FACES DO PIAUÍ - Piauiense, um povo com muita história para contar

Um resgate da memória histórica piauiense aponta para um Estado rico em personagens e que preserva seu passado

Por Juarez Oliveira e Sávia Barreto

A filha de um destemido chefe guerreiro se apaixona por um dos inimigos de seu pai. Essa paixão desperta a ira de um dos guerreiros aliados, que também é apaixonado pela linda jovem e não suporta o seu amor não correspondido. O guerreiro preterido resolve desmascarar o amor entre os dois jovens, o que ocasiona uma briga que leva os três integrantes desse triângulo à morte e em consequência disso, uma guerra de seis dias e sete noites entre os exércitos rivais. Essa história poderia se passar na Grécia Antiga, em Roma ou que qualquer outro lugar do mundo, mas ela é apenas uma das várias lendas indígenas do Piauí: A lenda da Zabelê.

Assim como na lenda de Zabelê, muitas outras histórias indígenas fazem parte do imaginário piauiense, das lendas, dos costumes, da culinária e das denominações de ruas, rios e cidades do Estado. A cultura indígena é responsável por boa parte da cultura piauiense. Mas quem eram, como viviam e como contribuíram para a cultura do povo do Piauí? Antes da formação do que hoje entendemos como Piauí, esse extenso território, que se localiza na margem direita do rio Parnaíba, era habitado por milhares de pessoas, de variadas identidades diferentes. Tremembés, Gurgueias, Pimenteiras, Acaroás, Amanajós e diversas outras tribos indígenas fizeram parte do território piauiense antes da chegada dos primeiros portugueses.

De acordo com o professor Antônio Fonseca Neto, docente da Universidade Federal do Piauí e presidente do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense, não se conhece por completo o modo como os indígenas piauienses viviam. Mas como eles não conheciam a agricultura, viviam de coletar os frutos da terra e de caçar animais para sobreviver. ?Sabe-se que eles se consideravam parte inseparável da natureza, daí que tinham por ela um sentido de pertencimento que falta aos habitantes do Piauí e do Brasil da atualidade?, acrescenta o professor.

Com o avanço da colonização em solo piauiense, os indígenas foram aprisionados, mortos e vendidos como escravos, o que ocasionou o desaparecimento de muitas das etnias que existiam antes da chegada dos colonizadores. Mas a memória desses povos continua viva em nosso dia-a-dia, como lembra Paulo Machado em sua obra: Terras e águas superficiais.



Professor Fonseca Neto conta que o modo de viver dos índios piauienses ainda não é conhecido por completo

?A memória desse viver foi herdada, em parte, e muitos piauienses de hoje descendem diretamente desses habitantes milenares do vale do rio Parnaíba?. Grande parte dos hábitos dos piauienses foi herdado dos índios: como na culinária, a tapioca e o cuscuz; o costume de dormir em rede e o hábito de tomar vários banhos por dia - mesmo que o clima piauiense não permita que seja de outra forma.

O PROCESSO DE COLONIZAÇÃO FOI INFLUENCIADO PELA LOCALIZAÇÃO DO ESTADO

Os territórios do que hoje entendemos como Piauí, foram disputados por quase um século por Pernambuco, Bahia e Maranhão, segundo o professor Fonseca Neto. ?Os antigos sertões do valão parnaibano foram bastante disputados, pelos estados vizinhos. Hoje podemos afirmar que a institucionalização do Piauí político-administrativo, que conhecemos hoje, teve origem nessas tensões, que fez com que Portugal pusesse ordem num ambiente de aberto conflito entre sesmeiros, posseiros e agentes metropolitanos?, explica.

O professor ainda lembra que a colonização deve ser entendida como a fixação e operação econômica, por exemplo, do apresamento dos indígenas e na implantação de currais e não somente no processo de dominação mais ampla por parte de Portugal, desde o século XVI.



A criação de gado teve importância central na ocupação e formação do território piauiense. Como o gado era criado em regime extensivo, eram necessárias a utilização de grandes áreas e com isso os territórios foram sendo ocupados. Mas Fonseca Neto conta que a principal atividade econômica do Piauí, a criação de gado, entrou em declínio pela falta de visão de futuro dos próprios criadores. ?Eles não adotavam novos métodos de organizar a criação e sua circulação negocial e nem de melhorar os rebanhos. Outras regiões produtoras ganharam vigor e passaram o Piauí para trás?.

PIAUÍ TEVE PAPEL IMPORTANTE NA BATALHA DO JENIPAPO

O Piauí também teve um papel proeminente no processo de independência do Brasil. Tanto pelo que significou a Batalha do Jenipapo, quanto pelo conjunto de ocorrências decisivas que tiveram como palco o território do Piauí e dos sertões do Maranhão. O professor lembra que o processo de independência deve ser analisado pelos 30 ou 40 anos de lutas que marcaram a história do Norte do então Reino, depois Império do Brasil, entre elas, a Insurreição balaia, com sensíveis implicações na vida piauiense.



Batalha do Jenipapo: piauienses lutaram com paus e pedras pela independência do Piauí

?Os principais personagens morreram no Jenipapo ? e não há ninguém mais importante que aqueles que dão sua própria vida para que outros possam viver um mundo melhor. São valorosos também os líderes exemplificados em Leonardo Castelo Branco, João Cândido de Deus, Manoel de Sousa Martins, Simplício Dias?, pontua.

Após receber o título de cidadão piauiense, em junho deste ano, o escritor e jornalista Laurentino Gomes afirmou que o ?esquecimento da história do Piauí é fruto de uma carga de preconceito?. Em sua obra ?1822?, ele dedica um capítulo sobre a Batalha do Jenipapo, ocorrida no município de Campo Maior, durante o processo de Independência do Brasil.



Laurentino Gomes ganhou título de cidadão piauiense ao destacar o Piauí na luta pela independência

O escritor relata a batalha onde camponeses lutaram com paus e pedras, pela independência do Brasil, contra as tropas do Major João José da Cunha Fidié, que era o comandante das tropas portuguesas no Piauí. Laurentino destaca que a Batalha do Jenipapo foi uma tragédia e ?não deve ser vista do ponto de vista estratégico. Eram camponeses com paus, pedras lutando contra tropas armadas, mas deve ser vista do seu ponto simbólico, que mostra que o processo de independência foi para além das margens do Ipiranga?.

PIAUIENSE ESTÁ MAIS PREOCUPADO EM PRESERVAR A HISTÓRIA

A historiografia lavrada em tempos recentes tem privilegiado mais temas que fatos da história do Piauí, por exemplo, a vida social do Estado nas primeiras décadas da República, no tempo do Estado Novo; o estudo de alguns períodos de governo e temas relacionados com a Educação e com o mundo do trabalho.

Fonseca Neto acredita que o piauiense está mais preocupado em preservar a sua história. ?Há uma superação ainda que lenta da autocontemplação daquela espécie de "indigente histórico" com que muitos se enxergam aqui na gleba de Miridan, Mandu, Bruenque e ZabeLê. Na Humanidade contemporânea, pertence ao Piauí os tesouros das gentes ancestrais marcados nas pedras capivaroas?, ressalta.

Ele vislumbra um dia em que será possível estudar mais isso que lições sobre Egito e faraós, Césares, hunos, Cartagos e Babilônias. ?A importância da preservação cultural e sua valorização identitária terão o papel, justamente, de evitar esse avassalamento colonizador que, apesar dos esforços, continua forte e emburrecedor?, acrescenta.



Piauiense, em São Raimundo Nonato: um povo com muita história para contar / Foto André Pessoa

Fotos: Divulgação

Fonte: Savia Barreto