Professora negra recebe medalha e diz:'sou prova de um novo Brasil'

Luana foi empregada doméstica e conseguiu se formar professora

A professora Luana Tolentino, foi uma das homenageadas na 65ª solenidade de entrega da Medalha da Inconfidência, a maior honraria concedida por Minas Gerais. Ela foi uma das grandes estrela do evento sendo bastante assediada para tirar fotos com os presentes.

Luana Tolentinio trabalhou dos 13 aos 18 anos como empregada doméstica e atualmente  é professora de História, ela abre alas em uma solenidade protagonizada em sua maioria por desembargadores, médicos, empresários, militares, políticos e diplomatas. "É uma vitória muito grande. É um reconhecimento da mulher negra na minha pessoa. Então, eu falo que essa medalha não é só minha, é dessa geração que, com mais oportunidades, tem conquistado o acesso a direitos e a políticas públicas ao largo desses últimos 12 anos", desabafou.


Luana Tolentino é homenageada com Medalha da Inconfidência
Luana Tolentino é homenageada com Medalha da Inconfidência


Todo ano no dia 21 de abril ocorre a entrega da Medalha da Inconfidência em Ouro Preto, data em que se lembra a morte de Tiradentes. Os homenageados com a medalha são escolhidos através de um conselho composto por representantes dos poderes executivo e legislativo do estado e de Ouro Preto. Nesta edição, 147 pessoas e entidades receberam as três designações: Grande Medalha, Medalha de Honra e Medalha da Inconfidência. Além deles, o ex-presidente do Uruguai, José Mujica, recebeu o Grande Colar, a honraria máxima.

No meio dos agraciados estava Luana que se destacava pela sua origem humil, mas também por questõe3s de raça e gênero. "Geralmente, quem costuma ganhar essa medalha são juristas, empresários, políticos e, em sua grande maioria, homens brancos. Ou seja, a minha figura destoa de tudo isso. Eu venho de família humilde, sou negra e sou mulher. Eu sou a prova de que um outro Brasil vem sendo construído com novos protagonistas", disse.

Entre os que receberam a medalha, dois terços eram políticos, policiais, militares ou profissionais do meio jurídico, como desembargadores, juízes, promotores, procuradores e advogados. Além destes, ainda havia médicos, diplomatas e religiosos. Dividiram espaço com Luana nomes como os do ministro da Justiça, Eugênio Aragão, e dos deputados federais Reginaldo Lopes (PT) e Jô Moraes (PCdoB).

Homenagem

A lista de agraciados traz, além de Luana, mais uma historiadora que, no entanto, recebeu a honraria in memorian: Inês Etienne Romeu. Mineira de Pouso Alegre (MG), ela foi a única sobrevivente da Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), local onde diversos presos políticos foram torturados e executados clandestinamente durante a ditadura militar. Dentro de seis dias, se completará um ano do falecimento de Inês Etienne Romeu, que tinha 72 anos.

Professora do ensino fundamental na Escola Municipal Bárbara Maria Salomão, Luana também encontrou na cerimônia outros 12 docentes. A maioria, porém, atua no ensino superior. Negros como ela eram poucos, geralmente aqueles que também superaram as mais variadas adversidades.

Como Arthur de Oliveira Abrantes, de Paracatu (MG), que sempre estudou em escola pública e agora, aos 18 anos, foi aceito em sete universidades dos Estados Unidos e se prepara para ingressar em Harvard, onde receberá uma bolsa de estudos. Ou como o rapper Flávio Renegado, que saiu da periferia de Belo Horizonte no bairro Alto Vera Cruz, para fazer sucesso por meio da música.

Quando entrou na universidade há 12 anos, Luana Tolentino não contou com a ajuda de nenhum programa social voltado para a educação. "Na minha época, ainda não havia o ProUni e o Fies não tinha as características que têm hoje. Você precisava devolver um valor muito alto". Para dar conta da mensalidade do Centro Universitário Uni-BH, ela arrumou um emprego no setor comercial. Hoje, no entanto, ela vê um Brasil mais maduro para permitir que pessoas como ela obtenham sucesso. "Há mais oportunidades", confessa.

No entanto, ela se preocupa com o futuro do país e, historiadora, não hesita em fazer um diagnóstico da conjuntura atual. "É duro ver um processo democrático ruir. É isso que está acontecendo. Nós temos uma presidenta que recebeu 54 milhões de votos. Podem usar diversos subterfúgios, falar sobre corrupção, mas na verdade é um golpe, não tem outro nome".

Fonte: Brasil Post