Egito proíbe a rede de TV Al-Jazeera de operar em seu território

Egito proíbe a rede de TV Al-Jazeera de operar em seu território

Pode passar de 100 o número de mortos nas manifestações contra o governo.

O ministro da Informação do Egito, Anas El Feki, proibiu neste domingo (30) a rede de televisão Al-Jazeera de operar no país. O anúncio foi feito pela agência oficial Mena. A maior emissora de televisão do Qatar fazia uma ampla cobertura das manifestações contra o regime do presidente Hosni Mubarak. Ela transmitia em tempo real o movimentos nas ruas das principais cidades egípcias, Cairo, Alexandria e Suez, com comentários em inglês e árabe.

Em comunicado, a Al -Jazeera afirmou que a decisão das autoridades do Egito de proibir a cobertura das manifestações tem como objetivo "silenciar o povo egípcio".

Até agora, pelo menos 100 pessoas morreram no Egito desde o começo das manifestações contra o governo do presidente Hosni Mubarak, na última terça-feira (25). O número foi apurado pelas agências de notícias Reuters e France Presse com fontes de segurança e médicas. Ainda não há dados oficiais sobre as vítimas.

A embaixada dos Estados Unidos no país aconselhou neste domingo os americanos a deixar o Egito o mais rapidamente possível. "Os voos para os pontos de evacuação começarão a deixar o Egito na segunda-feira, 31 de janeiro", declarou a embaixada em comunicado.

Neste domingo, com o fim do toque de recolher, os manifestantes voltaram à praça principal da capital egípcia, Tahrir. O local é o centro de protestos na cidade. O domingo é o início da semana de trabalho no Egito, no entanto, muitas empresas, lojas e bancos estão fechados, especialmente por causa da onda de saques que assusta a população local.

Toque de recolher

Milhares de egípcios desobedeceram o toque de recolher estabelecido para este sábado e domingo (30), apesar de as Forças Armafdas terem exigido que os manifestantes obedecessem a ordem. Houve relatos de saques e habitantes de subúrbios ricos do Cairo relataram a chegada de veículos militares nestas localidades, com o objetivo de impedir novos ataques.

O toque de recolher começou às 16h (12h, em Brasília) e terminou às 8h de domingo (4h, em Brasília) no Cairo e nas cidades de Alexandria e Suez.

A brasileira Larissa Amorim, que mora nos arredores da capital, contou à BBC que o medo era muito grande na sua vizinhança devido aos saques que ocorriam na cidade. "Meu marido foi à rua juntamente de outros homens do bairro com facas e bastões para proteger as propriedades", contou ela, que é casada com um egípcio e mora no país desde 2007.

"Nós estamos muito nervosos, mas os moradores falaram que, por enquanto, não havia sinais de distúrbios na área."

A rede de TV CNN exibiu imagens de pessoas armadas nas ruas do Cairo. Portando rifles, pistolas e outros instrumentos mais simples, como bastões e até tubos de aspirador de pó, eles tentavam espantar grupos que circulam em motos, supostos saqueadores.

Prédios do governo também foram alvos de tentativas de invasão, que deixaram dezenas de feridos. Os militares disseram que vão agir "com firmeza" para restabelecer a ordem e impor o toque de recolher. Em uma prisão no Cairo, os detentos armaram uma tentativa de fuga em massa, que foi contida. Oito presos morreram.

A brasileira Rossana dos Santos, que mora em Alexandria, outra cidade sob toque de recolher, disse, em entrevista à Globonews (veja vídeo acima), que ali também há homens armados tentando proteger os edifícios.

Ofensiva política

Ao mesmo tempo em que os confrontos entre manifestantes egípcios e a polícia voltavam a ganhar caráter violento, o governo do Egito lançou ofensiva política. O ex-ministro da Aviação Civil, Ahmad Shafic, foi confirmado pelo governo como primeiro-ministro. Shafic, que é um ex-comandante da Força Aérea, será o resposável por formar o novo gabinete de ministros, que foi dissolvido neste sábado, em consequência às ações dos opositores ao atual governo do presidente Hosni Mubarak .

Depois da oficialização da estratégia anunciada nesta sexta-feira, o presidente egípcio, que não escolheu um vice-presidente desde sua posse em 1981, nomeou o seu chefe de inteligência e confidente Omar Suleiman, para o cargo. Dessa forma, o presidente garante aliados militares no novo governo a ser formado.

Hosni Mubarak recusa-se a deixar a presidência, apesar da pressão da população. Como reforço à posição de Mubarak, o Parlamento egípcio anunciou neste sábado que não tem planos para antecipar as eleições.

O presidente mandou também neste sábado soldados e tanques para a capital Cairo e para outras cidades. O envio de tropas do exército para ajudar a polícia mostrou que Mubarak ainda tem o apoio dos militares, a força mais poderosa do país. Porém, qualquer mudança de opinião dos generais poderá selar o seu destino.

Líder espiritual muçulmano defende renúncia

A tensão pode aumentar ainda mais com as declarações do xeque Yusef Al Qardaui a favor da renúncia do presidente Hosni Mubarak. O egípcio Yusef Al Qardaui é considerado o pregador mais influente do mundo árabe. Em entrevista à televisão Al Jazeera, o líder afirmou que a renúncia poderia resolver a crise no Egito.

"Mubarak, tenha misericórdia sobre essas pessoas e fuja antes que a destruição se estenda no Egito", afirmou o teólogo sunita que lidera a União Mundial de Sábios Muçulmanos e é um dos líderes espirituais da Irmandade Muçulmana no mundo.

Fonte: g1, www.g1.com.br