Confira cinco temas para treinar a redação do Enem 2014 e fazer bonito nas provas

A redação do Enem difere das provas de outros vestibulares porque cobra explicitamente uma "intervenção"


A redação do Enem difere das provas de outros vestibulares porque cobra explicitamente uma "intervenção". Em outras palavras, os examinadores querem que o participante apresente uma solução inovadora ao problema apresentado.

"Os temas propostos para redação no Enem sempre têm caráter social", diz Francisco Platão Savioli, supervisor de português do Anglo Vestibulares. “Na maioria das vezes, o Enem propõe um tema que aborda a relação do homem com a sociedade, com o meio biofísico ou consigo mesmo, sendo o último menos recorrente."

Alguns professores apresentam cinco temas que servem como preparação para a prova marcada para os dias 8 e 9 de novembro. Confira as orientações e boa preparação!

Crise hídrica

Segundo agências das Nações Unidas, cerca de 1,8 bilhão de pessoas em todo o mundo vão ficar sem água até 2025. Atualmente, o problema já afeta mais de 1 bilhão, castigando especialmente regiões do Oriente Médio e do norte da África. O Brasil possui 16% das reservas de água doce do planeta e também o maior aquífero subterrâneo do mundo. Contudo, não está livre do problema. A região da Grande São Paulo, por exemplo, enfrenta neste ano a mais severa crise hídrica já registrada, fruto da escassez de chuvas. O Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de 6,5 milhões de habitantes da região, vem perdendo capacidade dia a dia. O complexo de represas já atingiu seu pior nível em toda histórica, por volta dos 5% da capacidade. Desde fevereiro, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) tem adotado ações para reduzir a retirada de água dos reservatórios. É o caso do desconto na conta para residências que reduzam o consumo, o remanejo dos recursos hídricos de outros sistemas e a redução da pressão da água no fornecimento noturno. Além disso, a companhia passou a utilizar a água do chamado "volume morto", reserva que fica abaixo das comportas da Sabesp e que antes não era utilizado. Quem vai participar do Enem deve estar atento a alguns conhecimentos adquiridos no ensino médio relacionados ao assunto.

"É o caso de conceitos geográficos como clima, índice pluviométrico e relevo, que podem enriquecer a discussão da questão da crise hídrica", diz Sérgio Paganim, professor de redação, gramática e língua portuguesa do Anglo Vestibulares. "Outras informações ligadas ao gerenciamento dos recursos hídricos, como investimentos no sistema, também são úteis para reflexão e elaboração da redação."

Protestos atuais no Brasil

Os protestos populares têm um papel relevante na história do Brasil. "Eles expressam reações a determinadas situações e muitas vezes funcionaram como catalisadores das aspirações da sociedade, pressionando os governos por mudanças", diz Díran Ferreira, professor de língua portuguesa e redação do Cursinho da Poli. "Nos últimos 30 anos, em especial, ocorreram mobilizações importantes. É preciso observar que elas foram ao mesmo tempo motor e fruto da conscientização política da população.

" Segundo o professor, o foco da redação pode ser os protestos atuais, caso das manifestações de junho, ocorridas em 2013. O estopim para o movimento foi o aumento de passagens de transporte público em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, mas os protestos se espalharam por várias cidades brasileiras. Ganharam também novas bandeiras, como a exigência de melhoria dos serviços públicos e de reformas políticas. Durante os protestos de junho, uma pesquisa de opinião pública revelou que 55% dos paulistanos eram favoráveis aos protestos contra o reajuste de tarifas. Na carona nos protestos, surgiram também os chamados black blocks, grupos de encapuzados que se aproveitavam das manifestações para promover atos de vandalismo e agressões. Neste caso, não se trata propriamente de manifestantes, mas de grupos de criminosos.

A mesma pesquisa de opinião que revelou a aprovação dos paulistanos aos protestos mostrou que os moradores rejeitavam o uso da violência: 78% dos entrevistados afirmaram que manifestantes foram mais violentos do que deveriam. "A atuação das polícias, que em alguns casos também cometeram atos violentos, é outro assunto para reflexão", diz Ferreira. Os protestos populares têm um papel relevante na história do Brasil. "Eles expressam reações a determinadas situações e muitas vezes funcionaram como catalisadores das aspirações da sociedade, pressionando os governos por mudanças", diz Díran Ferreira, professor de língua portuguesa e redação do Cursinho da Poli. "Nos últimos 30 anos, em especial, ocorreram mobilizações importantes. É preciso observar que elas foram ao mesmo tempo motor e fruto da conscientização política da população." Segundo o professor, o foco da redação pode ser os protestos atuais, caso das manifestações de junho, ocorridas em 2013.

O estopim para o movimento foi o aumento de passagens de transporte público em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, mas os protestos se espalharam por várias cidades brasileiras. Ganharam também novas bandeiras, como a exigência de melhoria dos serviços públicos e de reformas políticas. Durante os protestos de junho, uma pesquisa de opinião pública revelou que 55% dos paulistanos eram favoráveis aos protestos contra o reajuste de tarifas.

Racismo e homofobia

Preconceito e violência contra grupos da população, além de direitos desses mesmos grupos, têm sido temas recorrentes do debate nacional — e também no exterior. Demonstrações de racismo foram recentemente revividas em estádios de futebol. Uma delas aconteceu no exterior. Em partida pelo Barcelona, na Espanha, um torcedor atirou uma banana na direção do brasileiro Daniel Alves: em um lance de espírito, o lateral abaixou-se, pegou a fruta, descascou-a e comeu. Em seguida, cobrou um escanteio. Uma resposta e tanto. Em episódio mais recente, Santos e Grêmio disputavam partida pela Copa do Brasil quando torcedores tricolores passaram a ofender o goleiro santista Aranha. Uma delas foi flagrada pela TV gritando: "Macaco". O jogador se queixou, e a torcedora foi indiciada por injúria racial — crime previsto em lei. Para refletir sobre o assunto, vale é claro recorrer à história. Durante séculos, os negro foram trazidos da África e inseridos no ambiente brasileiro como escravos. Tratados como mercadoria, só ganharam o status de cidadãos com a assinatura da lei Áurea, no fim do século XIX.

