Falta de responsabilidade dos pedestres é causa de acidentes no trânsito

Passos que beiram o perigo

Passos que beiram o perigo

Tudo apontava que seria uma quinta-feira como qualquer outra. Até que, na volta para casa, por volta das 22h, um episódio transformou a vida de Cristiele Pinheiro, de 34 anos, e de sua filha, que na época tinha 11 anos. Em janeiro de 2013, mais especificamente no dia 17, as duas seguiam em direção a parada de ônibus. Como de costume, Cristiele e sua filha esperaram o sinal ficar vermelho para, assim, poderem atravessar na faixa de pedestre. Após o sinal fechar, elas deram alguns passos, e ao se a​​​​​​​​​​​​​​​​proximarem do outro lado da avenida, foram surpreendidas por uma motocicleta.

O condutor da moto era um homem que estava visivelmente alcoolizado. Não se sabe até hoje se ele carrega algum peso, pelo menos de consciência, do acidente que causou. O que se sabe ao certo é que as feridas decorrentes do acidente ainda hoje não cicatrizaram na mãe e na filha. “Após o ocorrido fiquei em uma cadeira de rodas por um mês, o ferimento na minha perna sarou um mês depois. Já minha filha precisou de ortopedista e ainda hoje se queixa de dores no pé”, comenta Cristiele Pinheiro, intérprete de libras.

O relato de Cristiele é bem comum nos dias de hoje. Quem nunca ouviu alguém comentar: “Fulano foi atropelado há poucos minutos” ou “Um carro passou por cima de uma mulher na avenida”? Essas são situações corriqueiras. Em Teresina, de acordo com dados do relatório do primeiro trimestre de 2014 do Projeto Vida no Trânsito, foram registrados 28 (13,6%) acidentes envolvendo pedestres. Destes, 11 foram acidentes com vítimas fatais e 17 acidentes com vítimas em estado grave.

Ao se comparar com as estatísticas do mesmo período do ano passado, é possível perceber o quanto os números cresceram. No primeiro trimestre de 2013, os acidentes envolvendo pedestres chegou a 21 (10,8%). Desse total, 6 tiveram vítimas fatais e outras 15 tiveram vítimas em estado grave.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), até o ano passado, a média de atropelamentos em todo mundo foi de 270 mil por ano. O dado está disponível na publicação da Organização Mundial de Saúde (OMS), “Segurança do Pedestre: Manual de Segurança Viária para Gestores e Profissionais da Área”, de 2013. Além disso, o Manual revela que o atropelamento representa 22% das mortes no trânsito no planeta.

O excesso de velocidade, uso de álcool, utilização da via por pessoas idosas, deficientes, crianças e adolescentes, sem a companhia de um responsável adulto, distração e uso do telefone celular, pelo condutor, são as principais causas dos atropelamentos. Mas, em meio há tantas razões para que eles ocorram, eis que uma não é lembrada e/ou mencionada: a responsabilidades dos próprios pedestres.

O fato é que existem as normas de trânsito que regulamentam o comportamento do pedestre em relação aos veículos, e do motorista em relação aos pedestre, mas quando eles se cruzam nas vias, o que se vê, na maioria dos casos, é a falta de respeito.

“O pedestre é a peça mais frágil do trânsito, mas isso não significa que ele possa fazer o que quiser. Ele também tem que respeitar a legislação. Muitos motoristas também acham que podem tudo pelo tamanho de seus veículos, porém todo mundo deve fazer a sua parte”, afirma a gerente de Educação de Trânsito da Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito, Samyra Motta.

 

Legislação não é aplicada

De acordo com o Artigo 254 do Código de Trânsito Brasileiro, o pedestre que desobedecer a lei, também está cometendo uma infração, com multa em 50% do valor da infração de natureza leve. O CTB presume que o pedestre que não atravessar a via na faixa, passarela ou passagem subterrânea pode ser multado.

O pedestre que atravessar a via dentro das áreas de cruzamento, salvo quando houver sinalização para esse fim, também pode ser penalizado com multa. A legislação ainda estabelece que é proibido permanecer ou andar nas pistas de rolamento, exceto para cruzá-las onde for permitido.

Mas, embora essa penalidade esteja prevista em lei, na prática ela ainda não se aplica. Isso porque desde quando o CTB foi instituído, os órgãos que atuam no controle de trânsito aguardam uma regulamentação por parte do Contran (Conselho Nacional de Trânsito) sobre a forma como será aplicada a autuação de pedestres que descumpram as proibições estabelecidas na Lei Federal 9.503, de 23 de setembro de 1997. Sem ter uma cobrança da lei, o que se observa hoje são pedestres atravessando sem nenhuma segurança e sem seguir as leis de trânsito voltadas a eles. E ainda motoristas apressados que não dão a prioridade, prevista no Código de Trânsito Brasileiro, aos pedestres.

