No PI, opala garante primeiro emprego e renda a famílias

No PI, opala garante primeiro emprego e renda a famílias

Pedro II vive da agricultura e da exploração da opala e venda das joias

No passado, o garimpo da opala no interior do Piauí não garantia mais que um ano de renda para os trabalhadores da região, já que o dinheiro da exploração desordenada da pedra costumava ser gasto com a mesma facilidade com que era retirado das minas.

Mas, nos últimos cinco anos, o que era ?perdição? para muitos garimpeiros virou negócio em Pedro II. Por ano, a cidade vende perto de 400 quilos de joias feitas com a pedra para os mercados interno e externo. E só 10% dos recursos minerais que existem no município foram explorados.

Desde a extração da opala, encontrada em alta qualidade apenas no Piauí e na Austrália, até o design das peças passa pelas mãos dos pedro-segundenses, permitindo que muitos vivam só disso. Na família de Osmarina Uchôa, 40 anos, o garimpo das pedras cabe ao seu marido e a criação das joias, à sua imaginação.

Há seis meses Osmarina abriu uma loja no centro de Pedro II, a Pedra Joia, emprega dois funcionários e disse ter faturamento bruto de R$ 4.000 por mês. ?Meu sonho agora é terminar de registrar meu negócio como loja mesmo, ser dona da minha microempresa. Quero fazer cursos e ampliar esse comércio?, afirmou Osmarina, que antes era funcionária da prefeitura de Pedro II.

As perspectivas positivas da renda que a opala pode gerar estão estimulando jovens do pequeno município a investirem na venda das joias, ampliando o tamanho das lojas e procurando pontos com melhor localização, ?para vender mais?. ?Me mudei aqui para o centro há uns meses, já pensando no Festival de Inverno. Vem gente não só do Piauí, mas de vários estados. Eles ficam bem em frente da nossa loja, então conseguimos vender bastante. O estoque está cheio?, disse Wellington Rodrigues, 22 anos, sócio, com o seu irmão, da ALTA.L & Joias.

Dono de uma das maiores e mais antigas lojas da cidade, inaugurada em 1992, Juscelino Souza também é uma dessas pessoas que apostaram tudo o que tinham na opala, seguindo, de certa maneira, os passos do pai, que era garimpeiro. No ateliê onde produz as peças ? desde a lapidação até a ourivesaria ? o empresário emprega 18 funcionários. Para a maioria, é o primeiro emprego. Quando começou, eram só oito, mas, à medida que as pedras começaram a cair no gosto de estrangeiros, a joalheria teve de ser expandida. No início, 90% do que era produzido por Juscelino tinha a exportação como destino, chegando principalmente a França, Alemanha e Estados Unidos.

No entanto, nos últimos anos, a crise que vem atingindo esses países está fazendo com que o empresário comece a focar mais no mercado interno, que hoje responde por 80% do seu faturamento - que chega a R$ 500 mil por ano.

?Os brasileiros estão conhecendo e apreciando mais as joias feitas com pedra. E com o aumento do emprego e da renda, dessa classe C, as pessoas consomem mais. Foi o que garantiu que nossa produção se mantivesse?, disse o empresário, que afirmou ter registrado crescimento de 10% nos seus ganhos no último ano.

Quem está no ramo há mais tempo também começa a dividir o que aprendeu: como fabricar uma bela peça e administrar o próprio negócio. Antonio Márcio de Oliveira trabalha desde 1989 com lapidação de joias. Em 2000, abriu sua primeira joalheria, o Ateliê de Prata. Em 2004 formalizou-se e, neste ano, ampliou uma de suas duas instalações. Juntas, elas empregam dez funcionários e faturam R$ 220 mil por ano, de acordo com Oliveira. No Sebrae, o empresário capacita pessoas interessadas em receber orientações para serem bem sucedidas como ele.

Diante do aumento do número de lojas e de ateliês de produção das joias de opala ? em 2005, eram 10 e hoje, chegam a 35 ? o mercado de trabalho de Pedro II ficou mais aquecido, dando oportunidade para que jovens consigam seu primeiro emprego e se especializem na fabricação das peças.

