Catadores de Teresina se expõem a riscos para transformar o lixo em fonte de renda

De todo modo, o que pode ser reaproveitado acaba gerando renda para várias famílias em Teresina e ainda contribui para a diminuição da poluição ambiental

O trabalho no aterro sanitário de Teresina não é nada fácil, principalmente pela disposição de materiais ali presentes, de várias origens. São resíduos domésticos, comerciais, de serviços de saúde, da indústria de construção, e também resíduos sólidos retirados do esgoto, substâncias estas que podem gerar problemas à saúde de quem tem o contato direto.

Além do mau cheiro, a possibilidade de contaminação do solo e das águas subterrâneas faz com que estes sejam construídos em locais distantes das cidades.

A maior parte do lixo do aterro é formada por materiais não recicláveis. No entanto, como a coleta seletiva não ocorre plenamente, é comum encontrarmos plásticos, vidros, metais e papéis, materiais que podem ser reciclados e servem de fonte de renda para os catadores do aterro sanitário de Teresina, situado no Km-7 da BR-316, zona Sul da capital.

Dentre os trabalhadores avistados, próximo ao aterro sanitário, está Avânia Matos, 48 anos, que trabalha há cinco anos catando materiais. Ela revela não ter vergonha em dizer que trabalha no aterro sanitário e é este trabalho que a ajuda na renda de sua família.

“Eu não tenho vergonha do meu trabalho, sempre que me perguntam, eu digo que trabalho no aterro. Não tenho outro meio de ganhar a vida, por isso venho trabalhar aqui.

É daqui que eu pago minhas contas, conta de luz, compro meu gás, compro o que comer. Gosto do que faço e até já encontrei brinquedos para o meu neto, carrinho e bola em bom estado”, garante Avânia Matos, que consegue tirar R$ 120 reais por semana.

Maria da Cruz, 48 anos, está em seu primeiro ano de trabalho no aterro, confessa não ter vergonha de seu trabalho e, apesar do preconceito, considera o trabalho de catador como outra profissão qualquer.

“Estou com um ano que trabalho aqui. É minha única renda e gosto do que faço. De vez em quando dá para encontrar algumas coisinhas e levo para casa.

É um serviço como outro qualquer. Tem gente que entorta a cara quando a gente fala que trabalha aqui, parece que tem nojo da gente. Mas não tenho vergonha do que faço”, confirma Maria da Cruz.

Aos 19 anos, catador diz não ter expectativa para o futuro

No aterro sanitário, foi possível avistar colhendo ferro para uma sucata um jovem franzino de apenas 19 anos, no início, intimidado com a presença da equipe.

Mas, aos poucos, nos acolheu e contou um pouco sobre sua vida. De nome Natanael da Silva, conta que tem dificuldades em estudar e até mesmo em frequentar o trabalho, devido à violência do bairro onde mora, no Promorar.

"Com os atritos de gangues que têm no bairro em que moro, a gente acaba desistindo aos poucos da escola. Me sinto ameaçado, ao ponto de sofrer perseguição até onde trabalho.

Só pelo fato de morar lá. Faço o 8º ano, as disciplinas que mais gosto são Ciências e Geografia", revela o jovem, que confessa ter muita dificuldade em aprender Matemática.

Natanael da Silva, durante a conversa, fez várias revelações, bem diferente de hábitos e preferências de jovens de sua mesma faixa etária, como não gostar de futebol, tecnologias como celulares e videogames e ainda nos revelou não ter expectativa quanto ao futuro.

"Não curto essas coisas de celular e videogame. Não pratico nenhum esporte, até porque não sei jogar futebol. Os caras que jogam não têm paciência por eu não saber. Negócio de bola é só para fazer raiva.

Mas já brinquei na escola, quando era menor, no Mais Educação", confessa Natanael da Silva, que costuma assistir a filmes apenas em DVDs e diz que seu preferido é "Carga Explosiva". Quando questionado sobre o que pretende fazer no futuro, diz:

"Rapaz, estou meio parado, mas o meu futuro é mesmo esse, só trabalhar e se aquietar", comenta o jovem, que ajuda na renda da família. (M.G.)

Do lixo ao luxo: materiais recicláveis se transformam em artigos de decoração

Trabalhar com materiais desprezados por todos, como sobras de alumínio, papelão, plástico e vidro não é um tarefa nada fácil.

Ainda mais se tratando de reciclar, a dificuldade multiplica, por somar a aquisição dos materiais com a criatividade e força de vontade dos artesãos. Esses profissionais, a cada dia, têm adquirido uma clientela fiel, por valorizarem objetivos já produzidos e sem agredir a natureza.

Como é o caso da artesã Diana Albuquerque, que começou com o crochê aos sete anos de idade. Hoje, monta peças de luxo feitas com cano PVC, madeira, pet, vidro e até calota de carro, e garante que consegue complementar a renda de sua família.

"Quando deixei de fazer o crochê, há 10 anos, devido a um problema no braço, comecei a trabalhar com garrafa pet.

Vi na casa da minha irmã um enfeite de Natal e comecei a fazer flor, borboleta, ímã de geladeira. Fui procurando materiais que eu pudesse agregar para dar mais valor ao produto final.

Em seguida, foi o PVC. Fui pesquisando, que máquina usar, e fui desenvolvendo meu trabalho. É minha única renda. Dá para complementar a renda daqui de casa, que divido com meu marido", relata a artesã.

A artesã, especialista em fazer luminárias com cano PVC, diz que se sente transformada ao reaproveitar um objeto, aparentemente, descartável, em outro objeto interessante.

"Fico muito feliz quando desenvolvo um objeto interessante, em cima de um material que ia para o lixo. Transformar também me transforma, me faz feliz. A criatividade vem só de olhar o material, sempre vem alguma coisa para se produzir.

Muitas pessoas vêm comprar os produtos, porque viram na internet, pela minha fanpage no Facebook. Hoje já tem 1.960 curtidas e tem dado um retorno. Minha filha é quem administra essa parte. A gente desenha e passa para eles", explica Diana Albuquerque.

A artesã Diana tem adquirido os materiais que precisa para a realização do seu trabalho, com o apoio da família e amigos que levam ao ateliê, além do próprio consumo da casa. (M.G.)





Fonte: Jornal Meio Norte