Falta de organização deixa times de futebol distantes de IPO

Torcedores ingleses podem comprar ações de seus times

Mais do que grandes craques dentro dos campos, Cristiano Ronaldo, Lionel Messi, Kaká, Rooney e Xavi, têm outra característica em comum: as boas jogadas ajudam a valorizar as ações de seus times nas bolsas de valores. No Brasil, o Coritiba já tentou entrar para o filão que vem sendo analisado criteriosamente por Cruzeiro e Internacional. Mas especialistas alertam: antes de fazer uma oferta inicial de ações (IPO) as equipes devem ter uma receita diversificada e marca com alta credibilidade para garantir o sucesso da empreitada.

Os clubes que quiserem negociar ações em bolsa devem cumprir as mesmas exigências de qualquer outra empresa no Brasil. Assim, para começar, o clube deve conseguir autorização na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e se transformar em uma Sociedade Anônima (SA). Posteriormente, devem fornecer à Bovespa informações sobre planos de negócios, estruturas administrativas, demonstrativos financeiros auditados com todas as fontes de receitas e débitos.

O único clube que tentou negociar ações na bolsa de valores do País, o Coritiba, não obteve sucesso. Já na Europa, existe até um índice que mede o desempenho das ações de clubes, o Stoxx Europe Football, atualmente com 23 times, entre eles Ajax, Roma, Celtic, Fenerbahce, Juventus, Porto e Tottenham. Para o professor de Negócios do esporte da ESPM-RJ, Sylvio Maia, falta amadurecimento aos clubes brasileiros para abrir o capital.

"O modelo brasileiro tradicional apresenta conselhos administrativos que vêm de muitas gerações e que são pouco profissionais. Para fazer uma IPO os clubes precisam sanar algumas pendências em relação ao ranking de governança corporativa, com publicação de balanços, além de cumprir outras exigências específicas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)", diz. Segundo Maia, os clubes brasileiros precisam passar por uma "mudança de cultura" para entrar em um mercado tão organizado e com regras severas. "As relações de poder nos clubes de futebol ainda estão muito distorcidas."

O advogado especialista em direito desportivo e sócio do escritório Carlezzo Advogados, Eduardo Carlezzo, diz que a comercialização de ações poderia ser uma solução para os clubes brasileiros, mas eles ainda precisam passar por um longo caminho de gestão administrativa, principalmente na preparação em termos de diversificação da receita com patrocínio, ocupação dos estágios e valor do passe dos atletas. Além disso, os times precisam detalhar em seus balanços todas as origens e destinos das receitas e, principalmente, resolver os passivos trabalhistas que consomem boa parte das rendas dos clubes.

Entre 12 dos principais clubes brasileiros, o Corinthians e o Flamengo teriam mais chances de captar dinheiro na bolsa, pois têm marcas mais fortes, conforme levantamento da empresa de auditoria e consultoria BDO RCS. A pesquisa analisou as receitas diretamente relacionadas ao cálculo do valor das marcas (marketing, estádio, sócios e mídia) e concluiu que o Corinthians é o time com maior valor de marca no País, com projeção de R$ 867 milhões. O Flamengo ficou em segundo lugar e subiu uma posição em relação ao levantamento de 2010, com valor de R$ 689 milhões. O São Paulo, que caiu uma posição, teve o valor da marca projetado em R$ 625,3 milhões.

Embora o futebol não fique tão longe, os números brasileiros não chegam perto do mais valioso do mundo, o Manchester United, que vale US$ 1,4 bilhão (cerca de R$ 2,4 bi), segundo ranking do ano passado da revista Forbes.

Experiência frustrada

No Brasil, o Coritiba foi o único clube que tentou negociar ações na bolsa de valores. Em 2003, o clube paranaense entrou com pedido na CVM. Na ocasião, a marca do clube representava quase a totalidade dos ativos, estimados em R$ 51 milhões. A resposta final veio em agosto de 2004: a marca da equipe não foi suficiente para dar a garantia necessária aos credores e o pedido foi negado.

De acordo com Maia, os investidores brasileiros ainda devem demorar para comprar ações de um time na Bovespa. "Não acho possível que os clubes brasileiros possam negociar ações em bolsa de valores em menos de dez anos. Os clubes que acredito que estejam um pouco mais antecipados nesse processo são São Paulo, Grêmio e Internacional, que já têm uma gestão mais organizada, e o Corinthians e o Flamengo, que possuem marcas mais fortes", diz.

Conforme a assessoria de imprensa do Cruzeiro, o atual presidente Zezé Perrella tem um projeto nesse sentido. No entanto, como ele deixa o cargo no final do ano e não tem planos de reeleição, o prosseguimento ficará a cargo do próximo presidente, que assume em janeiro. O vice-presidente do Internacional, Luciano David, diz que o clube também estuda essa possibilidade. "Temos interesse, mas ainda estamos tentando viabilizar algum projeto, ainda não há nada definido", diz.

Já o presidente do Gêmio, Paulo Odone, acredita que as dificuldades também passam pela cultura do torcedor no País. "Acho difícil um clube colocar ações na bolsa porque a cultura brasileira não está amadurecida o suficiente para isso. O torcedor tem dificuldade em ver o time como uma empresa", diz. Palmeiras, Atlético-MG, São Paulo e Corinthians não analisam a possibilidade de fazer uma oferta de ações. O Coritiba também não pensa em retomar o projeto, segundo a assessoria do clube.

Exemplos do exterior

Na América do Sul, a iniciativa de clubes com ações na bolsa começou no Chile, por iniciativa do governo, que criou uma legislação para sanar as dívidas de dois dos principais clubes do país. "O governo praticamente obrigou os times a entrarem na bolsa e chegou a criar uma legislação especial para que o Universidad do Chile e o Colo Colo colocassem ações. O sucesso da oferta inicial foi tão grande que, posteriormente, o Universidad Católica também optou por captar dinheiro na bolsa de valores do país", diz Carlezzo.

No exterior, o perfil do investidores tem os mais variados estilos. Além do torcedor que pretende ajudar a equipe a comprar melhores jogadores, grandes empresas buscam aliar sua marca aos clubes de prestígio, diz Carlezzo. Com isso, uma má campanha dentro dos campos gera um reflexo quase imediato no valor das ações. Após a expulsão da equipe turca do Fenerbahce da Liga dos Campeões, principal torneio europeu, por suspeitas de manipulação de resultados de partidas, as ações do time caíram 20%, enquanto as ações do time que ficou com a vaga, o vice-campeão turco Trabzonspor, subiram cerca de 15%.

Fonte: Terra, www.terra.com.br