"Mercado cairá na realidade dos juros baixos",diz presidente do BB

Ele afirma que os acionistas "estão malucos" em esperar altos retornos numa era de juro baixo

"Acabou o negócio bancário baseado no spread [diferença entre o custo de captação e o cobrado do cliente], segundo o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine.



Ele afirma que os acionistas "estão malucos" em esperar altos retornos numa era de juro baixo, que forçará o mercado bancário a reduzir custos e fazer parcerias para ganhar eficiência. Leia a entrevista.

Quais as perspectivas para a economia neste ano e no próximo?

Aldemir Bendine - Tivemos um primeiro semestre abaixo de nossas expectativas. E tínhamos uma previsão de retomada mais forte agora, a partir do segundo semestre, que não veio tão rápido como a gente imaginava.

O Banco do Brasil, até por conta de ações estratégicas, já teve uma melhoria forte no segundo trimestre, que o mercado bancário ainda não acompanhou.

Desde julho, a gente nota uma retomada do interesse das empresas na tomada de crédito e na retomada de seus projetos de investimento.

Está mostrando que aquela desconfiança dos empresários está se revertendo.

A gente estima chegar até o final do ano com a economia muito mais aquecida e isso ajudará muito em 2013. É claro que estamos sendo beneficiados por essas ações estratégicas de redução de juros.

O crescimento da carteira de pessoa jurídica foi superior à de pessoas físicas. Isso prova que essa ação voltada só para estimular consumo, mas uma estratégia para reavivar o mercado de crédito no país.

Com essa política de redução do spread, que reflete na taxa do tomador final, houve uma melhoria do perfil de dívida, que abre espaço para um crédito novo e mais saudável.

O segundo aspecto é que aquele cliente mais conservador, que evitava o crédito sob qualquer hipótese e que tem uma educação financeira, passou a se interessar.

O nível de endividamento é uma preocupação?

Não tínhamos um diagnóstico muito claro do quanto era o endividamento das famílias. Com alguns aperfeiçoamentos que a gente teve de informações, notadamente as prestadas ao Banco Central, a gente começou a ter uma visão melhor.

Pelo ponto de vista bancário, não vejo endividamento excessivo da família brasileira nem das empresas. Havia sim, e está mudando com a política de juros baixos, uma maior consciência financeira do tomador em relação a isso.

Na nossa base de clientes, nossa inadimplência se manteve inalterada e permanece hoje em um patamar muito bom.

Agora, o banco tem uma característica: a gente sempre procurou trabalhar com linhas de menor risco, o que nos garante que, se não temos um ganho elevado nessas linhas de maior custo, por outro lado a gente ganha em volumetria e nesse índice de perda bem abaixo das demais.

Na pessoa física, é o consignado e o financiamento de veículos, linhas com maior garantia. Nas empresas, é o giro em linhas que não são rotativas e que estão atreladas em garantias.

O banco entrou fortemente no consignado, tem hoje quase 40% desse mercado no país. Tem um ganho menor, mas por outro lado ganha na volumetria e no baixo índice de perda.

E esse efeito vem mais da transferência de dívida ou de tomadores antigos?

Estamos vendo a entrada do cliente novo, que está migrando. O próprio cliente da base está renegociando sua dívida nas novas condições. E tem o terceiro cliente, que é o cliente mais conservador, que não entrava no crédito porque entendia que o custo estava excessivo, e passou a se planejar em cima de crédito.

Pessoa física ou pessoa jurídica?

Estamos falando de pequenas e médias empresas, que viam um custo maior para tomar empréstimo, que trabalhavam com capital próprio. Hoje estão vendo que há uma possibilidade de bom planejamento para ter acesso a esse crédito e gerir melhor sua empresa.

Não tenho dúvida de que esse é o setor mais dinâmico nesse processo.

O segmento corporate já era bem servido. Ele trabalha normalmente com três a quatro bancos e qualquer operação cota até na terceira casa decimal. Isso já era equilibrado. O que está abrindo agora é uma possibilidade para essas empresas que não tinham um leque tão grande, que até por custo não era adequado trabalhar com vários bancos...