Francisco Carneiro da Silva Filho, conhecido como Júnior, 24 anos, preferiu ficar longe das lavouras ? a outra fonte de renda da população ? e se dedicar à lapidação de pedras, o primeiro emprego e, conforme seu desejo, único, na área. ?Faço cursos, busco sempre aprender mais. Mas não tenho vontade de sair daqui. Me criei aqui e é aqui que eu quero ficar?, contou Júnior.

Com direito à participação nos lucros da empresa onde trabalha, Marcos Vinícius de Sales Monteiro, 24 anos, diz não trocar a ourivesaria ?por nada?. ?Estou aqui há oito anos. Esse é o meu primeiro emprego, minha vida. Gosto do que faço e só quero progredir?, contou o jovem, enquanto mostrava uma peça à qual acabara de dar forma. Na loja onde é funcionário, as joias custam de R$ 30 a R$ 1 milhão.

trás do sucesso mais recente que tem vivido o comércio de Pedro II está o garimpo. Nas mãos desses homens tem início a primeira etapa do ciclo produtivo das joias de opala. Hoje, com a crescente e necessária legalização da exploração das minas, muitos abandonaram a atividade, segundo contam os trabalhadores.

No entanto, os que ainda insistem garantem que o esforço vale a pena. Antonio Ferreira Neto, 48 anos, chamado de Marola, é garimpeiro e lavrador desde os 17. Em Pedro II, conhecida como Suíça piauiense devido às temperaturas amenas que permitem o cultivo de legumes e hortaliças, a maioria das famílias que vivem do garimpo complementam a renda com a produção de suas pequenas lavouras.

?Consegui criar dois filhos com o dinheiro daqui. Tem o lado ruim, desgasta a gente. Tem que ficar aqui o dia inteiro procurando pedra, e nem sempre acha, mas eles estão lá. Um estuda em faculdade pública em Teresina, faz biologia e quer voltar para trabalhar com meio ambiente em Pedro II, e o outro foi para São Paulo, trabalhar em um restaurante muito chique, aquele Fasano.?

?Quatro meses por ano, a maioria das pessoas está voltada à agricultura familiar e o restante do tempo a essas outras atividades?, disse Marcelo Morais, consultor do Projeto Gemas e Joias, do Sebrae no Piauí e Coordenador do Arranjo Produtivo Local da Opala.

Com sorte e muita insistência, há garimpeiros que já chegaram a ganhar R$ 60 mil em pedras em um mês, segundo contou o presidente da cooperativa dos trabalhadores, José Cícero da Silva Oliveira. Normalmente, o ganho não atinge essa cifra, mas a atividade tem se desenvolvido de forma sustentável, gerando perspectivas mais positivas para essa atividade. Hoje, são explorados, legalmente, cerca de 700 hectares, o equivalente a 7 milhões de metros quadrados.

?A exploração não é mais desordenada. Todos os trabalhadores da cooperativa trabalham em áreas regulares, com licenciamento, com equipamento de segurança. Sempre recebemos a visita de fiscais de vários ministérios?, afirmou. No regime de cooperativa, 10% de tudo o que se ganha em vendas é dividido entre os 150 associados. ?Mas se um encontra uma pedra maior, por exemplo, fica para ele. Se não fosse assim, não daria certo, né??, ponderou.

A opala extra chega a custar quase quatro vezes mais que o ouro. Enquanto o grama do ouro é cotado por volta de R$ 80, o da opala, dependendo do tipo, o da opala pode ser vendido por até R$ 300. Tão valiosa é a opala que chama a atenção de grandes joalheiras no Brasil. Na Amsterdam Sauer, tradicional joalheria brasileira, presente nas principais metrópoles do mundo, por exemplo, a pedra de Pedro II sempre foi utilizada na produção e comercialização de suas joias, segundo a empresa.



Fonte: G1