Funcionário da SDU cobra R$ 120,00 para medir lotes de invasão

Técnicos e funcionário da SDU Leste são visíveis no local

Um grupo de pessoas estava, na manhã deste domingo (07), reconhecendo seus terrenos em uma área de invasão nas margens da avenida Pardal, no Porto do Centro, na zona Leste de Teresina. Eles estavam reconhecendo o terreno particular que tinham invadido e, no meio deles, estavam a garçonete Cleice Caldas e sua mãe Maria das Mercedes, uma dona de casa que tinha comprado há muitos anos um terreno, de 20 metros por 30 metros no local, e quando soube da ocupação passou a tentar recuperar seu lote.

Invasão
Invasão

Ao seu lado estava o pedreiro João Alves da Silva, que invadiu o terreno para ter sua casa e ficar livre do pagamento de aluguel de R$ 320,00 mensais de um quarto na residência da dona de casa Laurita Maria do Nascimento.

Tanto Cleice Caldas como João Alves da Silva não tiveram dúvidas e aceitaram pagar R$ 120,00 para um funcionário da Superintendência de Desenvolvimento Urbano (SDU) Leste para fazer as medidas do terreno que cada um vai usar para a construção de suas casas.

“Foi ele (funcionário da SDU Leste) que fez as medidas”, falou Cleice Caldas. “Mas não é a Prefeitura, não. Nós pedimos para ele vir e pagamos por fora. Ele é da Prefeitura, mas fez por fora. Ele fez as medidas para ninguém entrar nos terrenos dos outros ocupantes, é por isso que todos os terrenos da invasão estão cercados com arame farpado”, declarou Laurita Maria do Nascimento, afirmando que comprou um lote em 1990 por 400 cruzeiros. Uma imobiliária vendeu os lotes em 1990, mas hoje as pessoas estão invadindo, aproveitando o período eleitoral.

“Estão cobrando R$ 120,00 de cada lote e só entregam o terreno invadido quando fazem a medição. A gente paga e eles vão embora e vêm de novo quando outras pessoas pagam. As pessoas que vêm medir os terrenos aqui dizem que são da Prefeitura de Teresina. Se é mentira, é deles. Eles chegam aqui sem nenhuma identificação, a gente paga R$ 120,00, mas é seguro porque é um aval da Prefeitura”, falou o invasor João Alves da Silva.

O jardineiro Francisco Siqueira disse que está na invasão de terrenos particulares desde o dia 11 de maio. Segundo ele, já apareceram dois donos, uma dona de casa e um procurador da Justiça, e diz que enquanto não aparecerem os outros donos, vai ficando com o terreno onde construiu sua casa.

“Aqui está mais seguro porque o homem da Prefeitura é que está medindo os terrenos que a gente está invadindo”, falou Francisco Siqueira. “Ele cobra R$ 120,00 e eu já falei com ele para medir o meu terreno”, confirmou Francisco Siqueira.

Lotes invadidos já estão cercados

No meio dos casebres que estão sendo erguidos na invasão do Cidade Leste se encontram envelopes de empresas de investigação geológica, de ensaios de infiltração de solos e, mais estranho, de orçamentos rasgados feitos por construtoras.

A presença de técnicos especializados e de funcionário da SDU Leste é visível. Toda a invasão é dividida geometricamente em lotes, com terrenos do mesmo tamanho, e os invasores, antes de construírem seus barracos, cercam os lotes invadidos em terrenos privados com arame farpado. Os invasores destruíram grandes árvores e uma das poucas que resistiu foi um ipê amarelo.

Invasão na Cidade Leste
Invasão na Cidade Leste

Ao contrário das invasões feitas por sem-tetos, a invasão da Cidade Leste estava completamente vazia no domingo. Nas outras invasões, os sem-moradia trabalham durante o sábado e domingo freneticamente porque trabalham para sobreviver nos dias úteis da semana. Na tarde de sábado e manhã de domingo não teve qualquer movimento de construção de casas e casebres. “É porque os invasores são evangélicos e foram para o culto”, falou uma das líderes da invasão, Gracinete do Rosário, às 11h50 de domingo.

Invasor diz que parlamentar prometeu abertura de avenida

Impressiona pela largura e extensão a avenida que a Prefeitura de Teresina construiu na invasão de terrenos particulares no Vale do Gavião, na zona Leste de Teresina. Os invasores não gostam de falar na interferência de políticos para explicar a abertura e construção de uma avenida pela Prefeitura Municipal em uma área ainda de conflito e sem terrenos legalizados.

Pedreiro e marceneiro Francisco de Sales Vieira constrói casa de pinho em terreno invadido no Vale do Gavião
Pedreiro e marceneiro Francisco de Sales Vieira constrói casa de pinho em terreno invadido no Vale do Gavião

Mas o invasor Joaquim Bernardo Ribeiro, de 58 anos, que antes de ocupar o terreno particular e construir um casebre no Vale do Gavião morava em Fortaleza (CE), não escondeu a origem do benefício. Ele informou que a vereadora de Teresina, Graça Amorim, se reuniu com os invasores e garantiu que tinha o apoio do prefeito Firmino Filho (PSDB) para construir a obra.

Segundo Joaquim Bernardo Ribeiro, no dia seguinte, quando voltou durante a tarde para sua casa, a obra da avenida já estava concluída. Joaquim Bernardo Ribeiro está na invasão há um ano, um mês e 15 dias.

“Eu quero ser claro. Ele (Firmino Filho) mandou abrir a avenida. A Graça Amorim nos ajudou, falou que quer ajudar a gente. Não é problema de votos. Ela quer ajudar nós todos que moramos aqui. Essa rua era só um pedaço estreito. Quando eu cheguei aqui de tarde, a avenida já estava feita aqui, foi rápido”, falou Joaquim Bernardo.

Ele acredita que neste período eleitoral é possível conseguir benefícios para invasão porque os políticos precisam de votos. “Como eles aproveitam da gente, a gente tem que se aproveitar deles depois. Eles precisam da gente agora e mais tarde a gente precisa deles por causa do trabalho”, concluiu Joaquim Bernardo Ribeiro, com os moradores da invasão gritando: “já chega, seu Joaquim”.

Na invasão do Vale do Gavião, o pedreiro e marceneiro Francisco de Sales Vieira pagou R$ 200,00 para trocar de lote de terreno particular invadido com outro invasor.

Ele falou que morava na invasão do Vale do Gavião em terreno mais acidentado e pagou os R$ 200,00 para ficar com um terreno menos acidentado e construir sua casa toda de pinho, que diz ter gasto R$ 1.250 mil.

Ele ocupa terreno de nove metros por 30 metros, que trocou pelo que tinha de oito metros por 15 metros mais R$ 200,00. “O terreno que fiquei é melhor”, falou o pedreiro e carpinteiro Francisco de Sales Vieira, que ganha R$ 1,2 mil por mês.

A Assessoria da vereadora Graça Amorim informou que as obras que a vereadora consegue para a comunidade são resultado de liberação de recursos de emendas parlamentares.


Repórter: Efrém Ribeiro


Fonte: Efrém Ribeiro