Acabou o consignado de banco pequeno?

O modelo do BB é bem diferente do dos pequenos e médios. A minha atuação é de balcão. Tem todo um processo automatizado. Trabalho com aquele cliente que eu já conheço.

A situação que o país vive, de taxa de juros mais baixa, spread mais baixo, pode comprimir um pouco a margem de ganho dos bancos que trabalham com agentes para captar clientes.

Olhando para o futuro, não tenho dúvida de que eles terão dificuldades de competição. Nossa estrutura de custo é muito mais baixa, o que permite dar preço melhor e ter mais volume.

Há espaço para crescer agora com a entrada de outros bancos grandes, como o Itaú?

Não tenho dúvidas. Estamos na ponta para competir. Quem tiver melhor operação e preço é quem vai se estabelecer.

É um mercado que conhecemos e essa experiência ajuda a dar um passo à frente. Vamos nos preparar para continuar crescendo e bem. Até porque essa operação estará em breve no Banco Postal.

Onde está a competição no varejo bancário? O que é mais importante oferecer: preço ou atendimento?

A gente começou um processo há três anos de melhoria nos processos para conseguir melhorar o atendimento. Desenvolvemos uma ferramenta de trabalho mais adequada ao funcionário, aliado a uma capacitação, que permite ter uma boa qualidade de atendimento. Isso é fundamental no relacionamento com o cliente. É aí que você fideliza.

O segundo aspecto é preço. Temos que reconhecer que ainda há uma assimetria de informação para o cliente. Com essa estratégia mais agressiva em cima do preço, isso tem provocado uma procura do consumidor a não olhar só a fidelização ao bom atendimento, mas a olhar preço.

É uma conjunção de fatores. Só o atendimento nessa nova realidade não adianta. Se tiver um preço competitivo, mas não ter condição de atender, você também não vende.

Preço é a nova fronteira?

Preço mais atendimento.

Como foi a reação dos bancos privados?

De forma geral, os bancos privados melhoraram preço, talvez de uma forma não tão agressiva. Mas vai ser uma consequência natural.

Por uma série de situações, por ter um taxa básica muito alta, uma economia que não crescia fortemente no crédito, nós não estávamos preparados a trabalhar num cenário de spread bruto bem baixo.

Talvez os bancos internacionais que aqui atuam já tenham esse diagnóstico.

Temos alguns estudos de que a relação hoje da carteira de crédito pelo número de funcionários é, na média, 1/3 ou até 1/4 inferior do que a média mundial das economias maduras há mais tempo.

Por outro lado, você percebe essas curvas se encontrando. À medida que aumenta esse percentual de crédito, você melhora essa eficiência e consegue trabalhar com esses spreads mais baixos.

O spread bruto no mundo deve estar na faixa de 3% a 4%. No Brasil, o do BB gira em torno de 7%. Nos demais, é maior.

Acabou o negócio do spread?

Acabou.

O "core business" [negócio principal] de banco continuará sendo a intermediação financeira.

Como você vai compensar essa redução de spread? Com volumetria. Esse é o primeiro grande movimento.

O segundo se dará na oferta de produtos e serviços de uma forma mais inteligente, com produtos mais elaborados, e com maior penetração na base de clientes.

O serviço foi o diferencial?

Nossa penetração, a receita de cliente com serviço se elevou de uma forma grande, sem ter majoração de preço. Ou seja, tive maior eficiência [de venda] de produtos e serviços para a minha base de cliente.

Cartão, seguro, previdência. Eu rentabilizei o mesmo cliente.

E tem um espaço muito grande para crescer.

Isso vale também para o crédito imobiliário. É um boom novo que veio para o país. Você trabalha numa operação de longo prazo, onde a fidelização é maior.

Esse é um dos problemas que a gente vivia aqui, com exceção da Caixa. As carteiras comerciais giram muito rápido, porque a gente trabalha com prazos muito curtos. E isso gera um esforço muito grande.

