THE: Classe média começa a se interessar por andar de bicicleta

THE: Classe média começa a se interessar por andar de bicicleta

Buscando o máximo em sustentabilidade, economia e saúde, ciclistas teresinenses rompem as barreiras das classes sociais em suas bicicletas

De bicicleta e com a cabeça erguida

José Paulo Alves, educador físico e fisioterapeuta, levantou cedo na manhã de 23 de agosto de 2011, como fazia todos os dias. Às 5h30 já estava de pé, tomou café da manhã, arrumou o material que precisaria usar e partiu para o trabalho. Às 6h atendeu seu primeiro aluno, que ele orienta como personal trainer. Após a primeira aula, Zé Paulo se deslocava novamente para atender outro aluno, às 07h30.

No percurso, o personal trainer busca, sempre que possível, andar nas ruas com menor movimento, respeitando o sentido da via e as sinalizações do trânsito. Mas naquele dia, ao percorrer o primeiro cruzamento da principal avenida de Teresina, a Avenida Frei Serafim, Zé Paulo sofreu um acidente. Um ônibus, que trafegava na faixa do meio, fez uma manobra para entrar à direita e acertou o ciclista.

Situações como essa são cada vez mais comuns em Teresina. Na maioria dos casos os ciclistas são tratados como intrusos entre os veículos motorizados e seu espaço nas vias de circulação não é respeitado. A sorte do personal, foi que ele estava utilizando o capacete e as luvas e conseguiu se livrar rapidamente da bicicleta, que recebeu todo o impacto do ônibus. ?A única coisa que eu sofri foram algumas escoriações leves e um trauma no joelho?.

Zé Paulo conta que depois do acidente, a sua família e os amigos queriam que ele parasse de andar de bicicleta.

?Todos queriam que eu parasse, mas não dá para parar, a bicicleta é meu transporte?. Ele afirma que no trânsito da capital, percebe que os ciclistas são seres invisíveis. ?Os carros e principalmente as motos estão cada vez mais afoitos e não respeitam ninguém. Eu sempre ando nas vias corretas e não avanço os sinais, mas mesmo assim aconteceu uma acidente como esse, imagine se eu não tomasse cuidado?.

Se autodenominando ?cicloativista?, o historiador Aristides Oliveira, 26 anos, conta que em Teresina a reação das pessoas quando percebem que ele faz uso da bicicleta como único meio de transporte ainda é um misto de deboche e preconceito.

?As pessoas veem a bicicleta como algo estranho, como se fosse uma coisa fora do contexto. Eu já passei por situações de chegar num show e as pessoas rirem da minha cara, da cara dos meus amigos, porque a gente estava amarrando a bicicleta num poste enquanto as pessoas estacionavam os seus carros. Você acaba sendo marginalizado pelas próprias instituições que não dão espaço para a bicicleta. Mas nem por isso eu deixo de andar de bike?, ressalta.

Para Aristides, somente o fato de usar a bicicleta já é um posicionamento político. ?Eu assumo a bicicleta não apenas como opção, mas como posicionamento político. Não concordo com essa urbanização que está acontecendo. Com a bicicleta propomos uma outra possibilidade. Para mim o ciclismo também é isso. A bicicleta, aos poucos está começando a entrar no debate da política urbanística para ser uma saída, uma alternativa?, argumenta. O ciclista revela ainda que está há um ano e oito meses utilizando a bicicleta como seu único meio de transporte.

?Eu gastava cerca de R$ 120 por mês indo e voltando para os meus compromissos e meus destinos e sempre via o meu amigo Kim de bicicleta. No começo pensava mais na questão econômica. Comecei mais passeando, nos fins de semana e vi que não era assim uma coisa tão complicada. Vi que de um destino a outro eu chegava mais rápido, otimizava meu tempo, então comecei a utilizar a bicicleta para ir para todo lugar. É um absurdo essa política urbanística que a gente vive, a bicicleta fica de fora do processo e geralmente não tem seu espaço?, critica.

Transporte sustentável para todas as classes


Classe média começa a se interessar pela bicicleta que já é transporte fixos das classes C e D

Em seu livro, ?A distinção: crítica social do julgamento?, Pierre Bordieu sintetiza as pesquisas que desenvolveu ao longo dos anos de 1970 sobre o processo de diferenciação social. Para Bordieu, os julgamentos de gostos e de preferências não são o reflexo da estrutura social, mas sim um meio de afirmar ou de conformar uma vinculação social, com a função de legitimação das diferenças sociais.

Se a transmissão do capital cultural feita na escola e herdada pela família, são determinantes para a posição de alguém em relação ao mundo em que vive, o uso da bicicleta em Teresina caminha a passos firmes para um reconhecimento de transporte sustentável como gosto legítimo da classe alta, média e popular, sem distinções.

