Lares de idosos nos EUA inovam ao permitir sexo entre residentes

40 dos 970 residentes estão envolvidos em um relacionamento

Quando Audrey Davison conheceu alguém especial em sua residência de idosos, ela quis amar seu homem.

Suas enfermeiras e cuidadoras no Hebrew Home [Lar Judeu], em Riverdale, Nova York, não tentaram impedi-la. Pelo contrário, ela pôde ficar no quarto de seu namorado com a porta fechada, de acordo com a "política de expressão sexual" adotada nesse lar no Bronx.

Uma cuidadora fez até uma placa "Não perturbe" para pendurar do lado de fora."Eu gostei, e ele foi um amante muito bom", disse Davison, 85.

"Isso fazia parte de nossa proximidade: tocar fisicamente e beijar." Davison é uma de muitos americanos idosos que têm relações íntimas depois dos 70 e 80 anos, em alguns casos com a ajuda de Viagra e de atitudes sociais mais tolerantes quanto ao sexo fora do casamento.

Esses namorados na terceira idade desafiam as noções tradicionais do envelhecimento e, em alguns casos, criam problemas logísticos e jurídicos para suas famílias, cuidadores e as instituições que chamam de sua casa.

Os lares de idosos em Nova York e em todo o país cada vez mais abordam a questão como parte de uma mudança mais ampla de cuidados institucionais para individualizados, segundo operadores de lares e grupos setoriais. Muitos já afrouxaram seus programas diários para dar aos moradores mais opção sobre, por exemplo, a hora de tomar banho ou o cardápio do jantar.

O próximo passo para algumas é permitir que os residentes decidam se querem fazer sexo e oferecer ajuda aos que quiserem.

"O sexo é um fator essencial de quem somos como pessoas", disse Marguerite McLaughlin, diretora sênior de melhora da qualidade na Associação Americana de Cuidados de Saúde, a maior organização setorial de lares de idosos, representando quase 10 mil deles.O Hebrew Home intensificou esforços para ajudar os moradores a procurar relacionamentos. Membros da equipe organizaram uma "happy hour" e uma formatura de idosos e iniciaram um serviço de namoro chamado de "Namoro dos Avós".

Atualmente, cerca de 40 dos 970 residentes estão envolvidos em um relacionamento.Muitos outros estão prontos para um. Beverly Herzog, 88, viúva, disse que sentia falta de alguém na sua cama. Seu marido, Bernard, costumava se deitar na cama com o braço estendido. Fique na posição, dizia a ela. Beverly se enrolava ao lado dele.

"Detesto entrar numa cama fria", disse. "Acho que ninguém deve ficar sozinho."Mas a intimidade física nos lares de idosos também levanta questões sobre se alguns moradores podem consentir com o sexo. Henry Rayhons, um ex-deputado estadual de Iowa, foi acusado de agressão sexual em 2014 depois de fazer sexo com sua mulher, que tinha doença de Alzheimer avançada e estava em um lar.  O júri o considerou inocente.

O caso ajudou a ressaltar a falta de diretrizes claras para muitos lares de idosos: somente alguns, como o Hebrew Home, têmuma política formal nesse sentido. A doutora Cheryl Phillips, vice-presidente de políticas públicas e serviços de saúde na LeadingAge, um grupo setorial que representa mais de 6.000 provedores de serviços a idosos sem fins lucrativos, incluindo cerca de 2.000 residências de idosos, disse que o sexo seria um assunto mais frequente com a chegada aos lares da geração "baby boom".

"Eles fazem sexo --isso faz parte de sua personalidade--, e só porque estão se mudando para um lar de idosos não quer dizer que vão parar", disse ela.

Daniel Reingold, presidente e executivo-chefe da RiverSpring Health, que opera o Hebrew Home, disse que envelhecer tem tudo a ver com perdas: da visão, da audição, da mobilidade e até dos amigos. Por que o contato íntimo também deve terminar?

"Nós não perdemos o prazer que vem do toque físico", disse ele. "Se a intimidade levar a um relacionamento sexual, vamos encarar isso como adultos."

O lar criou uma política de expressão sexual em 1995, depois que uma enfermeira encontrou dois residentes fazendo sexo. Quando a enfermeira perguntou a Reingold o que devia fazer, ele lhe disse: "Saia nas pontas dos pés e feche a porta".Antes de adotar essa política, o Hebrew Home pesquisou centenas de lares em Nova York e outros lugares e descobriu que "a maioria deles negava que seus moradores tivessem relacionamentos sexuais", lembrou Reingold.

Mais tarde, ele falou sobre as conclusões em uma conferência do setor, perguntando a uma plateia de mais de 200 pessoas se havia sexo em seus lares. Os únicos que levantaram as mãos foram três enfermeiros na primeira fila, disse ele. Hoje, a política de expressão sexual está publicada no site da instituição e é discutida com os funcionários. Reingold disse que ela se destina não apenas a incentivar a intimidade entre os que quiserem, mas também a proteger outros de situações indesejadas e definir diretrizes para os funcionários. Por exemplo, a política estipula que até os moradores com Alzheimer podem consentir com uma relação sexual sob certas circunstâncias.

O lar nunca foi processado por causa dessa política, entretanto, segundo Reingold, algumas famílias objetaram a esses relacionamentos, especialmente se um dos moradores ainda for casado com alguém que não está no lar.Os relacionamentos também significam mais dramas para os funcionários, que tentam acompanhar quem está em um e quem não está. A sala de jantar pode ser um campo minado. Às vezes um membro de um casal fica enciumado quando o outro dá atenção a outra pessoa.

Outros casais são amorosos demais, provocando pedidos de "vão fazer isso no quarto".Davison, que é divorciada, disse que a última coisa que esperava era encontrar o amor de sua vida em um lar de idosos. Ela conheceu Leonard Moche no elevador. Ele era engraçado e a fez rir. Ela mudou-se para o andar dele para ficar mais perto.Davison disse que eles planejavam se casar, mas Moche adoeceu subitamente e morreu este ano. Ela ainda está de luto. "Penso nele como meu segundo marido", disse ela. "Foi ótimo e inesperado, maravilhoso enquanto durou."

Fonte: UOL