Presença feminina ainda é baixa no mercado tecnológico, diz IBGE

Presença feminina ainda é baixa no mercado tecnológico, diz IBGE

Das dez maiores companhias do setor, apenas duas são comandadas por mulheres: Virginia M. Rometty, da IBM, e Meg Whitman, da Hewlett-Packard

RIO - Bill Gates, Tim Cook, Mark Zuckerberg, Lary Page? A lista executivos de empresas de Tecnologia da Informação (TI) é extensa, mas as executivas são raras. Das dez maiores companhias do setor, apenas duas são comandadas por mulheres: Virginia M. Rometty, da IBM, e Meg Whitman, da Hewlett-Packard. A presença feminina é baixa não apenas nos altos escalões. No Brasil, as funcionárias representam apenas um quarto das 520 mil pessoas que atuam no setor, segundo o Censo 2010, último levantamento do IBGE com informações detalhadas por atividade.

- É visual. Se você for em qualquer companhia de TI vai perceber que os homens são ampla maioria. As mulheres se concentram nas áreas de apoio, como Recursos Humanos e Financeiro, mas não na área fim - afirma Sergio Sgobbi, diretor de RH e Competitividade da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação (Brascomm).

Para atuar em ambientes majoritariamente masculinos, as mulheres enfrentam barreiras que vão desde simples dificuldades de comunicação à remuneração. O Censo aponta que em 2010 o salário médio das mulheres no setor de TI era 34% menor que o dos homens. Nos cargos de chefia a situação era pior: eles ganhavam em média R$ 5.478 e elas, R$ 1.909, 65% menos.

Gerente de TI em uma administradora de shoppings centers, Alcione Mendes de Almeida conta que sofreu com preconceito, principalmente no início da carreira. A principal barreira é provar que as mulheres têm as mesmas competências técnicas que os homens.

- Quando você chega para uma reunião numa mesa cheia de homens, você percebe que, no primeiro momento, eles não te dão crédito - afirma. - Você é julgada apenas por ser mulher.

Ao longo dos seus 15 anos de carreira, Alcione teve que se adaptar ao ambiente para conseguir superar as dificuldades e hoje diz não se sentir mais incomodada. As mudanças foram na forma de vestir, com o uso de roupas mais sóbrias e formais, e até no tom da voz, que ficou mais grave para impor respeito.

Se a presença de mulheres no mercado de trabalho é pequena, a tendência é que a situação não se altere no futuro próximo. Nos bancos das faculdades elas representam apenas 15% do alunato das carreiras de TI, segundo dados do Censo da Educação Superior de 2012. Camila Achutti, de 22 anos, foi a única formanda da última turma de Ciência da Computação da USP. Na turma dela, entraram outras duas mulheres, mas uma abandonou o curso e outra foi morar fora do país por um tempo e atrasou os estudos.

- Eu cresci escrevendo códigos Cobol e não me via diferente dos meninos fazendo isso. Quando eu cheguei na graduação, o primeiro dia de aula era um 8 de março e só tinha eu de menina - lembra.

Com o choque, Camila resolveu criar o blog ?Mulheres na Computação? para partilhar suas dificuldades e o espaço acabou virando um ponto de encontro na web de mulheres que passavam pela mesma situação. Ela recebe mensagens com relatos diversos, como de uma menina que estava pensando em abandonar o curso porque na faculdade em que ela estudava não tinha banheiro feminino.

- É uma troca de experiências e eu sempre dou apoio para elas não desistirem. Imagina estudar para passar no vestibular de engenharia e ter que desistir porque não está aguentando o clima - conta.

Nos quatro anos de graduação, Camila passou por situações desagradáveis, como piadinhas de que um professor corrigiu uma nota dela apenas por ela ser mulher.

- Sempre tem idiotas. Não, colega, eu estudei mais que você, mas tenho que ouvir isso só por ser mulher.

O blog ficou conhecido e, por meio dele, a jovem foi localizada pela Google para se candidatar a uma vaga para um estágio de três meses na sede da companhia no Vale do Silício. O programa Computer Science Academy selecionou 15 mulheres da América Latina que estavam terminando a graduação e Camila foi uma delas.

O incentivo à participação das mulheres se tornou comum entre as empresas de TI, que enfrentam dificuldade em atrair profissionais qualificados. Sergio Sgobbi, da Brascomm, informa que o setor é um dos que mais cresce no país, com taxa de 10,8% em 2012 e entre 8% e 10% no ano passado. Em 2013, foram criados 159 mil novos postos de trabalho, segundo dados do Caged.

Na HP do Brasil foi criado recentemente um comitê para fomentar a participação de mulheres entre os executivos e reter talentos femininos. Cláudia Braga, diretora de Planejamento Estratégico da companhia, explica que analisando os dados de funcionários foi possível perceber no momento da maternidade muitas mulheres decidem abandonar a carreira.

- Nós estamos focando nesse grupo de mulheres, que já têm alguma bagagem, mas chegam a uma fase da vida que acabam tomando a decisão de sair - diz. - A gente não tem programas rígidos, como cotas, mas queremos assegurar que as mulheres, como outros grupos, tenham acesso a todas as oportunidades.

Para tentar atrair mais mulheres para as ciências exatas, incluindo as faculdades de TI, a Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) vai investir este ano R$ 10,9 milhões para concessão de bolsas de estudos para cerca de 900 alunas do ensino médio que serão envolvidas em projetos em universidades de todo o país. Dos 320 projetos aprovados, 7% são especificamente da área de TI, sendo que existem projetos de automação e simulação que não estão nessa conta.

- É uma política de indução. Vamos convidar alunas do ensino médio a participar, durante um ano, de pesquisas nessas áreas. A ideia é quebrar essa imagem que as mulheres não se interessam ou não têm aptidão para as ciências exatas - explica Vera Soares, secretária de Articulação Institucional da SPM. - E isso funciona como espelho, as amigas vão vê-las seguindo essas carreiras e vão querer também.

Fonte: OGlobo