"Hoje eu tenho até pena do Eike", diz acionista minoritário da OGX

"Hoje eu tenho até pena do Eike", diz acionista minoritário da OGX

Lobo acha muito difícil recuperar as perdas com as ações da OGX, que no seu caso já chegam a R$ 500 mil

Na última quarta-feira (10/07), o advogado Márcio de Melo Lobo, acionista minoritário da OGX, pediu o bloqueio de bens do empresário Eike Batista como garantia contra futuros danos que poderão ser causados pela petroleira do grupo EBX. O pedido foi negado pela Justiça, mas o advogado não desistiu. Em entrevista à NEGÓCIOS, ele afirmou que irá recorrer da decisão.

Ciente dos riscos que envolvem investimentos na bolsa de valores, Lobo acha muito difícil recuperar as perdas com as ações da OGX, que no seu caso já chegam a R$ 500 mil. Os papéis que ele chegou a comprar por R$ 19, na última sexta-feira fecharam a R$ 0,43. Apesar da perda, Melo é contra um socorro do BNDES ou de bancos credores ao conglomerado X. E diz: "Hoje eu tenho até pena do Eike".

Qual a avaliação do senhor em relação à decisão da Justiça que negou o pedido de bloqueio de bens de Eike Batista e da OGX?

Márcio de Melo Lobo - A juíza entendeu que os elementos que foram informados não eram suficientes para o bloqueio de bens. Mas só o papel cair de R$ 20 para R$ 0,40 já é suficiente para uma ação judicial pedindo o bloqueio de bens, porque alguma coisa tá muito errada, não é?

Mas a juíza entendeu que não. Ela achou que bloquear os bens do Eike e da OGX ia acabar agravando ainda mais a situação da empresa. Se bloqueasse os bens dele, as ações iam cair ainda mais, podendo chegar a R$ 0,20 ou até menos.

Ela prefere esperar uma ação da CVM [Comissão de Valores Mobiliários]. O problema é que nesse caso, a pressa é fundamental. O doente está em estado grave e é preciso fazer alguma coisa antes que ele morra. Se formos esperar a CVM, esse paciente vai morrer.

Eu sou advogado, não sou do mercado financeiro, mas acredito que, na história, você pode contar nos dedos a empresas que viraram pó como a OGX está virando. Alguma coisa muito errada com certeza tem aí. E se não apareceu, ainda vai aparecer.

A gente vai recorrer, porque ainda confia que existem elementos, sim, para uma intervenção judicial, um bloqueio de bens.

Por que o senhor acha necessário bloquear os bens da OGX e de Eike Batista?

No meu entender, acho que é preciso haver garantias para proteger os minoritários, que não são poucos. Porque o grupo há pouco tempo valia R$ 120 milhões e hoje vale menos de R$ 8 milhões. No nosso entender, esses elementos todos que hoje se encontram aí no mercado, mostram atitudes no mínimo suspeitas dos controladores. Então, diante desse princípio, foi que entendi que a medida era viável.

Estão falando muito de uma possível recuperação judicial, que eu acho até que já deveria ter sido feita. Volto a dizer: não sou técnico, não sou do ramo financeiro, eu sou advogado. Mas essa crise é pública e notória.

Na visão do senhor existiu uma mentira por parte da empresa?

Sim, existiram informações inverídicas que foram passadas ao mercado que induziram ao erro. A OGX e o grupo X em si, lançaram no mercado mais de 150 fatos relevantes. Desses, 55 só foram para informar que haviam achado grandes poços, que iam perfurar, que ficariam maior que a Petrobras. O senhor Eike Batista fazia essas revelações não só por fato relevante, mas nas entrevistas que concedia. E fato relevante não é conversa de esquina, onde o sujeito fala o que quiser. O fato relevante tem que ter um fundamento, tem que ter uma veracidade, e não pode servir para enganar o mercado. E foi exatamente o que aconteceu.

Esta sequência de fatos relevantes lançados pela empresa é estarrecedora. Em um mês ele fala que vai extrair 50 milhões de barris, meses depois vai extrair só cinco e logo depois ele vai fechar o poço porque não é viável. Então, essas ações enganaram o mercado. Essa pra mim é, sem dúvida nenhuma, a maior derrocada de um empresa do país.

Há outros minoritários das empresas X que criaram uma associação para tentar preservar seus direitos diante da desvalorização do conglomerado. O senhor contou com a ajuda de algum deles nesta ação?

Não. Essa ação foi separada. Mas isso mostra que tem muita gente descontente, muita gente sendo lesada, muita gente sendo enganada.

De quanto foi a perda do senhor até agora?

Se eu vendesse hoje a minha posição, eu perderia uns R$ 500 mil.

Há quanto tempo o senhor tem ação da empresa?

Eu comecei a comprar em 2011.

Mas ao investir no mercado de ações, assume-se um risco, não é?

Todo mundo sabe que tem risco. Mas o risco é limitado às informações e às divulgações que a empresa passa. A partir do momento que a empresa engana o mercado...

Não estou dizendo que fez isso, mas parece.

E o que levou o senhor a comprar?

Foram essas informações. Quem vendia dizia que era o melhor negócio do mundo. Eu invisto em diversas companhias. Eu estou perdendo, assim como a maioria das pessoas, com a bolsa de valores. Mas nada nem perto da perda com a OGX.

E agora, pra quem tá perdendo, é o pior momento para desistir.

É. Para perder por quarenta centavos, é melhor ficar com o papel na mão.

Quanto o senhor pagou pela ação?

Eu não comprei tudo de uma vez. Eu fui comprando aos poucos, mas cheguei a pagar R$ 19 pelo papel. Comprei a R$ 19, R$ 18, R$ 14, R$ 9, R$ 5. Também cheguei a comprar uma leva a R$ 1,60 tentando ver se conseguia fazer um preço médio e recuperar alguma coisa.

Qual é o seu perfil de investidor?

Eu invisto 10% do meu patrimônio em ações, então eu me considero um conservador.

O senhor tem esperança que a ação volte a subir?

Muito pouca. Muita pouca. A chance de subir é só se aparecerem áreas novas, porque pelas notícias que vêm aparecendo, a tendência é realmente de baixa.

E o senhor acha que há chance de a empresa ser ajudada pelo BNDES ou por outros bancos que já são credores da empresa?

Eu vou ser bem franco, o dinheiro do BNDES é do povo. É o nosso dinheiro. E espero que não seja usado mais nenhum centavo dele para ajudar essa empresa. Mesmo que eu perca, sou contra o uso do dinheiro do BNDES para ajudar o Eike.

Se tivesse uma conversa com Eike Batista, o que o senhor falaria?

Acredito que essa possibilidade é remota e nem tenho interesse num encontro com ele. Hoje, na verdade, eu tenho até pena do Eike. Ele era uma pessoa que levantava a bandeira do Brasil e a do Rio de Janeiro. Eu apostei meu dinheiro nele. Acreditava e torcia por ele. Era um cara que dizia que seria o mais rico do mundo. Antes tinha uma riqueza de R$ 30 bilhões e hoje tem R$ 2 bilhões. Deve estar sendo difícil para ele botar a cabeça no travesseiro.

Fonte: Época