Mesmo todo mundo sendo pedestre em algum momento do dia, ele ainda é o principal alvo de desrespeito. Para a intérprete de libras, Cristiele Pinheiro, o que está faltando é um trabalho de conscientização voltado para a realidade das pessoas as quais já passaram por essa situação. “É necessário um choque de realidade mesmo e um maior apoio do Governo Federal no amparo as pessoas acidentadas, no que diz respeito ao Seguro Dpvat. Minha filha, por exemplo, nunca teve esse auxílio, que na verdade é irrisório comparada ao que se passou”, lamenta.


Falta de orientação não justifica desrespeito às normas de trânsito

Os pedestres, ao contrário do que acontece ou que deveria acontecer com os motoristas que circulam pelas vias das cidades, não passam por formação educacional para serem habilitados. Este fator poderia ser um dos motivos pelos quais ele não cumpre todas as normas de trânsito. Além disso, este pedestre pode ser uma criança, ou uma pessoa da terceira idade, que carrega consigo vários problemas. De acordo com a gerente de Educação de Trânsito da Strans, Samyra Motta, o pedestre não tendo um ensinamento da escola de trânsito, mas tem a educação do dia a dia.

“Todo mundo tem noção, a não ser que seja criança, de que não se deve atravessar avenida sem olhar para os dois lados”, coloca ao frisar que os pedestres são orientados através das campanhas educativas. “Com os pedestres, nosso trabalho é mais de informar, por exemplo, os direitos e deveres dos motoristas e deles, seja em campanhas nas escolas, na semana do trânsito ou em outras ações. Nestas ocasiões, são passadas todas as normas que eles devem seguir para salvarem suas vidas”, acrescenta Samyra.

Atualmente, os pedestres têm sido alvo de grande parte das ações de educação no trânsito realizadas em Teresina. Isso porque o número de acidentes envolvendo eles teve um crescimento considerável, sem falar que, na maioria dos casos, eles vêm a óbito. “Na maioria dos acidentes eles morrem, porque eles são o próprio para-choque”, completa a gerente de Educação de Trânsito da Strans.


Celular é distração perigosa para os pedestres

Hoje a “febre” são os celulares e smartphones. A presença destes itens na vida dos motoristas é tão grande que eles causam boa parte dos acidentes de trânsito. Mas não só os condutores de veículos e motocicletas estão correndo risco devido a distração causada pelo celular. Os pedestres também estão neste grupo e andam se distraindo ao enviar mensagens, acessar a internet, falar enquanto atravessam avenidas e até mesmo ao ouvir música com fones de ouvido.

Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), realizada com pedestres do Rio de Janeiro e de São Paulo, revelou que 66% dos pedestres atravessam a pista falando ao telefone celular ou digitando mensagem no aparelho. O resultado do estudo representa uma situação que ocorre em todo o país.

Em Teresina, não é difícil encontrar pessoas falando ao celular enquanto caminham, mesmo em vias movimentadas da cidade. Mesmo sendo uma situação perigosa, elas se arriscam. Quedima Silva, de 23 anos, não nega que sempre usa o celular, seja parada ou em movimento. Segundo ela, na maioria das vezes, não se aguenta de curiosidade e tem que ver as mensagens logo. “Olho mensagens e atendo ligações sempre. As vezes não é importante, mas tem casos de urgência, em que tenho que atender ou responder mensagens”, diz.

Dicas de Segurança para o pedestre

Não atravessar a via alcoolizado

Não brincar ou fazer ziguezague por entre os carros

Não ler enquanto anda

Não atravessar a via correndo sem olhar para os lados

Não andar olhando para trás

Não atravessar entre dois veículos que estejam estacionados

Deveres do pedestre

Parar no meio fio, na beira da calçada

Olhar para os dois lados antes de atravessar a rua

Aguardar a passagem do veículo ou que ele pare

Atravessar sempre olhando para os dois lados

Atravessar sempre andando sobre a faixa de segurança

É direito do pedestre

Usar faixas, calçadas e passarelas com segurança

Atravessa a visa sobre a faixa de segurança, após sinalizar pedindo passagem

Aguardar o sinal verde nos locais onde existem semáforos para pedestres

Ter a preferência de atravessar a via, mesmo em caso de mudança do semáforo, liberando em seguida a passagem dos veículos

FOTOS: MOISÉS SABA - JOSÉ ALVES FILHO - VICTOR GABRIEL

 

Fonte: Aline Damasceno