Saiba como se preparar para ter uma carreira internacional; leia

Para líderes, capacidade de adaptação é imprescindível para o sucesso.

Com o mundo cada vez mais globalizado e empresas multinacionais instalando unidades e núcleos em diversos países, os profissionais precisam se preparar para desenvolver uma carreira internacional de sucesso. Além de conseguir se comunicar em inglês, conhecer a cultura do país, as relações de trabalho e os costumes dos funcionários são requisitos importantes para alcançar cargos de liderança no mercado global.


Saiba como se preparar para ter uma carreira internacional

Durante o contato com profissionais de diversas nacionalidades, o executivo precisa estar pronto para se comunicar, respeitando as culturas corporativas e sem cometer gafes. "Na China, tive que fazer uma reunião com outros funcionários para conseguir confirmar o encontro com o direitor da empresa. Já na Índia, temos que entregar os cartões de visita com as duas mãos e eles precisam continuar na mesa durante a conversa", conta Nelson Campelo, presidente da Avaya no Brasil, multinacional com sede nos Estados Unidos, que atua na área de sistemas de comunicações empresariais.

?A globalização trouxe mais colaboração entre os países, com equipes heterogêneas e diversificadas?, afirma Glaucy Bocci, gerente e líder da prática de leadership & talent do Hay Group América Latina. Estas mudanças exigiu dos líderes uma maior flexibilidade e capacidade de adaptação a diferentes culturas.

Cleber Morais, de 47 anos, teve que se adaptar a uma cultura diferente para enfrentar seu primeiro desafio no exterior em 2000, quando se mudou para os Estados Unidos e assumiu a diretoria da América Latina de uma multinacional. ?Fiquei dois anos fora do Brasil, morando nos Estados Unidos. Foi um choque cultural e tive que me adaptar?, lembra.

Com 25 anos de carreira e passagens por IBM, Sun Mycrosistems e Avaya, atualmente, ele é presidente da Bematech, empresa brasileira de soluções em tecnologia para o varejo, com operações nos Estados Unidos, Ásia, África e Europa.

?Trabalhar globalmente não é atuar no Brasil e ter experiências internacionais pontuais. Todo líder tem que ter uma vivência internacional. Estudar ajuda bastante, mas é preciso viver o contexto?, ressalta Morais.

Segundo Morais, a capacidade de adaptação é um dos principais requisitos para ter uma carreira de sucesso no exterior, já que o executivo precisa lidar com profissionais de diferentes nacionalidades, costumes, atuação e relações de trabalho.

Entre as diferenças, ele cita o comportamento dos funcionários. No Brasil, eles são mais questionadores e buscam esclarecimentos. Já na cultura asiática, eles são mais discretos. No relacionamento entre líder e funcionários, os profissionais da América Latina buscam mais proximidade com gerentes e presidentes, nos Estados Unidos a relação é mais profissional, e na Ásia existe uma distância entre o gestor e o funcionário. Em relação à carga horária, os americanos sempre cumprem o horário estabelecido, enquanto os brasileiros tem uma flexibilidade maior. ?Aqui é comum você trabalhar todo dia até tarde. É uma flexibilidade da cultura?, diz.

Requisitos e habilidades

A capacidade de entender e de se adaptar a novas culturas são requisitos básicos para os líderes. Conhecer hábitos e costumes dos funcionários ou colegas de outra nacionalidade facilita o dia a dia e a relação de trabalho. ?Ter um pensamento rígido e voltado para uma única cultura pode atrapalhar?, alerta Glaucy.

Estar atualizado, saber o que acontece no mundo e no mercado também é importante. ?Isso é fundamental para qualquer pessoa que ocupe um cargo de liderança?, observa a especialista.

Ter conhecimento em inglês é uma obrigação para os profissionais que desejam ter uma carreira internacional. Com o aumento do número de negócios entre empresas de diferentes países, os profissionais precisam ter habilidades para se comunicar em outros idiomas. ?É preciso aprender e treinar. No espanhol, por exemplo, palavras iguais têm significados diferentes e a conversa acaba ficando fora do contexto?, diz Cleber Morais, presidente da Bematech.

