"Gosto de ser livre", explica idosa que mora há 10 anos sobre árvore, em RR

De bom humor, ela se incomoda apenas com o lixo jogado perto de "casa".

Uma rede, livros, sacolas com roupas e uma garrafa pet com água na temperatura ambiente. Assim é a "casa" na árvore em que a idosa Rosilene Moraes Costa, de 63 anos, mora há dez anos. O abrigo, construído com pedaços de madeira amarrados uns aos outros e coberto com uma lona, fica às margens do igarapé Caxangá, no bairro Caetano Filho, Centro de Boa Vista.

Ao ser questionada sobre o motivo pelo qual foi morar sobre uma árvore ela, que não tem filhos e nunca foi casada, explica que gosta de ficar sozinha e da liberdade. De acordo com Rosilene, antes de construir a "casa" na árvore, ela morava no município de Pacaraima, região Norte do estado.

A decisão de viver em Boa Vista surgiu da vontade de estudar. "Aqui consegui terminar o ensino médio. Não sou analfabeta", ressaltou ela, orgulhosa ao demonstrar que a escolha de morar na árvore não está relacionada à falta de conhecimento.

Ela disse que conhece os direitos que têm como idosa, incluindo ter uma moradia e condições básicas de saúde. No entanto, nos dez anos em que vive na árvore nunca teve acesso a eles.

"Já fui atrás, não adianta. O estatuto diz que o estado deve proteger os idosos. Mas, até agora, não tive nenhuma proteção. Nem aposentada sou. Me acomodei com essa situação. Mas, morar aqui não significa que não tenho nada. Tenho uma vida", considerou.

Para se alimentar, ela diz que recebe ajuda dos moradores do bairro. Algumas vezes, pede ajuda na rua. Rosilene faz a higiene pessoal em um banheiro de uma loja que fica no centro comercial de Boa Vista.

A idosa diz que não tem medo de morar sozinha e que não sente falta de serviços como água encanada ou energia elétrica. "A dignidade é algo que não nos compram. Não tenho condições de pagar um lugar para morar e também não vou sair por aí "sujando" meu nome, devendo às pessoas. Tenho respeito", ressaltou.

Apaixonada por ciências, Rosilene coleciona vários livros de biologia e anatomia, e diz que ama estudar o corpo humano. Segundo ela, essa é uma forma de se conhecer e saber um pouco sobre as doenças. "Sei de cada parte do corpo. Faço uma massagem relaxante como ninguém", disse.

Sua maior preocupação é alimentar os camaleões e os jacarés todos os dias.

"Eles são muito meus "amigos". O maiorzinho sempre ajuda o menorzinho e é assim que eu vivo: ajudando os animais que precisam de mim. É bonito ver eles me "chamando", "pedindo" comida", disse ela, ao lembrar que todos os dias à tarde os camaleões aparecem na sua "casa" para comer as frutas que ela consegue na rua.

Questionada sobre a possibilidade de deixar o local, ela disse que não descartaria a possibilidade. Rosilene afirma que tem uma vida tranquila e não teme nada. O maior desejo, segundo ela, era que fosse feita uma limpeza no local onde mora, pois há muito lixo acumulado nos arredores de sua "casa".

"O povo joga muito lixo. Queria que a prefeitura limpasse aqui e que os vizinhos não sujassem mais a área. Aparecem muitas moscas, sem contar que polui o igarapé. Não reclamo de nada", acrescentou Rosilene em meio à simplicidade que ela vive.





Fonte: G1