O sociólogo Fabiano Gontijo ressalta que, aparentemente, há dois usos mais comuns da bicicleta. ?Por um lado, aqueles que a utilizam como meio de transporte, geralmente por necessidade, logo, pessoas mais ?pobres?; por outro, aqueles que a utilizam como hobby, por esporte ou para se exercitar, logo, pessoas mais ?ricas??. Para o professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), é preciso incentivar o uso da bicicleta como estilo de vida.

?Esse tipo de ciclista é comum em alguns grandes centros urbanos, em particular no Rio de Janeiro, onde a extensão da ciclovia, inclusive em bairros periféricos, é ampla e onde se valoriza o uso da bicicleta como meio de locomoção, como forma de melhorar da saúde e como maneira de preservar o meio ambiente?, argumenta Gontijo.

A melhoria das condições de vida e o aumento salarial generalizado na última década levaram à facilitação da compra de automóveis, o que está gerando um aumento do número de acidentes de trânsito e a extensão dos problemas ligados ao trânsito em geral, como engarrafamentos e a liberação de gases poluentes.

Em uma sociedade moderna, que não para de consumir veículos cada vez maiores e que utilizam mais combustíveis fósseis, ter carro é um sinal de status. Fabiano ressalta que o status está ligado a valores culturais e, enquanto a cultura não for modificada, os preconceitos permanecerão. ?Ainda se valoriza muito o carro do ano, grande, como forma de marcar status diferenciado?, frisa.

Ele conta que, na UFPI, por exemplo, raros são os espaços apropriados para o estacionamento de bicicletas. ?No Centro de Ciências Humanas e Letras (CCHL), só me lembro de dois professores que vinham de bicicleta e eram obrigados a deixarem-nas em suas salas ou gabinetes por falta de local adequado. Quanto aos alunos, pouquíssimos, no CCHL, vêm de bicicleta, e raros funcionários - geralmente os da área de limpeza, terceirizados, logo, mais pobres - usam esse veículo?.

Falta de investimento em ciclovias é preconceito


Classe média começa a se interessar pela bicicleta que já é transporte fixos das classes C e D

Gontijo recorda de uma grande greve dos transportes públicos em Paris, na década de 90, quando morava na França.

Ele diz que as pessoas começaram a perceber que se fossem menos egoístas e dividissem seus carros com seus vizinhos que trabalham em locais próximos dos seus, isso solucionaria um pouco do problema do trânsito e, no caso, da falta de transporte público.

Por outro lado, a prefeitura começou uma grande campanha de incentivo ao uso de bicicleta para minimizar a dependência das pessoas em relação ao transporte público automotivo. ?Isso acabou com grande parte dos engarrafamentos da cidade. Aqui pertinho, em Bogotá, a abertura de ciclovias e o incentivo ao uso de bicicleta solucionou também grande parte dos problemas de trânsito e, sobretudo, de poluição?, conta.

O músico e ativista ambiental David Byrne, ex-vocalista dos Talking Heads, lançou no ano passado o livro ?Diários de bicicleta?, onde narra as suas impressões de várias cidades do mundo por onde passou utilizando a bicicleta como principal meio de transporte. No livro ele aponta que na maioria das cidades que em esteve, mesmo naquelas mais receptivas às bicicletas (cidades mais planas e com climas mais amenos), ele era um dos poucos a utilizar a bicicleta para se locomover.

Byrne ressaltou que na maioria das vezes quem também pedalava eram apenas as pessoas muito pobres ou os que tinham perdido tudo e não tinham condições de comprar um carro. A barreira do preconceito, no entanto, está sendo rompida, acredita o sociólogo.

?Viajo muito e posso dizer que tenho visto cada vez - principalmente fora do Brasil - a bicicleta sendo usada por pessoas de classes muito díspares, inclusive como meio de transporte. Durante meus estudos universitários, numa cidade do sul da França, me lembro de alguns professores que usavam bicicleta para irem para a universidade?, pontua.

Fabiano Gontijo acredita que a pouca importância dada pelos poderes públicos a esse tipo de transporte, como a falta de investimento em ciclovias ou a sinalização de trânsito para o ciclista, também caracteriza um tipo de preconceito, uma vez que carros, motos e caminhões têm prioridade nas campanhas e sinalizações de trânsito, em detrimento dos pedestres e ciclistas. ?É preciso mudar os hábitos e, para tanto, deve-se mexer na cultura, fazendo da bicicleta um estilo de vida?, reitera.

Fonte: Sávia Barreto, Jornal Meio Norte