira resgata a juventude de comunidade da zona Leste

Eles ensinam a capoeira, uma arte que é esporte, luta, dança.

Cambalhota (Maurício Primo), Batata (Fernanda Lustosa), Chucky (Nelson Lima) e Fênix (Fernanda Gil). Esses nomes não lembram nenhum anjo bíblico, mas para a comunidade do Bairro Satélite é como se os donos de tais alcunhas fossem anjos mesmo.

Pois são essas quatro pessoas que constroem um belo exemplo de cidadania no bairro da zona Leste de Teresina. Eles ensinam a capoeira, uma arte que é esporte, luta, dança e música. Tudo ao mesmo tempo.

O esporte de matriz africana que foi difundido no Brasil ainda no período da escravidão é muito mais que apenas lazer para as crianças e adolescentes - cerca de 60 - que frequentam as aulas, que acontecem sempre nas tardes de quarta, sábado e domingo.

A capoeira, neste caso, mais do que nunca, é um instrumento de transformação social, pois busca tirar jovens da ociosidade, que, quando excessiva, é maléfica para a formação de todo cidadão.

Image title

Principalmente quando este pequeno cidadão mora em um dos bairros mais perigosos de Teresina para jovens. O Satélite, pelo segundo ano consecutivo, figura o segundo lugar do Mapa da Violência identificado pelo IV Conselho Tutelar durante o ano de 2014.

Os dados também apontam que, em todo o município, os índices de violência relacionados à infância cresceram 60% nos 77 bairros analisados.

Diante deste panorama preocupante, Maurício Primo, o Cambalhota, resolveu tomar para si o desafio de tirar as crianças desta triste situação. “Quando vimos esse tanto de crianças sem fazer nada nesta praça, pensamos logo assim: ‘se não fizermos nada, quem vai fazer é o traficante’.

Não foi uma escolha, foi uma imposição do destino. A capoeira é baseada na liberdade e na socialização, exatamente o que essas crianças precisam, mas em muitos casos elas não têm”.

Image title

A Fênix, que faz a juventude renascer das cinzas

Com ajuda dos outros companheiros, Cambalhota começou a ministrar aulas com poucas crianças, dando como lição de casa que trouxessem mais um colega para integrar as aulas.

Nisso o grupo foi crescendo, e hoje é uma meninada animada que encanta a Praça do Satélite. As pessoas param para ver os saltos dados por eles, e também para desfrutar do som do berimbau e do atabaque.

"A ideia foi do Cambalhota. Nós estávamos procurando um local para fazer um treino aqui perto e percebemos que aqui tinha muitas crianças ociosas. E como aqui é perto de bares e outros locais, achamos que deveríamos convidá- los para participar dos treinos.

Quando nos demos conta da empolgação, perguntamos: 'e aí, vamos continuar?', eles disseram sim e começamos com cinco meninos. Depois passamos como lição de casa que eles chamassem, cada um, um colega. Aí começamos a trabalhar com 30, mas agora já estamos com cerca de 60 crianças", afirma Fernanda Gil, a Fênix.

A moça, que leva como apelido o nome do animal mitológico que renasce das cinzas, afirma que o que tem renascido mesmo é a infância dessas crianças através do esporte.

"Moramos aqui perto e sabemos que os índices de criminalidade daqui são muito altos. Você passa por aqui e percebe que as crianças acabam encontrando tudo o que não presta na rua", complementa.

Image title

O resgate do brincar na infância também é uma preocupação do grupo. "A gente quer resgatar essas crianças. Tem criança que não saía de casa porque não tinha para onde ir, e os pais não deixavam com medo da insegurança.

As mães viram a capoeira como uma oportunidade de colocar os filhos para brincar. Também é uma forma de revitalizarmos esse espaço", aponta Fênix.

As famílias beneficiadas pelo projeto tocado por Cambalhota, Batata, Chucky e Fênix declaram amor pela capoeira e os anjos que não têm nomes de anjos. As mães - e avós também - sonham com um futuro de paz para seus descendentes, e sempre acompanham as atividades. “É muito bom ver que tem alguém olhando por nossas crianças, pelo benefício delas. A gente se sente muito bem com isso. É uma brincadeira que é esporte, e todo esporte é válido, ainda mais quando tiram os meninos da rua”, afirma mãe/avô Maria Helena Pinto.

