Deficiente visual reclama das adaptações para realização de provas do Enem

Deficiente visual reclama das adaptações para realização de provas do Enem

Mesmo com recursos específicos e o tempo extra que é oferecido, muitas pessoas com deficiência ainda sentem dificuldades na hora da realização das provas

Dos mais de 8,7 milhões de pessoas que farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2014, 76.676 candidatos solicitaram atendimento especializado e outros 92.972, atendimento específico, o que totaliza 169.648 estudantes . Tanto o atendimento especializado quanto o específico dão condições para que o candidato que seja ou esteja impossibilitado de realizar as provas normalmente torne-se apto a concorrer com os demais participantes.

No atendimento especializado que é oferecido aos participantes com algum tipo de deficiência ou dificuldade de aprendizagem, como cegueira, deficiência física, dislexia, déficit de atenção, autismo, foram oferecidos 14 modalidades de adaptação, sendo as mais solicitadas, a sala de mais fácil acesso com 15.15 pedidos, auxílio de ledor com 5.739, auxílio para transcrição 6.328 e leitura labial com 1.441 entre outros.

Mesmo com esses recursos, além do tempo extra que é oferecido, muitas pessoas com deficiência ainda sentem dificuldades na hora da realização das provas. A diretora do Centro de Habilitação e Reabilitação para Cegos (CHARCE), Maria Luiza Mendes, explica que para o deficiente visual esses recursos utilizados fazem pouca diferença, pois o Ledor que é a pessoa responsável por ler toda a prova para o candidato muitas vezes não possuem tanta habilidade com a leitura, cansa-se ou mesmo não possui uma dicção tão boa. “No recurso de ledor há uma série de problemas que nos impossibilita de concorrer com os demais.

Muitas vezes, em questões de português o sotaque da pessoa atrapalha, o que acaba nos confundindo ao responder a questão certa. Outro problema é o tempo gasto para ler pergunta por pergunta e como a prova do Enem é extensa, o tempo gasto é muito maior e não dá para responder todas as questões”, revela.

Outro recurso também utilizado é prova em braile, mas segundo a diretora, a conversão do Exame na ortografia dos cegos deixa o deficiente sem agilidade para responder as questões rapidamente, por conta do tamanho e a quantidade de páginas utilizadas. “Para se ter uma ideia, eu tenho um evangelho da bíblia em braile, somente essa passagem convertida em braile tem centenas de páginas. Qual o tamanho de uma prova com 90 questões vai ser?

Perde-se muito tempo desse jeito. Eu mesma já fiz um concurso e solicitei a prova em braile e me arrependi, terminou o horário de realização da prova e eu ainda estava longe de terminar”, reclama Maria Luiza.

O ideal seria que o deficiente visual tivesse a prova em áudio e com ajuda de um dispositivo para voltar e avançar as questões de acordo com o entendimento do candidato. Segundo a vice-diretora do centro, Noelia Rodrigues, o Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (CESPE), órgão que integra a Fundação Universidade de Brasília, tem um projeto para inserir esse dispositivo nas provas. “Com a inserção desse recurso seria muito mais funcional para os deficientes visuais fazerem as provas com mais rapidez e agilidade. Uma voz padrão com o sotaque neutro e de boa fala facilita na hora do candidato entender a questão, fora que eles poderão voltar nas perguntas a toda hora sem que haja um cansaço do ledor”, declara.

Atendimento específico inclui vários grupos

O atendimento específico será oferecido a gestantes, lactantes, idosos e estudantes em classe hospitalar. Estão aí incluídos ainda os 62.396 sabatistas, que por convicção religiosa guardam os sábados. As lactantes representam 13.882 participantes, já as gestantes somam 9.256.

Para as provas do primeiro dia, o participante que guarda os sábados deve chegar ao local do exame no mesmo horário de todos os participantes (entre 12 e 13 horas) e aguardar em sala específica até as 19h. No caso dos sabatistas do Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima a prova será realizada a partir das 19 horas locais (18 horas em Brasília).

Para atender as estudantes grávidas o Inep notificou os municípios onde cada uma faria o Enem para mapear hospitais próximos do local de provas, além de pedir o apoio de profissionais de saúde no local. Em alguns locais de prova, as gestantes receberão ainda apoios para as pernas e mesas e cadeiras sem braço.

Prova de Matemática também é um obstáculo

Cerca de nove estudantes que recebem orientação complementar no Centro de Habilitação e Reabilitação para Cegos farão a prova do Enem nos dias 8 e 9 de novembro. Esses alunos estão matriculados em escolas regulares durante a manhã ou à tarde e em outro livre recebem orientações complementares individualmente no centro com a ajuda de professores. As orientações são um apoio do que foi visto em sala de aula para potencializar e fixar o que aprenderam.

O estudante Welson Costa conta que está se preparando para o Enem e que recebe apoio do CHARCE para estudar.

“Tenho me esforçado todos os dias para conseguir uma boa pontuação, tanto na escola, quanto em casa e no centro.

Nós recebemos muito apoio aqui, principalmente dos professores que nos ajudam nos atendimentos individuais. Na minha inscrição do Enem eu solicitei o auxílio do ledor, espero que ocorra tudo bem, quero fazer Geografia no próximo ano”, revela o jovem.

Para o estudante José de Jesus a dificuldade é maior. Segundo ele, é quase impossível uma pessoa fazer uma questão de Matemática envolvendo gráficos somente com o auxílio de um ledor, que muitas vezes não sabe ler um gráfico corretamente. “Essa é a segunda vez que faço o Enem, acredito que não tive êxito na outra vez por conta da dificuldade de se fazer uma prova com uma pessoa lendo para você. Matemática já é complicada imagine você não saber o que está no gráfico, não tem como fazer. Outra coisa são as pontuações nos textos que o ledor pula e que faz diferença na hora de responder”, explica.

José ainda afirma que o Inep não orienta corretamente os ledores, geralmente são estudantes das universidades que não possuem nenhuma experiência em ler para um cego. Para o estudante, o ideal seria contratar os profissionais que trabalham com os deficientes visuais, como no CHARCE, que sabem ler e fazer com que a questão seja compreendida por quem está escutando.Prova de Matemática também é um obstáculo

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Fonte: Rhauan Macedo