Diagnósticos de câncer de mama precisam ser melhorados no Estado

Os níveis de risco de ocorrência de câncer na análise das mamas nem sempre mostram a realidade.

Hoje, a maior parte das mulheres parece não ter dúvidas da importância da prevenção adequada para minorar os riscos da ocorrência do câncer de mama.

Neste contexto, a procura pelos exames preventivos é grande, as campanhas informativas sobre o assunto multiplicam-se e os próprios tratamentos também evoluem.

Mas ainda há muito a ser feito. Provas disso são dois estudos distintos: um deles foi divulgado há dois anos no Piauí, com caráter local, e outro foi conduzido recentemente no Reino Unido, com abordagem internacional. Ambos concluem que ainda há lacunas pontuais a serem preenchidas no combate ao avanço da doença.


Diagnósticos de câncer de mama precisam ser melhorados no Estado

O levantamento piauiense foi conduzido pelo doutor em Radiologia e professor adjunto da UFPI, Gérson Luís Medina Prado, e apontou problemas no âmbito da identificação das características da doença.

Segundo o estudo, os encaminhamentos de casos suspeitos de câncer de mama podem sofrer distorções por conta de diagnósticos equivocados quanto à identificação de nódulos, feita durante exames de mamografia.

O estudo mostrou que há problemas nos dois eixos: análise equivocada de pacientes que não apresentam risco significativo e subnotificação de casos de câncer.

A pesquisa, que foi repercutida na época pelo jornal Meio Norte, foi realizada durante aproximadamente dois anos pelo Dr. Gérson Prado e por estudantes da Faculdade de Ciências Médicas (FACIME) da Universidade Estadual do Piauí. Para o estudo, foram analisados 426 exames.

O trabalho foi feito considerando o sistema norte-americano de padronização de laudos, conhecido como BI-RADS, que estabelece níveis de risco de ocorrência de câncer na análise das mamas.

No Piauí, foram constatados problemas na categoria 3 da escala, onde ocorrem achados provavelmente benignos, e com menos de 2% de chance de malignidade.

Essa porcentagem, no entanto, chegou a 7% de incidência no Piauí. Ou seja, essas pessoas foram classificadas erroneamente como categoria 3, quando na verdade poderiam ser consideradas no nível 4 ou 5. Isso gera uma situação complicada, pois as pacientes são informadas de que não há nada de errado e acabam voltado para casa.

Quando retornam um ano depois ao médico o câncer já evoluiu bastante.

A categoria 4 apresenta um risco maior: nela, a chance de os nódulos serem malignos é de 23% a 30%. Já a categoria 5 apresenta achados altamente suspeitos para malignidade, acima de 95% de chances de ocorrência de câncer de mama.

No entanto, a pesquisa do Dr. Gérson apontou uma distorção também nesta outra ponta da escala: o nível 5 apresenta apenas 80% de casos comprovados de câncer. Na época da divulgação do estudo, Prado ressaltou que este índice deveria passar de 95%, o que indica que há pessoas sendo encaminhadas desnecessariamente para biópsias.

As possíveis distorções na prevenção e, consequentemente, no tratamento, também são o foco da já citada pesquisa britânica. Uma revisão de estudos conduzida por um comitê de pesquisas independente descobriu que, para cada mulher salva, outras três recebem tratamento desnecessário contra um câncer que nunca teria ameaçado suas vidas.

A análise foi publicada na revista médica ?Lancet?, e o assunto também foi divulgado na Folha de São Paulo.

O comitê de especialistas foi chefiado pelo Cancer Research U.K. e o departamento de saúde britânico, e analisou evidências de 11 estudos no Canadá, na Suécia, no Reino Unido e nos EUA.

Cientistas disseram que o programa britânico evita que cerca de 1.300 mulheres morram todos os anos de câncer de mama, enquanto 4.000 mulheres recebem sobrediagnóstico, ou seja, são tratadas contra cânceres que crescem muito lentamente e nunca chegariam a incomodá-las, mas que são detectados nos testes preventivos.

Diferentes tipos de câncer de mama precisam ser observados

Dois anos depois de divulgar seu estudo apontando os problemas no diagnóstico do câncer de mama, Gérson Prado voltou a conversar sobre o assunto com o Jornal Meio Norte.

Com base nas conclusões de sua pesquisa e nas do levantamento britânico, o Doutor em Radiologia ressaltou que as particularidades de cada um dos subtipos da doença precisam ser observadas, para otimizar os tratamentos.

?Primeiramente, é preciso dizer que, para a paciente que recebe o impacto de um diagnóstico de câncer de mama, a informação de que há vários tipos da doença é praticamente irrelevante.

No entanto, ela é fundamental para os médicos. Isso porque o tratamento vai depender do subtipo histológico: Alguns vão exigir que seja feita uma mastectomia radical, enquanto outros demandarão esse procedimento em apenas um setor da mama, por exemplo.

Outros tipos vão requerer apenas radioterapia, outros demandarão apenas quimioterapia, ou ainda uma terapia combinada. Há tipos histológicos relacionados com a genética da mulher, enquanto outros estão mais ligados ao ambiente em que a paciente vive. Ou seja, é preciso considerar todos esses fatores?, explicou Prado.

Uma alternativa mais precisa para a detecção de tumores seria a Ressonância Magnética de mama, mas o custo do exame continua sendo um empecilho. ?Apesar de ser um exame excelente para a detecção do câncer de mama, a RM não é considerada como sendo de primeiro plano. Isso porque seu alto custo limita o acesso da maior parte da população.

Hoje em dia, a utilização da ressonância magnética da mama é reservada a casos bastante específicos, a exemplo de mulheres que possuam um histórico familiar muito grave e também para pacientes que já tiveram o diagnóstico do câncer, e encontram-se na fase de decisão sobre o que vai ser feito no tratamento.

Nessas pacientes nas quais o câncer já foi detectado, a ressonância pode ajudar a apontar, com precisão, se há tumores em apenas uma mama ou nas duas, bem como se ocorreu metástase ou não.

O exame também pode ser utilizado em pacientes que já foram tratadas e precisam ser avaliadas em um intervalo mais curto, para determinar se há chances de recidiva (volta) da doença?, complementou Gérson Prado.

Ou seja, o cenário é praticamente o mesmo desde que Prado concluiu sua pesquisa sobre o diagnóstico do câncer de mama. No entanto, o pesquisador aponta que o Hospital Universitário, aberto na semana passada, representa um avanço no combate à doença no estado. ?A unidade tem um setor dedicado exclusivamente para a assistência à saúde da mulher.

Abrange o acolhimento inicial, os exames de rotina e tratamentos mais avançados, que porventura as pacientes possam necessitar. O setor conta com ultrassonografia, mamografia, densitometria óssea e ressonância magnética, ou seja, tudo o que é necessário para cuidar da mama?.

Fonte: Dowglas Lima