Colegas de turma fazem homenagens ao garoto de 10 anos, piauiense, que foi morto no Rio de Janeiro

Outro pede “volta, Dudu”. Há frases de protesto, como “queremos paz no Alemão” e “criança tem que viver”.

Huani quer ser advogada. Hector deseja ser pintor. Milena se vê como estilista. Tauã, que não tem medo de altura, sonha em criar asas nas costas e sair voando como um pássaro. Também estão ali, sentados no chão do pátio, Wendell, Karolyne, Raiane, Daniele, Jean, Wellen, David, Andressa, Mateus, Kaiane, Luiz Felipe, Marcele, Ayrton, Lucas, João Vítor. Quase todos com 10 anos, mesma idade de Eduardo de Jesus Ferreira, que queria ser bombeiro, mas nunca mais voltará à escola. Com papel, canetas, lápis de cor, tesouras e lágrimas, eles criavam desenhos, colagens e poemas em homenagem ao amigo.

A segunda-feira foi dia de luto no Ciep Maestro Francisco Mignone, fundado há 22 anos na Rua Itapé, em Olaria. Especialmente para a turma 1.501, do 5º ano. Era a primeira aula sem Eduardo. Quando entraram na sala 14, no terceiro andar do prédio, os alunos sentiram o peso da ausência de Dudu, como era conhecido na escola onde estudou a vida toda. Eles pararam ao redor da carteira vazia, com o nome do menino escrito na madeira, e puseram sobre ela os pertences do amigo. A professora Bianca Dantas sugeriu uma oração. De mãos dadas, pareciam pequenos anjos pedindo a Deus que cuidasse de Eduardo "onde quer que ele esteja".

A trágica morte da criança no Complexo do Alemão fez chorar o Rio de Janeiro. Mas ninguém sofre tanto quanto seus amiguinhos. Eles estiveram juntos pela última vez na quarta-feira passada, véspera da tragédia, quando a professora levou pirulitos de chocolate feitos por ela mesma para distribuir na turma. Pediu ajuda a Eduardo, um dos alunos mais aplicados no turno integral do Ciep.

— Ele só comeu o chocolate dele após dar os dos amigos. Eduardo é esse tipo de criança: está sempre querendo agradar aos professores. Esse brinco foi ele quem me deu de presente há poucos meses — contou Bianca, apontando o par de cisnes em suas orelhas e referindo-se a Dudu sempre no presente, como se ainda estivesse vivo.

Mais do que professora, Bianca era amiga de Eduardo e sua família. Nos fins de semana, não raro falava com o garoto por WhatsApp. Ela foi a primeira da escola a saber da morte. Minutos após o menino ser atingido por uma bala de fuzil na cabeça, Terezinha Maria de Jesus, sua mãe, telefonou desesperada para a professora. As palavras da mãe e a imagem do rosto do menino não saem de sua cabeça.

REDAÇÃO INCOMPLETA

Todas as 370 crianças do Ciep quiseram homenagear Eduardo, mesmo aquelas que o conheciam pouco. Os trabalhos estão espalhados pelas paredes do colégio. Muita coisa bela foi feita nesta segunda-feira. Um cartaz diz “nunca vamos te esquecer”. Outro pede “volta, Dudu”. Há frases de protesto, como “queremos paz no Alemão” e “criança tem que viver”.

Colegas conversavam sobre Dudu nos corredores. Alguém lembrou que, quando havia tiroteio na Vila Cruzeiro — vê-se a favela das janelas do Ciep, logo ao lado —, ele era o primeiro a chegar ao corredor central da escola, onde todos se escondem. Sempre teve medo de tiro.

Entre os pertences que Eduardo deixou no Ciep — a família o enterrou, nesta segunda-feira, no Piauí e não teve tempo de buscar os objetos —, uma pequena mochila e alguns cadernos. A letra miúda corria “de mãos dadas" sobre as linhas de cada página. Na última aula de redação, em 30 de março, ele começou a escrever “O segredo da gravata mágica”.

Diz o texto, cheio de rima: “Era uma vez um costureiro francês que não tinha freguês já fazia um mês. Ele quase foi à falência porque suas roupas tinham um defeito. Até que um dia o rei foi em sua loja e pediu para ele fazer uma gravata borboleta”. A redação acaba de repente. Como sua infância.



Fonte: Globo