Em média, a cada seis meses essa carteira está derretendo e se renovando. Isso demanda mais gente, mais processos.

Quando você vai para uma linha mais de médio e longo prazo, traz mais eficiência, porque não gira com tanta velocidade.

Isso está acontecendo no financiamento produtivo?

Hoje, você trabalha com linhas de capital de giro de até sete anos, coisa que era inviável poucos anos atrás.

Estão surgindo novos mercados privados de crédito, a que as empresas "middle" passam a ter acesso.

A que mercados você se refere?

Ao mercado de capitais com debêntures e fundos de direito creditório. A carteira de títulos e valores mobiliários está acima de R$ 23 bilhões. É para aí que está indo um crescimento do crédito, o que passa a impressão de que o crédito está desacelerando.

Não é bem isso. É que outros instrumentos de crédito têm permitido outras formas de financiamento.

Vocês não estão tirando de um bolso e colocando no outro?

Não estou jogando meu cliente para outro mercado. É uma necessidade dele e eu não posso ficar de fora. Acabou gerando uma concorrência entre os bancos, com custo menor e mais saudável.

A falta de um mercado secundário não é um impedimento para isso?

Não vou dizer que o mercado secundário vá acontecer muito rapidamente. Até porque tem espaço muito grande de crescimento no primário. Mas vai ser uma consequência natural.

Essa relação crédito/PIB vem crescendo a largos passos e é uma tendência saudável. A relação baixa era um sinal de que o país não está bem. O crescimento que tivemos nos últimos anos mostra que, de fato, a economia está muito bem, com uma margem saudável de crescimento alto.

Hoje em média temos uma relação de 50%, e estimo que pode chegar a 80%, num número muito saudável.

E veja a margem de injeção de recursos novos na economia ao atingir esse patamar.

A melhora na economia no segundo semestre já se traduz na tomada de empréstimo?

Sim. Aqui no banco, temos operações se efetivando. Está bem atrelada a esses grandes projetos de incentivo a investimentos. Tem gerado uma onda positiva muito forte e um reaquecimento da confiança. Você percebe o empresário notando que é um ciclo bom. Ele passou a acreditar novamente. E isso vai se acentuar mais no final do ano.

Que setores estão retomando mais rápido?

Nosso nível de tomada de empréstimo tem melhorado bastante. Tem um ou outro setor que estão passando por um processo de adequação maior.

Quais?

Não vou citar, para não dar um tom pessimista. Em médias, todos os outros estão em linha nesse momento.

Por que não veio antes a redução no spread?

Esse movimento não é de agora. Talvez tenha tido uma divulgação maior agora por conta da redução da taxa básica de juros, num corte mais rápido que se teve nos últimos tempos.

No final de 2010, tivemos uma série de medidas macroprudenciais, o que acabou exigindo por parte dos bancos uma maior preocupação em relação a custo de capital.

Tivemos uma mudança na curva da taxa de juros em 2011.

Não é uma ciência tão exata que vai acompanhando em uma mesma velocidade. Acontece um movimento para depois acontecer o segundo.

Fazia uma redução, esperava ver qual será o resultado disso no seu índice de perda, para fazer a segunda.

São processos de acomodação naturais.

E isso vai continuar?

Como cenário futuro, a gente olha que essa taxa básica de juros continuará em patamares baixos por um prazo longo, o que vai permitir que essa redução de spread vá acompanhar esse tendência.

À medida que você trabalha seu cliente com taxas mais baixas, o comprometimento de renda é menor, o risco diminui, e consequentemente você consegue evoluir em taxas cada vez mais baixas.

Em que medida a posição da presidente Dilma foi decisiva nesse processo?

Houve uma demora na reação no momento que a economia estava estagnada. A redução de juros não estava vindo por parte do mercado. A equipe econômica percebe e grita quando há esse desequilíbrio. É logico que isso ajuda.

Cada um se prepara para implementar mais cedo a sua estratégia. Mas no nosso caso isso já é uma estratégia que vem de longo tempo.