A mãe/avó - “é que eu crio desde pequeno!”, diz - agradece o trabalho dos rapazes e moças que fazem a capoeira acontecer no Satélite, de graça e para todos. “Existem muitos grupos de esporte por aí, mas são caros. É para um povo seleto. Aqui é aberto para todo mundo, o que é melhor ainda”, diz dona Maria.

E as notas na escola depois da capoeira? O boletim de todo mundo está azulzinho. “Eu vejo o seu desempenho melohorando na escola, e o comportamento em casa também melhorou. Parece que quanto mais eles melhoram no esporte, mais melhoram nas outras coisas. É muito bom. Meu menino era muito agitado, e agora ele fica praticando, gastando energia, e as notas aumentam! Porque tem que ter nota boa para estar na capoeira”, brinca a mãe Daniele Teixeira.

E nada melhor que os próprios beneficiados do projeto para atestarem isso. Thallyson Carlos, de 11 anos, é um dos primeiros alunos da trupe de Cambalhota. “Quando eles chegaram aqui, em janeiro, eles me chamaram para participar e é muito bom fazer capoeira. A minha mãe também gostou, porque diz que agora estou melhor na escola e em casa”, confirma o estudante.

As dificuldades de quem olha para o futuro dos pequenos

As ações de Cambalhota, Chucky, Fênix e Batata não recebem qualquer tipo de auxílio financeiro de políticos, nem mesmo do poder público. “Não temos o apoio de ninguém grande. Da prefeitura ou do governo do estado, não precisa nem falar”, lamenta Maurício, o Cambalhota.

Mas não é por falta de apoio que as coisas não acontecem. Os moradores e comerciantes do bairro contribuem com o projeto. “Quem nos ajuda é Maria da quitanda, João da padaria, as mães e outras pessoas da comunidade que se sensibilizam com o nosso trabalho e contribuem para servimos um lanche depois da aula”, considera Cambalhota.

A comunidade alerta para a falta de locais propícios para o lazer no Satélite. “Eles estão precisando de um espaço, né? Seria melhor para eles poderem praticar o esporte com mais conforto, pois os meninos ficam com os pés cheios de bolhas de tanto praticar no cimento”, afirma Maria Helena.

Há dificuldades até no mais simples, como a indumentária adequada para a prática da capoeira. “Até a roupa nós não temos. Agora mesmo eu não tinha condição de pagar a roupa que eles precisam para poder praticar. Mas o professor deu um jeito e conseguiu”, diz a mãe-avó, com um sorriso sincero no rosto.

Capoeira é fruto da resistência negra

A capoeira é uma expressão multicultural brasileira, pois mistura esporte, artes marciais e sincretismo cultural, através das músicas e danças. Os historiadores se dividem quanto a origem da luta: se a capoeira nasceu no Brasil, a partir dos negros trazidos da África, ou se a prática apenas se aperfeiçoou por aqui.

A Roda de Capoeira foi registrada como bem cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2008. E mais recente, em 2014, a prática também recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Os apelidos - Cambalhota, Chucky, Fênix e Batata - também não são à toa. Ter uma alcunha diferente do próprio nome na capoeira é um costume que também vem do século XIX, pois os negros fugidos das senzalas precisavam ter apelidos para não serem reconhecidos por caçadores de escravos.
Ao contrário das lutas asiáticas e europeias, a capoeira prioriza golpes com as pernas - chutes e rasteiras -, através de movimentos ágeis em acrobacias no chão e entre saltos. É excelente para crianças, como as beneficiadas por Cambalhota e sua turma no bairro Satélite, pois contribui de forma positiva para o desenvolvimento psicomotor.

Outro grande diferencial da capoeira é a musicalidade. Os instrumentos mais utilizados são os de percussão, tendo como carro-chefe o berimbau, acompanhadas de cantos. As letras dos cantos referem-se justamente à resistência. No Bairro Satélite, os meninos, que não deixam de ser resistentes, cantam assim: “Dizem que ele dorme noite e dia, um pé na África e outro na Bahia. Sou eu, sou eu, sou eu. Sou eu, Maculelê, sou eu”.

Fonte: Virgínia Santos e Lucrécio Arrais