‘Narcos’ e séries sobre Pablo Escobar causam polêmicas na Colômbia

Ele teme que ver a série possa lhe fazer reviver momentos.

O cientista político colombiano Gonzalo Rojas não viu e não gostou de Narcos, série da Netflix dirigida pelo brasileiro José Padilha e que tem o ator Wagner Moura no papel principal, o do narcotraficante Pablo Escobar.



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Ele teme que ver a série possa lhe fazer reviver o momento em que, 26 anos atrás, ele foi chamado para fora da sala na escola para receber a trágica notícia: seu pai havia sofrido um "acidente". "Quando minha mãe veio me buscar chorando entendi que era grave. Mas foi só quando vi as imagens do avião na TV que a ficha caiu", lembra.


O pai de Gonzalo foi um dos 107 passageiros que morreram na explosão do avião da companhia aérea Avianca que ia de Bogotá para Cali, em novembro de 1989. O atentado --dramatizado em Narcos-- foi atribuído ao cartel de Medellín, chefiado por Escobar.


As críticas desse cientista político à série da Netflix, porém, se inserem em um debate mais amplo que ganha força na Colômbia, alimentado pela popularidade de filmes e séries que têm como tema a ação de cartéis da droga ou outros grupos violentos colombianos.


Para apimentar a discussão, desde 2012 a Colômbia dá incentivos financeiros a produtoras que decidirem rodar filmes no país --o que significa que algumas dessas produções, entre elas Narcos, também recebem subsídios.

De um lado há quem acredite que a Colômbia precisa "aceitar" seu passado, que qualquer interferência em produções culturais que abordem esses temas cheira a "censura" e que lembrar os anos de violência extrema é uma forma de garantir que eles não se repitam.

Do outro, estão aqueles que --como Gonzalo e outras vítimas de grupos armados-- criticam essas produções audiovisuais por "explorarem" um passado doloroso para muitos colombianos com "objetivos comerciais".

Na visão desses críticos, esse tipo de trabalho não só seria prejudicial à imagem do país como também teria um efeito negativo na formação de jovens colombianos, ao glorificar a vida de narcotraficantes e outros criminosos.

Outras séries

Produtores de fato parecem ter redescoberto Escobar nos últimos anos.

Além de Narcos, a série Pablo Escobar, O Patrão do Mal, produzida pela rede de TV colombiana Caracol em 2012, fez grande sucesso na Colômbia e países vizinhos. E neste ano se tornou a primeira série latino-americana a chegar ao iTunes (a loja de filmes e músicas digitais da Apple) nos EUA e Canadá. No Brasil, é transmitida pela Netflix.

No ano passado, foi lançado também Escobar: Paraíso Perdido, que conta a história de um surfista que se apaixona por uma sobrinha do narcotraficante, interpretado pelo porto-riquenho Benício del Toro.

Neste ano, está sendo rodado na Colômbia o filme Mena, que terá Tom Cruise no papel de Barry Seal, piloto que trabalhou para o chefão do cartel de Medellín. E para 2017 está previsto o lançamento de El Patrón, com o colombiano John Leguizamo no papel de Escobar.

"A questão é que a grande maioria dos filmes e séries inspirados nesse passado violento da Colômbia nunca conta as histórias ou reflete o ponto de vista das vítimas", opina Gonzalo, que hoje dirige a Fundação Colômbia com Memória, voltada à assistência a vítimas do conflito armado e do narcoterrorismo.

"O foco é sempre o traficante, que acaba engrandecido. O espectador chega a torcer por ele. Além disso, tal como são contadas, essas histórias enaltecem a busca por dinheiro e poder, valores distorcidos e prejudiciais à sociedade."

Nas ruas de Bogotá as opiniões se dividem.

Para o sociólogo Luis Enrique Martínez, por exemplo, o grande problema dessas séries é a influência que elas podem ter sobre "a formação do imaginário de jovens e adolescentes", principalmente aqueles em situação vulnerável.

"Elas não mostram o estrago que esses personagens fizeram ao país e podem dar a eles uma ideia errada do que implica ser narcotraficante", opina Martínez.

Já o advogado Manuel Barragan, que viveu no Brasil e se diz fã de Wagner Moura, acredita que a Colômbia precisa "aprender a conviver com a realidade" de que produtores de filmes estrangeiros e colombianos vão se interessar e fazer filmes sobre esses temas.

E para ele, lembrar esse passado violento, seja com filmes de ficção ou documentários, é até uma forma de garantir que ele não se repita.

Incentivos

Um dos focos das críticas é o fato de algumas dessas produções terem recebido incentivos ou algum tipo de colaboração do governo colombiano para serem rodadas no país.

Narcos e Mena, por exemplo, contaram com subsídios previstos na chamada Lei "Filmación Colômbia", de 2012.