Mas os bancos públicos lideraram isso...

Isso é um papel de banco público. Mostramos que é possível executar uma política pública e ao mesmo tempo manter a rentabilidade do nosso acionista.

E as parcerias do Banco do Brasil?

Vamos pegar o mercado segurador, por exemplo. Eu tenho um sócio, porque o mercado segurador não se faz com bancários. Se faz com um grupamento de funcionáros diferentes de bancários. Você precisa contratar um especialista em cálculo atuarial. Não poderia instituir um concurso. Em determinados segmentos não dá para fazer.

E financiamento de veículos fora do balcão? Por isso, nós tivemos de buscar uma solução privada, que foi a associação com o Banco Votorantim.

Não vou por um funcionário bancário para fazer isso. O modelo de trabalho é diferente do bancário. Ele trabalha final de semana, em turnos, nos feirões. Não é um trabalho que se encaixa nesse modelo.

Somos criativos. A gente tem buscado compensar eventuais barreiras com a legislação, mas de forma inteligente e respeitando a legislação.

E também tem benesses por ser um banco oficial. Em relação a funding, funcionários.

O que vocês aprenderam ou fariam diferente com o Banco Votorantim?

Muitas coisas já estamos fazendo diferente. É um banco muito eficiente, forte no financiamento de veículos, que trouxe essa experiência que a gente não tinha de trabalhar fora da rede de agências.

O Votorantim nos trouxe isso, essa técnica, competência comercial de trabalhar fora da rede de agências. Por outro lado, nós levamos ferramentas de risco, gestão, gerenciamento de cobrança, toda a governança do Banco do Brasil. Agora que esse casamento está chegando em uma fase de real intersecção, que está nos deixando satisfeito e que nos permite ter muitos ganhos com esse investimento.

Esse mercado, não só o Votorantim, passaram por um momento de dificuldade, que veio de uma expansão um pouco exagerada. Acabou gerando uma inadimplência de safra forte. Agora, vamos adotar um modelo diferente, que busca minimizar essa inadimplência. É um erro que todos cometem que, quando tem uma inadimplência de safra, se trava a carteira.

Você faz um movimento que não deu certo, que faz parte do mercado de banco... a melhor forma é você não só gerenciar aquele movimento errado, reconhecer a perda que ocorreu, mas manter a carteira crescente com novas formas de avaliação que vai oxigenar a inadimplência, minimizando aquela inadimplência grande que se teve no passado. Se você trava o crédito e não gera novos créditos, de menor risco, aquela carteira velha vai só se deteriorando...

No caso do Votorantim, teve um momento em que o acesso a esse mercado ficou mais difícil. Passamos a exigir uma entrada maior, diminuimos o prazo, acabamos tendo um nível de aprovação muito menor. Esses cuidados foram tomados. O que fica a dúvida é se o remédio não foi demais para aquela moléstia naquela momento.

Na sua avaliação foi?

Entendo que sim. Os bancos e o mercado de crédito foram excessivamente conservadores. É um reflexo de ter sido muito permissivo. É o que a concorrência gera. Todo mundo viu uma oportunidade, o mercado produtor foi pondo veículo, houve uma demanda aquecida. Nessa concorrência você acaba relaxando um pouco.

As lições vêm aí para a gente aprender. O Banco do Brasil não entrou nessa concorrência por achar que o mercado estava um pouco mais aquecido que prudente. Por outro lado, nós agora estamos ganhando mercado de financiamento de veículos dentro do balcão, com o nosso cliente. É uma das carteiras de maior crescimento. E com uma grande vantagem: estou trabalhando com o meu cliente, sei dos riscos que ele me impõe...

Como houve uma retração, houve um estímulo do governo com o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e política de compulsório, isso gerando uma promoção muito forte de preço, as taxas de financiamento estão num nível muito bom. Coisa que os outros, por conta desses acertos que estão fazendo em suas carteiras, ainda não estão. É a vantagem de ser contracíclico e de estar sempre um passo à frente...