Para chegar ao cargo de liderança, Glaucy lembra que o executivo precisa buscar situações para mostrar suas características e competências para a função. Liderar equipes heterogêneas, atuar em projetos inovadores e em diferentes áreas mostram que ele está tentando se preparar. "É preciso buscar, no próprio trabalho, uma forma de desenvolver e aplicar as habilidades do perfil de um líder."

"Escolhi o Brasil"

O argentino Hernán Armbruster, de 39 anos, teve que se adaptar ao estilo de vida brasileiro quando escolheu o país como sua casa e local para desenvolver sua carreira como executivo, em 2003. Hoje, ele é vice-presidente da Trend Micro, multinacional americana que desenvolve soluções de segurança para conteúdo na internet e gerenciamento de ameaças, em que trabalha há cerca de 15 anos.

?Já trabalhei com profissionais do Chile, da Venezuela e morei no México por dois anos. Tive a opção de morar em qualquer país da América Latina e escolhi o Brasil. Eu e minha mulher gostamos daqui, o povo brasileiro é muito otimista e vi um bom cenário profissional no país?, conta.

Para Armbruster, uma das principais atitudes para se adaptar ao trabalho em um novo país é esquecer os padrões para que o executivo consiga entender outras culturas para desempenhar suas funções. ?O importante é fazer uma pausa e suspender esse pensamento sobre como o mundo ou o negócio funcionam.?

Segundo ele, no Brasil, os profissionais são mais abertos e flexíveis e aceitam novas ideias, características que facilitam o relacionamento pessoal. Já no México, o nível hierárquico e a formalidade prevalecem, e na Argentina existe um nível de desconfiança e um questionamento maior.

Já sobre os hábitos corporativos brasileiros, ele estranhou as reuniões extensas e a falta de comprometimento com o horário. ?Eu percebi que as pessoas paravam para conversar no corredor, mesmo sabendo que iam se atrasar. Eu tentava entender que a dinâmica aqui era diferente e que para algumas culturas o tempo é limitado e para outras não?, diz.

A principal dica de Armbruster para os líderes é que eles tentem entender a cultura da empresa e do país. ?Não vale a pena ir contra o sistema, vale entender como ele funciona e tentar se inserir nesse contexto.?

Movido a desafios

?Sempre tive a sorte de não estar totalmente preparado para o meu próximo passo, sempre tive algum desafio e isso fez com que eu enfrentasse novas situações?, ressalta Nelson Campelo, presidente da Avaya no Brasil, multinacional com sede nos Estados Unidos, que atua na área de sistemas de comunicações empresariais.

Para Campelo, os executivos precisam conhecer as diferentes etiquetas de negócios para não cometer gafes. ?No Brasil, por exemplo, fala-se muito sobre questões gerais, economia e até futebol. As conversas se prolongam um pouco mais. Na Europa, as pessoas vão direto ao ponto, são mais pragmáticas e discutem sem grandes introduções.?

Ele também lembra que na China o executivo precisa ganhar confiança até conseguir falar com a chefia, e na Índia, os cartões de visitam desempenham um papel muito importante. "Os cartões são entregues com as duas mãos e ficam na mesa durante a reunião. A hierarquia está representada na forma que os cartões estão colocados na mesa", diz.

Índia é preciso demonstrar atenção e ouvir todas as posições antes de entrar na conversa, e na China o executivo tem que ganhar confiança até falar com a chefia.

Com passagens pela IBM, Nokia Networks e Siemens, ele ressalta que o Brasil tem um grande índice de desenvolvimento nos negócios e que os executivos podem encontrar mercado de trabalho no exterior ou em empresas multinacionais.

?Não precisamos ter um sentimento de inferioridade. Temos uma boa formação e flexibilidade. Estamos em um processo de internacionalização e a experiência internacional será mais normal entre os brasileiros?, afirma Campelo.

Fonte: G1