Jovens se endividam cada vez mais cedo no Brasil

Jovens se endividam cada vez mais cedo no Brasil

O número de jovens e adolescentes endividados está crescendo

Simona Lima, de 22 anos, é publicitária, tem emprego e mora sozinha em um apartamento numa área de classe média em São Paulo. Simona pode até parecer uma jovem em situação financeira estável, mas seu estilo de vida encobre uma dívida de R$ 6 mil, iniciada há dois anos. Ela mal consegue abastecer de créditos o celular pré-pago. A publicitária faz parte do universo crescente dos inadimplentes muito jovens. Gente que, antes mesmo de se firmar na vida produtiva e ter renda regular, passa por todo o ciclo do endividamento: recebe oferta de crédito, decide usá-lo, exagera na dose e deixa de pagar as dívidas.

A tendência, detectada há alguns anos, agora explodiu. No primeiro semestre de 2010, em São Paulo, a parcela de não pagadores com até 20 anos dobrou em relação a 2009: foi de 4% para 8%. Em 2000, esses jovens eram apenas 2% dos inadimplentes, informa o Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo. ?O jovem brasileiro tem pouca informação sobre como usar o dinheiro. Estamos percebendo isso mais claramente agora por causa da expansão da oferta de crédito?, diz Maria Inês Dolci, coordenadora da ONG ProTeste, de defesa do consumidor. Outra pesquisa sugere que as famílias de classe média são as mais ameaçadas pelo problema.

O caso de Simona oferece várias pistas sobre como as decisões dos jovens e de seus pais levam ao endividamento desnecessário e excessivo. Depois que a mãe e sua companheira se separaram e mudaram de cidade, a moça ficou morando sozinha em São Paulo. Alugou um apartamento menor, mas ficou sem mobília. ?Tive de comprar geladeira, micro-ondas, pratos, toalhas, cobertores e mais um monte de coisas?, diz. Ela conseguiu um cartão de crédito de uma loja de varejo, o primeiro que teve na vida, e ficou impressionada com a facilidade com que obteve o dinheiro emprestado na forma de plástico. ?Eu tinha 20 anos, era estudante, sem trabalho, e me deram um limite maior que o último salário que eu tinha recebido como estagiá­ria?, afirma. A concessão de crédito a pessoas físicas no Brasil mais que dobrou desde 2005: passou de R$ 138 bilhões para cerca de R$ 300 bilhões no ano passado.

Com o cartão, Simona passou a receber descontos nas compras. Gastou R$ 1.000 na loja. A mãe prometeu ajudar a pagar a conta, mas entrou numa fase financeira difícil. Assim, a jovem se viu no meio do curso universitário, no fim de um estágio e sem poder mais contar com o dinheiro da mãe. Não conseguiu pagar nem a segunda parcela das compras, de R$ 100. As escorregadelas financeiras contidas na história são facilmente cometidas por quem começa a lidar com crédito ou encontra de repente possibilidades de consumo superiores às permitidas pela renda real. Há algumas dicas básicas para evitar essa situação. Uma é nunca fazer dívidas contando com renda futura incerta. Outra é poupar sempre com algum objetivo claro, como incentivo, e com horizonte de tempo compatível com a idade do interessado ? ?longo prazo? tem significados diferentes para um jovem de 18 anos e um adulto de 48.

?Meu conselho é considerar sempre o rumo de sua vida ? onde você quer estar em um ano, cinco anos? Quais são seus objetivos? Isso pode ser entendido por qualquer jovem?, diz Cássia D?Aquino, especialista em educação financeira para crianças e adolescentes. ?Quando você sabe aonde quer ir, faz escolhas adequadas. Se não consegue definir isso, vai comprar tudo o que quiser hoje, porque está fixado no agora.?

O problema pode estar nascendo antes da chegada do jovem à vida adulta. Os lares nas grandes cidades em que moram filhos de 12 a 19 anos têm gastos mensais 5% superiores à renda, na média, segundo uma pesquisa da Kantar WorldPanel, empresa de estudos de consumo, que acompanhou os hábitos de 8.200 famílias no país ao longo de 2009. Isso significa que, com filhos adolescentes em casa ? incluindo jovens na fase de ingressar na faculdade e procurar o primeiro emprego ?, as famílias tendem a se desfazer da poupança ou acumular dívidas (na média, essas famílias buscam mais renda e ganham mais, mas não o bastante para compensar os gastos ? leia o quadro na ao lado). Lares em que os pais vivem com filhos ainda crianças ou já adultos tendem a mostrar contas mais equilibradas.