Como o sr. vê a concorrência com a Caixa?

Eu não concorro com a Caixa. No crédito imobiliário, olhamos muito para a Caixa porque ela é a grande estrela desse mercado. A entrada do Banco do Brasil se deu no crédito imobiliário por conta de uma deficiência legal.

Era um problema de legislação, que não me deixava trabalhar nesse mercado. Três anos atrás, a gente via que era um mercado que estava amadurecendo, que ia ter uma expansão muito grande, e isso ia nos trazer um diferencial negativo muito grande em termos de concorrência. É um mercado altamente fidelizador. Era uma deficiência que a gente tinha. Não busquei a autorização para entrar nesse mercado para concorrer com a Caixa, mas para ter uma condição igualitária de concorrência no mercado.

Assim como a Caixa pouco trabalhava na carteira comercial. Hoje, ela está aprendendo. Isso é bom para nós, porque ela nos ajuda a fazer movimentos indutores...O mercado está aberto para todos. A gente trabalha de uma forma parecida, mas o sol está para todos.

No comércio exterior, o quanto forte foram as travas da Argentina?

No contexto da carteira do banco, importância nenhuma. Continua numa evolução permanente sem nenhum tipo de trava. Mas quando você olha em determinados segmentos de mercado que têm uma concentração do comércio exterior com a Argentina, é natural observar uma retração. Normalmente, ou a empresa busca um novo mercado ou recua e tenta voltar para o mercado interno.

Naqueles setores em que a dependência de venda era muito concentrada na Argentina, você notou uma trava. Mas rapidamente ajustada. De uma forma geral, não percebi nenhuma consequência nefasta. Estamos mantendo nosso share de 35% desse mercado.

Qual é a próxima fronteira do Banco do Brasil?

Para nós é uma realidade dada que vamos ter de trabalhar com cenário de spread menor. Para trabalhar com cenário de baixo spread e manter o nível de rentabilidade, vamos ter uma grande frente a ser enfrentada. A eficiência dos bancos brasileiros precisa ser melhorada.

Como se dá isso? Fizemos investimentos muito altos e estamos fazendo um choque de gestão aqui, inclusive adotando modelos internacionais, é trabalhar na eficiência. Eficiência passa por ganho de escala. Acho que uma forma inteligente é o próprio mercado bancário procurar compartilhar determinados processos que gerem uma escala maior e que possa trazer custos menores. Talvez seja o principal desafio, não só do Banco do Brasil.

O sr. fala de o setor trabalhar em conjunto?

Sim. Uma deficiência é essa quantidade de terminais eletrônicos, cada um com sua própria rede. O Brasil tem 45 mil terminais de autoatendimento. Isso já não é mais diferencial, é uma commodity. A gente sempre conversa, mas tem avançado de uma forma não tão rápida...

Agora percebo uma conversa mais intencionada. O próprio mercado vai se ajustar em relação a isso. Estamos falando de transporte de valores, terminais, aquisição de insumos, tecnologia.. A gente pode trabalhar compartilhadamente. Na área de cartões, temos uma parceria com o Bradesco na bandeira Elo. Isso vai permitir ter uma empresa de adquirência trabalhando para os três.

Mas isso não tende a concentrar mais um setor que já é concentrado?

Não, isso permite buscar mais eficiência. A gente discute isso muito abertamente entre os bancos quando se busca uma parceria. Na estratégia da plataforma, a gente é sócio e busca uma eficiência... Na distribuição, a gente se mata, briga.. alí é guerra.

Há quase 20 anos a gente convive com isso com nossas parcerias. Você pega a rede Tecband de banco 24 horas. É um modelo que a gente pode avançar. Quando a gente entendia que isso era um diferencial, cada um procurou ter a melhor rede. Hoje, isso é comoditty. Você pode ter um ATM [terminal] liso, sem bandeira nenhuma, o importante é que você seja bem atendido. A gente cita muito o que acontece aqui em São Paulo, na rodovia dos Bandeirantes.