O dispositivo garante um reembolso para as produtoras de até 40% de seus custos com serviços cinematográficos e 20% dos gastos com hotelaria, transportes e alimentação. Há alguns requisitos relativos aos investimentos feitos no país e, no caso das séries, os incentivos são restritos aos episódios-piloto.

O objetivo é impulsionar o número de grandes produções audiovisuais na Colômbia e fortalecer sua indústria cinematográfica, explica Cláudia Triana, diretora da agência Proimagenes Colômbia, que administra o fundo que financia esses incentivos.

Aos que criticam o apoio financeiro a filmes que abordam a questão do narcotráfico, Claudia argumenta que os mesmos filmes sobre Escobar poderiam ser feitos de qualquer parte do mundo se não houvesse essa lei --sem que nenhum emprego fosse gerado na Colômbia. Escobar, Paraíso Perdido, com Del Toro, por exemplo, foi filmado no Panamá.

"Para começar, neste país não há censura e não cabe ao governo nem a ninguém opinar sobre o conteúdo dos filmes (que recebem ajuda). Imagine que absurdo seria se decidíssemos financiar apenas filmes que retratassem a Colômbia como um paraíso repleto de borboletas amarelas", diz Triana.

"Além disso, é preciso ressaltar que esses filmes e séries são obra de ficção, não documentários. Somos a favor que se faça todo tipo de filme. E, com a lei, estamos fortalecendo uma indústria que gera recursos para o país, além de milhares de postos de trabalho e que, uma vez fortalecida, vai poder fazer produções sobre uma variedade cada vez maior de temas."

Gonzalo Rojas admite que pedir que o governo "regule as temáticas" sobre as quais se pode filmar na Colômbia de fato "poderia configurar censura".

"Acho que o ideal seria que as próprias produtoras fizessem um trabalho de investigação mais aprofundado, que as ajudasse a refletir o que a violência de Escobar significou para as vítimas", diz ele.

"Mas talvez fosse interessante um requisito estabelecendo que as produtoras se reunissem com as vítimas (para receber o incentivo governamental)", opina.

Imagem no exterior

Outra adepta da linha crítica é a economista e ex-primeira-dama colombiana Ana Milena Muñoz de Gavíria, interpretada em Narcos pela atriz Vera Mercado.

Recentemente, ela defendeu em coluna no jornal El Espectador que a série da Netflix teria um impacto negativo na imagem de seu país no exterior.

"A imagem da Colômbia no exterior melhorou substancialmente desde os tempos violentos. Mas o narcotráfico ainda é a referência de muitos estrangeiros que visitaram (neste mês) a ARTBO (Feira Internacional de Arte de Bogotá). (Alguns) comentaram que viram Narcos para ter uma ideia geral da Colômbia. Que tristeza que seja esta a referência", escreveu.

"A verdade é que considero a série prejudicial, especialmente quando essa parte da nossa história já vinha se diluindo no âmbito internacional."

A deputada colombiana Clara Rojas concorda.

"Depois que se fez um esforço enorme (para melhorar a imagem da Colômbia), o que sai do país são esses filmes de narcotraficantes. (Isso) me dói como colombiana, porque eu também viajo muito, e às vezes chego a Espanha e México e é (isso) que as pessoas estão vendo. O que eu recebo do Brasil é futebol e alegria, coisas lindas. Obviamente, vocês também têm as suas histórias (de violência), mas isso não é o que sai em um primeiro momento para o mundo", disse Clara à BBC Brasil.

Refém da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) por seis anos, Clara Rojas também passou pela experiência de ter sua vida transportada para as telonas.

Uma produtora franco-espanhola fez o filme Operação E, sobre a história do filho que Clara teve em cativeiro. Emmanuel, hoje com 11 anos, foi entregue pelas Farc a um camponês quando tinha apenas oito meses e a ex-refém conseguiu reencontrá-lo em um orfanato, ao ser libertada, em 2008.

O filme estreou na Europa em 2012, mas a deputada --que então dirigia uma organização que apoiava vítimas de sequestros-- conseguiu uma decisão judicial preliminar proibindo sua exibição na Colômbia. A decisão levantou um debate sobre censura no país e acabou sendo derrubada.

"Fico muito preocupada com a imagem de meu filho, porque nós vivemos na Colômbia, ele vai ao colégio e pode sofrer bullying", justifica Clara, que também critica o fato de o governo colombiano ter emprestado helicópteros do Exército para viabilizar a gravação do filme.

"É claro que é bom que os produtores de cinema venham para a Colômbia e que possamos desenvolver uma indústria cinematográfica forte. Todos queremos isso. Mas há um ponto que precisa ser afinado que é (como) as vítimas e sua interpretação (serão refletidas) nesses trabalhos. E como será o manejo de suas imagens e de seus nomes. Às vezes, vemos filmes inspirados na vida real que, nos créditos, dizem 'esses nomes não correspondem à realidade porque queremos respeitar a identidade das pessoas', por exemplo. Esse pode ser (um recurso) interessante."

Fonte: Com informações do Uol