Investimento das teles cresce 3% ao ano, quando receita sobe 8%

Para governo, há clara defasagem entre potencial de crescimento do setor e investimento das empresas

As operadoras de telecomunicações têm sido bastante cobradas nos últimos meses pela qualidade dos serviços, principalmente móveis. Um estudo apresentado ontem pela A.T. Kearney, durante o evento Painel Telebrasil, em Brasília, mostrou que, de 2005 a 2011, o crescimento médio anual dos investimento nas redes fixas e celulares foi só de 3% ao ano. A pesquisa também apontou que foram investidos R$ 115 bilhões nesse período.



Por outro lado, a receita bruta dos serviços de telefonia fixa e móvel passou de R$ 112,9 bilhões em 2005 para R$ 181,8 bilhões no ano passado, segundo a Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil). Isso corresponde a uma expansão média anual de 8,3%, quase o triplo da trajetória do investimento.

Sem citar os números, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, criticou o investimento baixo das operadoras. "Existe uma clara defasagem entre o potencial do mercado e o investimento das empresas", afirmou.

Mas, apesar do crescimento baixo dos desembolsos, Antonio Carlos Valente, presidente da Telebrasil e da Vivo Telefônica, afirmou que o investimento no País está acima da média mundial. "Desde a privatização, o setor investiu R$ 390 bilhões", disse ele, acrescentando que esse montante equivale a mais de 20% da receita. "A média mundial é de 15% da receita", acrescentou Francisco Valim, presidente da Oi. "O Brasil investiu mais que a média mundial na série histórica." A privatização do Sistema Telebrás aconteceu em 1998.

Preocupação. Na noite de quarta-feira, durante a abertura do evento, Valente criticou o conceito de neutralidade de rede irrestrita contido na proposta do Marco Civil da Internet. "Isso impede novos modelos de negócio e serviços", disse ele. Pelo conceito de neutralidade de rede, todo conteúdo da internet deve ser tratado da mesma forma pelas operadoras. As teles são contra, pois querem cobrar de grandes empresas de internet, como Google e Facebook, uma taxa pela capacidade consumida.

O problema é que, sem a garantia de neutralidade, os parceiros das teles teriam tratamento privilegiado, com maior qualidade de entrega, o que prejudicaria a entrada de novas empresas no mercado, impactando a competição e a possibilidade de escolha.

As operadoras de telecomunicações enfrentam um sério desafio com o avanço do vídeo na internet, que tem feito com que o tráfego de dados cresça muito mais rápido que a capacidade de investir. Thiago Monteiro, consultor da A.T. Kearney, mostrou que o tráfego de internet crescerá, em média, 33% ao ano no mundo. Em 2015, metade dele deve ser gerado por vídeos.

No Brasil, a tendência é ainda mais acentuada. A expansão média anual esperada para o tráfego é de 53%, sendo que o vídeo deverá responder por 65% do volume em 2015. "No momento atual, a conta não fecha", afirmou Valim, da Oi. "O fluxo de caixa é muito perto de zero." Carlos Zenteno, presidente da Claro, disse que não dá para depender exclusivamente das receitas de conectividade. "Não vamos ser somente um tubo para esse conteúdo."

Daniel Slaviero, presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), criticou o plano do governo de antecipar para o ano que vem o leilão da faixa de 700 Mhz para a quarta geração da telefonia celular (4G). "Se isso for tratado como fato consumado, o setor de radiodifusão vai reagir", disse. Atualmente, essa faixa é ocupada pelos canais analógicos de TV aberta. O decreto que instituiu a TV digital no País determinou que esses canais serão desligados e devolvidos ao governo em 2016.

Se não forem tomadas medidas pelo poder público para garantir a digitalização das emissoras e, principalmente, o acesso a receptores digitais pelos espectadores, não será possível desligar os canais nem mesmo daqui a quatro anos.

A Telebrasil apoia a posição do governo. Valente, da associação, sugeriu que operadoras e radiodifusores dialoguem para resolver a questão e também a neutralidade de redes.

Fonte: Estadão, www.estadao.com.br