O primeiro grande posto tem dezenas de quiosque de autoatendimento. Cada um pagando um aluguel para o posto? Com seu meio de transporte de valores, seu provimento de telecomunicação, segurança, digitalização de documentos... Esse é nosso desafio. Internamente, são processos, processos, processos...

Temos um projeto começado há dois anos chamado Atendimento 2.0, que é automação de processos, disponibilização de ferramentas para o funcionário ficar cada vez mais voltado para o negócio e o atendimento, centros de logística e de atendimento à rede. Ou seja, fazer mais com menos. Dar prazo para isso é complexo.

Quem contribui mais tem que ter mais retorno. É lei de mercado. Se gero volume, tenho que ser compensado isso. Para o pequeno fazer o investimento nisso é caríssimo. Mesmo que ele pague mais caro por isso vai ser altamente vantajoso. Veja a adquirência. O investimento nisso são de bilhões de reais. Vale a pena fazer isso sozinho? Ainda mais agora que esse mercado está aberto e não tem mais exclusividade de bandeira.

E quais são as dificuldades?

São discussões que temos permanentemente. Um quer um modelo x o outro y. Aí vem as discussões de parametração, padronização... Para implantar cartão com chip no Brasil foi duro. Um queria de um jeito, outro de outro.

Vamos ter um modelo básico de trabalho.

Vamos pegar uma empresa certificadora, e vamos certificar um modelo... É natural. A hora que começa a doer no bolso, todo mundo acelera rapidamente. Acho que esse novo cenário vai levar a uma rapidez nesse busca de parcerias.

E isso vai ser um movimento de acomodação.

A nova realidade de juros baixos muda o retorno para o acionista?

Mesmo que você perca um pouco de rentabilidade agora, é um movimento transitório. Você tem que fazer isso. O problema é não se adequar ao momento.

Achar que nós vamos ficar em índice acima de 20% de rentabilidade sobre o patrimômio, esquece...

Uma economia madura não te permite isso.

O mercado de capitais ainda é imaturo para a nova realidade?

Para falar o português correto, é imaturo.

Taxas de retorno sobre o investimento nas proporções que o mercado de capitais quer exigir... vai exigir em outro lugar. Aqui não tem mais espaço para isso. Vamos ter que trabalhar com essa realidade. É enganar as pessoas prometer rentabilidades naquela realidade que você tinha dez anos atrás. Isso não existe mais.

Vamos dar um excelente retorno para nosso acionista, não tenho dúvidas disso. Ninguém vai cortar rentabilidade do dia para a noite. Não vou virar a chave de 20% para 10%. Vai acontecer uma acomodação e depois vai ficar no patamar internacional.

Falar em 19% e 18% com juros reais de 2% é muito alto ainda?

Está certo a presidente [Dilma] gritar, né?

Nossa taxa de investimento no Brasil é baixa?

É baixa. À medida que você puder dar condição de custo de investimento melhor, é natural que essa taxa de investimento vá crescendo.

O que a gente tem que olhar é que temos uma taxa básica de juros um pouco diferente dos outros países. O que a pessoa quer ver é a taxa real de juros, atrelada ao que espera do investimento.

É por isso que esse grande esforço da autoridade econômica de trazer cada vez mais para baixo a taxa básica de juros para favorecer esse tipo de investimento. É isso que a gente precisa e é isso o que o país está buscando.

E para nos 7,5%? Ou cai mais?

Não posso fazer esse tipo de conjectura. A autoridade monetária entendeu bem como é essa dinâmica e está conseguindo ter uma leitura de cenário muita rápida. Tem sido coerente. No começo todo mundo estranhou... na verdade, tudo o que é novo, tira um pouco do conforto.

Importante é tentar entender e ver qual é a estratégia e se ela está correta.

Eu acredito que estamos em um momento ímpar nesse país... não tenho dúvida de que em poucos anos vamos estar numa condição ainda mais privilegiada...temos muitos desafios pela frente, mas que desafios bons.

Fonte: Folha.com