Conviver com viciados em drogas é algo que muitos piauienses sabem como é

Conviver com viciados em drogas é algo que muitos piauienses sabem como é

Conviver com uma das drogas mais devastadoras da história é algo que muitos piauienses sabem como é.

Maus elementos, vagabundos e marginais. Apenas alguns dos vários adjetivos empregados aos moradores de rua que, vítimas das voltas da vida, embarcam no mundo das drogas e vivem nas ruas. João (nome fictício) tinha tudo em suas mãos: veio de família estruturada, teve educação de qualidade e gozava o melhor que vida tinha a oferecer.

Aos quatorze anos de idade era um dos melhores alunos de sua turma. Aos vinte e nove anos de idade ele oferece seus serviços de limpador de vidros por alguns trocados. O suficiente para alimentar o vício em crack.

Ouvir os relatos da nova realidade de João causa choque e estranhamento. Afinal de contas, como uma pessoa que tinha o mundo nas mãos embarcou em um caminho sem volta de destruição? Por que ele não saiu dessa enquanto tinha a oportunidade? Por que a degradação que causara a sua família não foi suficiente para fazê-lo abandonar o vício? Perguntas que encontram respostas em uma pedra de crack, substância que ele consome diariamente pelos últimos doze anos.

?Como todo jovem de classe média, tive o primeiro contato com drogas através do álcool e do cigarro. Eu e os colegas da rua comprávamos um litro de Montilla e uma carteira de cigarro. O hábito de ?tomar umas? depois do colégio virou regra e antes de me dar conta eu faltava aula para beber. O contato com o loló, lança-perfume e maconha foi consequência do meu comportamento, mas eu achava que tinha tudo sob controle?, fala.

O sabor da libertinagem tirou João dos trilhos. Ele abandonou o colégio e colocou a família em desgraça. Ele se recusou a procurar emprego enquanto os pais começaram a cobrar atitudes concretas do rapaz. Enquanto isso ele decidiu que furtar pequenos objetos de casa era tudo o que precisava para ser feliz. Foi quando entrou em contato com o crack e o que não estava bom ficou ainda pior.

Nesta mesma época a mãe de João foi detectada com câncer e o sofrimento foi dosado com mais drogas. ?Foi quando eu saí de casa para poder fumar ?pedra? em paz, sem a interferência deles. Arranjei uma namorada, engravidei e morávamos de qualquer jeito onde fosse possível. Aí mamãe piorou e decidi voltar para casa?, relembra.

A gravidade da doença e a degradação causada pelo mau comportamento do filho foram catalizadores da doença da mãe, que não encontrou forças para lutar conta o câncer e logo veio a falecer. João não suportou o fardo de ter sido o grande responsável pela morte da mãe e decidiu sair definitivamente de casa. Hoje mora nas ruas e vive em função da droga. O futuro de médico, advogado ou engenheiro se reduziu à luta diária de conseguir dinheiro para sustentar o vício.

Conhecendo o universo da droga

Imaginar a vida de João e julgá-la com preconceito pode ser fácil, mas quem o faz não tem ideia do sacrifício diário a que ele se submete. O acordar é realizado nas primeiras horas do dia e logo bate a ?fissura?: desejo incontrolável de consumir a droga após um curto período de abstinência. Assim que o tráfego de veículos sonoriza a avenida Miguel Rosa, sua residência atual, ele inicia o horário de trabalho.

As primeiras horas nunca são fáceis, mas ele tem a sorte de encontrar duas amigas que, assim como ele, fazem o que pode para sustentar o vício. A primeira dose do dia é administrada em qualquer lugar e sem o menor pudor.

O cenário urbano é transformado em um ambiente de relaxamento e prazer causado pela droga. A fome desaparece como um truque de mágica, os odores provocados pela falta de asseio não existem e a preocupação do que os outros irão pensar nunca foi colocada em cheque por nenhum deles. Fazem o uso da droga a céu aberto e aproveitam o torpor do crack até o último instante.

O fim da ?lombra? (sensação de ?barato? provocada pela droga) é um baque a ser enfrentado. A necessidade de ?fumar a pedra? é cada vez maior e o labor não está surtindo resultados. O desespero por algum trocado obriga João a borrifar água compulsivamente em parabrisas de carros, mesmo que os motoristas demonstrem não estar interessados.

João não consegue nenhuma moeda e começa a entrar em desespero. O hábito de batalhar honestamente para sustentar o vício vai embora e ele se vê obrigado a fazer o que for preciso para conseguir a próxima pedra de crack: roubar.

Roubo e prostituição são costume na vida de viciados

João teve uma educação de qualidade e reconhece a gravidade de roubar uma pessoa inocente para sustentar o vício. Uma de suas amigas, Maria*, cresceu nas ruas e desconhece o peso disso. Enquanto João vaga pelas ruas a procura de uma presa fácil, Maria não dispõe da força física para assaltar e sustenta o vício com o que pode: o corpo.

A prostituição funciona para Maria como uma troca de favores. Homens desconhecidos usam o corpo dela, enquanto ela consegue o que quer. Maria não se deita com quem pagar mais, e sim com quem pagar primeiro. Um programa custa R$ 5, mas pode custar R$ 3 ou até menos. E na cabeça de Maria, ela sai ganhando a negociação. ?Eu consigo o que quero e isso é o que importa?, declara.

A opção de Maria parece ter sido feita baseando-se no caminho mais fácil. Mas Maria vem de um lugar onde pessoas bem sucedidas conquistaram o topo roubando, matando e fazendo o que fosse necessário para conseguir seus objetivos e é isso que Maria faz diariamente. Ela se sente feliz.

*Os nomes utilizados na matéria são fictícios.

Fonte: Olegário Borges