O adolescente que gasta demais e não vê exemplo de comedimento financeiro na família pode virar um jovem adulto devedor. ?Há uma nova geração que já cresceu vendo os pais usar sempre o limite do cheque especial e comprar a prazo, em longas prestações, com juros altos?, diz Marcelo Segredo, presidente da Associação Brasileira do Consumidor (ABC). Esse exemplo pode levar o jovem a tentar iniciar a vida independente mantendo o mesmo padrão de vida, mesmo sem dispor da mesma renda da casa dos pais. ?Quem tem pouca idade precisa prever que vai receber salários menores e ficar mais tempo desempregado?, diz Mirela Scarabel, economista da consultoria LCA. ?Essa falta de estabilidade dificulta o controle da vida financeira.? De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a faixa de idade dos 15 aos 24 anos é a que mais sofre com o desemprego no país.

Nessa situação, fica mais difícil resistir à tentação de usar o cartão de crédito. De acordo com uma pesquisa da consultoria Gfk, 90% dos consumidores afirmam ficar mais suscetíveis a comprar em lojas que aceitem cartões (de débito ou de crédito). ?O cidadão está se endividando mais cedo e de forma irresponsável. As tentações sempre existiram, mas no começo da década era muito difícil ter um cartão de crédito?, afirma a educadora financeira Cássia D?Aquino.

Mesmo antes da adolescência já é possível ter cartão ? há pré-pagos feitos para crianças, que precisam ser recarregados pelos pais. Se nenhum adulto ensinar à criança que usar o cartão é uma decisão e significa gastar o dinheiro da família, ela poderá não associar as duas coisas. A educação ou deseducação financeira continua na adolescência, quando o jovem pode ter um cartão como dependente do pai ou da mãe. Na fase seguinte da vida, no começo da vida adulta e na universidade, o jovem se torna a grande aposta dos bancos. Há 5 milhões de universitários no Brasil, e as empresas que oferecem empréstimos e cobram juros tentam conquistá-los nessa fase, com cartões de crédito e outros mimos, como abrir conta sem precisar comprovar renda. ?Quanto antes o banco pegar o correntista, mais tempo fica com ele?, diz Marcos Calliari, diretor da Agência Namosca, especializada em estudar o público jovem. As instituições financeiras calculam que 80% desses novos clientes continuam correntistas depois de terminar a faculdade.

Ter conta em banco desde cedo não significa endividamento, muito menos inadimplência. É importante que o jovem entenda e pense em cada passo do processo: receber uma oferta de crédito, aceitar que ela fique à disposição (ele poderia recusá-la, para evitar a tentação), usá-la dentro de limites seguros ou usá-la fora desses limites. ?O jovem que consome com consciência deveria usar dinheiro real, e não fictício, como é aquele que ele pega emprestado?, diz Segredo, da ABC.

Além da tentação do uso do crédito, que pode se apresentar de várias formas, alguns jovens têm dificuldades para conversar a respeito com a família e pedir ajuda. O estudante Luiz Carlos de Lima Júnior, de 21 anos (sem parentesco com Simona), não só usou o cheque especial, como ultrapassou o limite previsto pelo banco. ?Eu sabia que a bomba ia estourar em algum momento, mas o medo de pedir ajuda a meu pai foi maior?, diz. A dívida foi feita em uma viagem com amigos. Lima gastou mais do que havia recebido em seu estágio. ?Eu usei uma parte para cobrir as dívidas que já tinha e o que sobrou guardei para a viagem. Mas pensei que tinha sobrado mais, e acabei gastando além do que podia.? Uma vez que a dívida foi feita, é hora de pensar na melhor forma de lidar com ela. Tomar a iniciativa é uma boa ideia. Lima esperou que o problema crescesse e o banco o procurasse. Simona fez um acordo com a rede de varejo.

Inadimplência não é boa nem para os bancos. Hoje, instituições como a Visa têm programas de educação financeira acessíveis a adolescentes e jovens, que ajudam os novos clientes a usar os benefícios com responsabilidade. O Banco Central promove palestras para universitários e mantém um site com dicas para o público infantojuvenil. O Banco do Brasil, com 1,3 milhão de clientes universitários, oferece palestras em escolas para alunos de 12 a 17 anos. O Bradesco tem uma ?central de dicas? no site sobre contas universitárias. Lidar com essa faixa etária, porém, é difícil.

Especialistas em finanças dizem que os pais devem permitir que os filhos percebam os resultados de seus erros financeiros, em vez de poupá-los dessa experiência. ?O aprendizado vem ao longo da vida. Você tende a consumir na primeira vez tudo o que pode, até ficar com dor de barriga. A partir daí, aprende com as consequências?, diz Calliari, da Namosca.

Fonte: g1, www.g1.com.br