Brasileira é encontrada na Rússia após ficar 6 meses desaparecida

Brasileira é encontrada na Rússia após ficar 6 meses desaparecida

Interpol russa achou jovem de 23 anos após família denunciar caso à PF.

A jovem brasileira Ustina Chernishoff, 23 anos, foi encontrada pela Interpol russa em 27 de agosto deste ano após ficar desaparecida desde fevereiro de 2011, quando se comunicou com a família pela última vez, por carta. Ela saiu do Brasil em maio de 2007 para viver em uma comunidade religiosa na região de Krasnoyarsk, no Oeste da Sibéria, na Rússia. A jovem foi repatriada pelo governo brasileiro nesta terça-feira (6).

Ustina figurou no canal de Difusão Amarela da Interpol, destinado a pessoas desaparecidas, a partir de abril, a pedido da Polícia Federal (PF). A corporação foi procurada pela mãe da jovem, Vera Rijkoff, 63 anos, em abril deste ano, após receber a última carta da filha.

Os policiais russos encontraram Ustina em uma espécie de vilarejo de religiosos à moda antiga, vertente do catolicismo ortodoxo russo. Segundo a PF, só é possível chegar ao local de helicóptero ou de barco.

A mãe da jovem disse ao G1 que viu a filha pela última vez no fim de 2010. Ela vive na zona Rural de Primavera do Leste (MT), onde a filha voltou a morar com ela desde terça-feira. "Estou muito feliz em ver minha filha de novo e de poder dar um abraço nela. Ela está bem cansada da viagem, está sofrida e agora está descansando". A reportagem do G1 tentou conversar com a jovem, mas a família preferiu manter Ustina isolada para se recuperar do período em que ficou distante dos parentes.

Em Primavera do Leste há uma grande colônia de imigrantes russos. A mãe de Ustina está com a saúde debilitada e a família acredita que isso tenha ocorrido por causa da ausência de contato com a filha. Ela fala português com dificuldade e com um forte sotaque russo.

Lavagem cerebral

De acordo com relatos dos parentes da jovem, Ustina estava vivendo em completo isolamento. "Ela estava trabalhando no mato, na roça. Trabalhava para ganhar comida", disse a mãe.

Tatiana, 22 anos, irmã de Ustina, afirmou que ela estaria sofrendo uma espécie de pressão espiritual por parte dos religiosos ortodoxos russos. "Eles faziam lavagem cerebral com ela. Era todo dia, toda hora. Eles diziam que ela não podia fazer nada além do trabalho porque seria pecado. Colocavam muito medo nela. Aqui no Brasil eles [católicos ortodoxos russos] não são assim". A PF informou que Tatiana visitou a irmã na Rússia em agosto de 2010.

"Quero agradecer aos brasileiros, a todos que me ajudaram a trazer minha filha de volta para casa, e aos policiais federais, que investigaram e descobriram onde ela estava. Os brasileiros são gente boa", disse Vera.

Exploração sexual

Em depoimento prestado à Polícia Federal, em Cuiabá, a mãe de Ustina relatou que temia que a filha estivesse sendo explorada sexualmente na Rússia. Nas declarações, a mãe informou aos policiais que foi proibida de visitar a filha sozinha e que só conseguiu falar com Ustina na companhia de algum religioso.

"Ela prestou depoimento por teleconferência, com apoio da Embaixada da Rússia no Brasil. A mãe relatou que esteve com a filha em Krasno, em dezembro de 2010. No depoimento, ela afirmou que a filha estava estranha, com os documentos pessoais confiscados e o passaporte também. Ela também suspeitava que a filha pudesse estar sendo explorada sexualmente", disse a delegada Simone Azuaga, da coordenação de polícia criminal internacional da PF, que repassou informações ao G1 com base no relatório de investigação sobre o caso. Ela não participou da apuração do caso.

A Polícia Federal informou que não houve crime no Brasil e que por isso trata o caso como encerrado, mas apenas espera receber uma cópia do depoimento que Ustina prestou aos policiais russos. O objetivo é saber o que ela relatou às autoridades russas sobre as condições em que vivia na comunidade religiosa em Krasnoyarsk.

Saída do Brasil

Tatiana, irmã de Ustina, informou ao G1 que a família saiu do Brasil em 2007 para o Canadá. "Viajei com ela [Ustina], meu irmão Constantin, minha mãe e meu pai [Mark Yakov]. Meu irmão mais novo ficou no Brasil. Pouco tempo depois, minha mãe voltou para Mato Grosso para cuidar do meu irmão que ficou. Eu, minha irmã, meu irmão e meu pai seguimos para a Rússia", disse a jovem.

Segundo a PF, Ustina saiu do Brasil usando passaporte canadense, já que tem dupla cidadania. O registro de saída dela do país é de 9 de maio de 2007. No dia seguinte, ela e a família entraram nos Estados Unidos. Em um voo de Nova York, eles seguiram para a Rússia, onde chegaram em 11 de maio daquele ano.

Tatiana revelou que não suportou as condições que viveria na Rússia e voltou depois de 60 dias ao Brasil. "Meu irmão ficou com Ustina, mas voltou depois de seis meses, doente, com esquizofrenia, resultado das lavagens cerebrais que sofria na comunidade religiosa". Segundo a PF, antes de Ustina voltar ao Brasil, o pai deixou a filha sozinha na região de Krasnoyarsk e foi morar no Canadá.

Ameaças do pai

Após saber que a filha estava voltando ao Brasil, Yakov teria ligado duas vezes para a família, em Primavera do Leste. "Ele não gostou de saber que ela estava voltando para casa e fez ameaças. Ele ficou muito contrariado e disse que não gostou. Agora, não sabemos se ele virá para o Brasil atrás dela", disse Vera, mãe de Ustina.

Repatriação

De acordo com o Itamaraty, Ustina foi repatriada por desvalimento, que é caracterizado quando um cidadão brasileiro se encontra no exterior sem possibilidades, por parte dele ou de seus familiares no Brasil, de garantir sua própria manutenção no exterior. Neste caso, a autoridade consular se encarrega de providenciar abrigo e alimentação ao indivíduo até que se proceda o retorno ao Brasil.

A repatriação só é feita quando o cidadão deseja voltar ao país de origem, o que, segundo o Itamaraty, aconteceu com Ustina.

O Itamaraty informou ainda que Ustina não foi expulsa da Rússia, pois não cometeu crime naquele país. Segundo a PF, o visto de permanência da jovem brasileiro venceu em 10 de agosto de 2007.

Fonte: G1