Morre no Rio o produtor e jornalista Ezequiel Neves, o ""descobridor" de Cazuza""

Zeca morreu exatamente na data de aniversário de 20 anos da morte de seu pupilo

Morreu no Rio, esta quarta-feira, o produtor musical e jornalista Ezequiel Neves, aos 74 anos. Ele estava internado desde janeiro na Clínica São Vicente, na Gávea. Incansável festeiro, sempre a mil por hora, Zeca, como era chamado pelos mais próximos, conviveu nos últimos cinco anos com um tumor benigno no cérebro, enfisema e cirrose. Seu corpo será cremado no Rio e as cinzas levadas para Belo Horizonte, sua cidade natal. A cerimônia de velório, ainda sem horário previsto, será fechada para amigos e parentes.

"Descobridor" de Cazuza e produtor do Barão Vermelho, Zeca morreu exatamente na data de aniversário de 20 anos da morte de seu pupilo. Juntos eles escreveram clássicos como "Codinome beija-flor" e "Exagerado". Cazuza faleceu em decorrência da Aids, 7 de julho de 1990.

Amigos e músicos lamentam morte de Ezequiel Neves

Com seu humor ferino, Ezequiel Neves - chamado no anos 70 de Zeca Jagger - fez "novo jornalismo" muito antes de o gênero ser reconhecido. E em quase duas décadas de atuação no setor, passando pela grande imprensa (revistas "Playboy" e "Pop" na Editora Abril, "Jornal da Tarde", de São Paulo) e pela alternativa (a edição pirata da "Rolling Stone", as revistas "Som Três" e "Música do Planeta Terra", o "Jornal da Música"), fez escola, inspirando dezenas de jovens a ingressarem no jornalismo cultural. Carreira que o próprio tratou de abandonar, trocando-a pela de produtor musical (e eventual letrista) a partir do início dos anos 1980, quando apostou no talento bruto do Barão Vermelho.

Foi devido à insistência de Ezequiel que João Araújo, então presidente da gravadora Som Livre, concordou em lançar o grupo que tinha como cantor e letrista seu filho, Cazuza, ao lado de Roberto Frejat (guitarra e composições), Guto Goffi (bateria), Dé Palmeira (baixo) e Maurício Barros (teclados).

Além de ter coproduzido os discos do Barão e os da carreira solo de Cazuza, foi o coautor de clássicos do rock brasileiro como "Por que a gente é assim?", "Codinome beija-flor" e "Exagerado". No período em que atuou como produtor da Som Livre, Ezequiel também trabalhou com ícones da MPB como Elizeth Cardoso e Cauby Peixoto. Ele ainda colaborou em programas musicais da Rede Globo e foi corroteirista do filme "Rio Babilônia", dirigido por Neville de Almeida, de quem era amigo desde a juventude, em Belo Horizonte.

Nascido em Belo Horizonte, em 30 de novembro de 1935, filho de um cientista, cedo ele se envolveu na vida cultural da capital mineira.

Ezequiel Neves com o Barão Vermelho em foto de 1983/ Divulgação

Entre 1956 e 58, Ezequiel publicou alguns desses contos na revista literária "Complemento", que coeditou junto ao escritor Silviano Santiago e o escritor Ivan Ângelo. Ele também frequentava assiduamente o Clube de Cinema; o Teatro Experimental, dirigido por Carlos Kroeber; e o grupo de dança de Klaus e Angel Vianna. Entre os jovens artistas e intelectuais de Belo Horizonte circulavam ainda o escritor Affonso Romano de Sant"Anna, os atores Jonas Bloch e Rodrigo Santiago e o hoje deputado federal Fernando Gabeira.

Graças ao teatro, em 1965, Ezequiel Neves trocou Belo Horizonte por São Paulo, após atuar com seu grupo mineiro numa montagem de "Sonhos de uma noite de verão", de Shakespeare. Em seguida, integrado ao elenco do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), traballhou com Cacilda Becker e participou de uma montagem de "Zoo story", de Edward Albee. Ainda em São Paulo, foi para o grupo de Antunes Filho, em "A megera domada", e, depois, atuou em "Julio Cesar" ao lado de Jardel Filho.

Apesar do talento para o teatro, a paixão pela música bateu mais alto. Em fins de 1960, o disco de estreia do grupo The Doors converteu-o ao rock - até então, ele só ouvia jazz, de Billie Holiday e Frank Sinatra a Miles Davis, e artistas brasileiros como Elizeth Cardoso e João Gilberto, paixões que a acompanharam até o fim - e, aos poucos, Ezequiel trocou o palco pelas redações, virando crítico de música do recém-criado "Jornal da Tarde" (então o veículo vespertino do "Estado de São Paulo"). Em entrevista ao GLOBO, ao completar 60 anos, Ezequiel Neves relembrou essa passagem:

- Tomei um ácido lisérgico e descobri que, se eu não conseguia ser eu mesmo, não tinha porquê tentar ser outros personagens. A experiência aconteceu em 1969, ainda tentei ficar no palco até 1970, quando fui para Londres fazer teatro. Foram três meses de desbunde. Na volta, ainda fiz "A última peça", de José Vicente. Um espetáculo totalmente anárquico, todo mundo fumava maconha e tomava ácido.

Em 1971, nova mudança. Ezequiel aceitou o convite de Luiz Carlos Maciel e veio para o Rio para coeditar a versão brasileira, e pirata (sem licença dos donos nos EUA) da revista "Rolling Stone", que durou um ano. Em seguida, ao lado de Ana Maria Bahiana e Tárik de Souza, criou a revista "Rock: A história e a glória" (que, em 1976, daria lugar ao "Jornal de Música"). É desse período os pseudônimos Zeca Jagger (homenagem ao seu maior ídolo, Mick Jagger, dos Rolling Stones), Zeca Zimmerman (este, o sobrenome de batismo de Bob Dylan) e Angela Dust.

Em 2008, Ezequiel Neves lançou, ao lado de Guto Goffi e o jornalista Rodrigo Pinto, o livro "Barão Vermelho - Por que a gente é assim?".

Fonte: O Globo, www.oglobo.com.br