A herança da escravidão, contudo, permanece. "Uma informação que pode enriquecer o debate sobre o assunto é lembrar dos dados demográficos do Brasil, que mostram que a população negra e afrodescendente é majoritária no país”, diz Sérgio Paganim, professor de gramática, texto e redação do Anglo Vestibulares. Os negros não são o único alvo do preconceito e da violência — física ou verbal. Entre 2011 e 2012, foi registrado um crescimento de 183% no número de registro de vítimas de violência por homofobia. Os números foram divulgados no Relatório sobre Violência Homofóbica.

A sociedade tenta agora dar um encaminhamento legal à situação. Em 2012, a comissão de juristas do Senado responsável por elaborar um novo Código Penal apresentou um projeto de lei para transformar a homofobia em crime. O PLC 122 está parado na Comissão de Direitos Humanos do Senado. "Nessa discussão, o candidato pode propor ações sociais que ajudem no convívio das pessoas e melhorem a conscientização de que somos todos iguais", diz Díran Ferreira, professor de língua portuguesa e redação do Cursinho da Poli.

Justiçamento

O princípio segundo o qual cada crime merece uma punição de igual intensidade surgiu na Antiguidade. Segundo historiadores, o Código de Hamurabi, consolidado na Babilônia por volta de 1780 a.C., já apresentava a ideia consagrada como lei de talião: "Olho por olho, dente por dente". Em tese, o princípio pretende estabelecer que penas aplicadas a condenados não devem ser desproporcionais a seus crimes. Há, contudo, outra forma de ler a lei: a de que toda falta deve ser imediatamente punida, sendo a pena aplicada pelas mãos das próprias vítimas. A discussão sobre o "olho por olho, dente por dente" voltou à tona recentemente no Brasil. Multiplicaram-se pelos país os casos em que a população resolveu fazer justiça com as próprias mãos, sobrepondo-se à Justiça — às leis e às autoridades incumbidas de estabeler penas aos réus e reparação às vítimas. Uma pesquisa do Núcleo de Estudos da Violência da USP mostrou que, em 26 anos, o Brasil registrou 1.179 casos de linchamentos. Os casos talvez mais emblemáticos e chocantes desse fenômeno foram registrados no Rio e no Guarujá, no litoral de São Paulo. No Rio, um jovem de 17 anos acusado de roubo foi preso nu, pelo pescoço, a um poste: seus algozes usaram uma tranca de bicicleta para isso. No Guarujá, uma dona de casa de 33 anos foi espancada até a morte depois que circularam boatos de que ela estaria envolvida no desaparecimento de crianças. O espancamento foi gravado: vê-se na cena homens, mulheres e até crianças assistindo à selvageria — e até participando dela. Entre as possíveis razões para o fenômeno está o do abandono de parcelas da população à própria sorte. Em outras palavras, a ausência do Estado. Os casos refletem o descontentamento e a descrença da população na Justiça e no Estado. Significam um retrocesso e negam conquistas básicas da civilização.

Consolidação da democracia no Brasil

O atual período democrático vivido pelo Brasil teve início há menos de 30 anos. Após 21 anos de regime militar (1964-1985), o país reestabeleceu um governo civil, em 1985, e só em 1989 voltou a realizar eleições diretas para Presidente. Em comparação com regimes mais antigos, como o americano, por exemplo, que se estabeleceu no final do século XVIII, pode-se dizer que somos uma democracia em consolidação. Desde a redemocratização, contudo, o Brasil tem dados passos importantes nesse sentido.

Em 1988, promulgou sua nova Constituição, que estabeleceu direitos plenos ao cidadão. Em 1992, um presidente (Fernando Collor) sofre um processo de impeachment, que resultou em sua saída do governo. Tudo correu na mais perfeita ordem, sem tentativas de golpe de Estado ou qualquer interrupção da ordem democrática. O processo do mensalão, encerrado no fim de 2013, mostrou por sua vez a autonomia do Poder Judiciário. Na Corte do Supremo Tribunal Federal, mais alto tribunal do país, foram condenados, por desvio de recursos públicos e compra de apoio parlamentar, lideranças políticas ligadas ao partido que está no poder.

Novamente, não houve qualquer disbúrbio à ordem legal e o Brasil seguir trabalhando no dia seguinte às condenações. No Congresso, igualmente, segue a normalidade institucional. "O Enem pode tratar do tema da consolidação da democracia brasileira, abordando questões como a importãncia desse processo e a a relação dos cidadãos com o governo e as instituições", diz Díran Ferreira, professor de língua portuguesa e redação do Cursinho da Poli. Em fevereiro de 2014, o Datafolha realizou uma pesquisa de opinião para saber a avaliação dos brasileiros sobre democracia e regime militar. Segundo a pesquisa, 62% dos brasileiros acreditam que a democracia é a melhor forma de governo. Mas a população é crítica quanto a seu funcionamento: 59% se disseram pouco satisfeitos, 28% insatisfeitos e apenas 9% muito satisfeitos. O restante não respondeu. “Entre as abordagens possíveis para a prova de redação está a reflexão sobre as maneiras pelas quais a sociedade pode exercer seu poder e participar da vida política do país", diz Ferreira. Reflexões pertinentes são temas como a reforma política, que veio à tona no ano passado, em meio aos protestos de junho.

Fonte: Veja