FACES DO PIAUÍ - O calor do povo piauiense encanta e dá frutos

Um dos Estados mais quentes do Brasil, revela na alta incidência de raios solares o incentivo para uma promissora agricultura

Por Juarez Oliveira e Sávia Barreto

Falar do Piauí e não lembrar imediatamente do calor é uma tarefa praticamente impossível. O Estado é um dos mais quentes do Brasil e tem a única capital nordestina longe do litoral. Em consequência disso, é também a capital mais quente do Nordeste. De acordo com a meteorologista da secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semar), Sônia Ribeiro Feitosa, Teresina ainda perde para Cuiabá, no Mato Grosso, como a capital mais quente do país, já que Cuiabá fica localizada no interior do continente, bem mais afastada do mar, num local de baixa altitude e com pouco vento.

Sônia conta que no Nordeste, a maior parte da população vive na faixa litorânea, e como nessas regiões há muito vento, a sensação de calor é amenizada, o que não ocorre no interior, na região do sertão. A meteorologista explica que os principais fatores que influem na temperatura são a proximidade com o mar, a altitude, a presença de florestas, continentalidade e a supressão da vegetação para a expansão das cidades.



As maiores mudanças de temperatura registradas na capital Teresina, ocorreram a partir de 1991, quando a cidade passou por grande crescimento populacional favorecido pelas políticas habitacionais da época. Essa evolução urbana provocou a derrubada de vegetação, para a construção de novas habitações. ?Nas construções geralmente são utilizados materiais detentores de alta capacidade de absorção de calor ou capacidade reflexiva. Com a urbanização, há impermeabilização da superfície, fazendo a água escoar, ficando pouca ou nenhuma reserva para evaporação. Esse fato faz aumentar a temperatura da superfície do solo e consequentemente, a temperatura do ar?, ressalta Sônia Feitosa.

Mas não é a capital Teresina quem registra as maiores temperaturas no Estado. ?No município de Bom Jesus já foram registradas temperaturas do ar de 42 º C. Picos e Floriano são cidades que registram temperaturas médias anuais maiores do que em Teresina,? conta Sônia. Um estudo de temperaturas médias anuais realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre os anos de 1989 e 1993, mostrou que Teresina foi a capital que registrou a segunda maior média anual de temperatura do Brasil (38,1ºC), atrás apenas de Cuiabá (39,1ºC).



Crescimento populacional de Teresina favoreceu o aumento da temperatura

O SOL FAZ BROTAR RIQUEZAS NO SERTÃO

O que para muitos pode parecer uma desvantagem, para outros é o que faz toda a diferença: a incidência de luz solar no Piauí. Se por um lado, a grande incidência de raios solares faz com que o Piauí seja um Estado com médias de temperatura muito altas, essa mesma incidência é um fator essencial para que a agricultura do Estado seja uma das mais promissoras do país. De acordo com o pesquisador Lúcio Flavo Vasconcelos, da Embrapa Meio-Norte, o Piauí tem uma média de insolação anual de 2700 horas, semelhante às médias do Ceará e da Bahia, o que é uma grande vantagem para a agricultura.

Como as plantas necessitam da luz solar para fazer a fotossíntese, quanto mais luz houver, mais elas se desenvolvem. Dessa forma o Piauí está se tornando um grande celeiro de alimentos, impulsionado por grandes projetos de produção agrícola, como os Tabuleiros Litorâneos, na região Norte e os Platôs de Guadalupe, na região Sul. Para o superintendente da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf - Piauí), José Ocelo Rocha, o semiárido piauiense tem grande potencial para a produção de frutas em regime de irrigação, por conta das grandes reservas de água, através dos lençóis freáticos e da grande incidência de raios solares.



Grande incidência de luz solar contribui para a produção agrícola/ Foto: Moisés Saba

Lúcio Flavo explica que os grandes níveis de insolação registrados no Estado, além de gerar maior produção de massa vegetal, aumentam a temperatura, o que aumenta, consequentemente, a velocidade do metabolismo das plantas. ?Aumentos na temperatura aumentam a velocidade das reações químicas. Em regiões com níveis de insolação mais altos, de uma forma geral, as plantas produzem mais fotoassimilados, como os açúcares, por exemplo e se desenvolvem mais rápido, encurtando o seu ciclo de produção?, ressalta.

Desde 2004 a região de São João do Piauí é beneficiada com o Projeto Hildo Diniz, no assentamento Marrecas, onde o principal destaque é a produção de uvas, em 6 hectares, além de mais 30 hectares, onde são plantadas outras furtas e hortaliças. José Ocelo explica que esse trabalho é feito por meio de parceria da Codevasf, com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a secretaria estadual de Desenvolvimento Rural. O maior projeto desenvolvido pela Codevasf atualmente é o Marrecas/Jenipapo, onde já foram investidos mais de R$ 5 milhões em obras de infraestrutura e até 2014 serão utilizados mais R$ 36 milhões, através da segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).



A produção de uvas é destaque no assentamento Marrecas, em São João do Piauí

José Ocelo reafirma a importância da incidência dos raios solares para a fruticultura. ?O nosso semiárido tem 3 mil horas de luz solar por ano. O que para a fruticultura é excelente, quanto mais luz, mais a planta se desenvolve e mais doce serão os seus frutos. Além disso, nossos mananciais de água são imensos?, conta. Lúcio Flavo frisa que com a aceleração do metabolismo por conta dos níveis de insolação, uma determinada cultura anual que em geral leva 100 dias para a sua colheita em uma região fria e sujeita a geadas, nas condições climáticas do Piauí ela pode ser colhida em cerca de 60 dias, podendo até resultar em mais colheitas durante o ano.

PIAUIENSE É MAIS ADAPTADO AO CALOR

Com um clima tão quente, e em determinadas épocas do ano, também seco, os problemas de saúde se tornam comuns. As altas temperaturas e as baixas umidades do ar podem ser responsáveis, entre outros problemas, pelo ressecamento da pele, irritação e coceira nos olhos, além do aumento nos casos de conjutivite alérgica. Mas será que as pessoas que convivem há muito tempo com essas intempéries são mais resistentes? O médico otorrinolaringologista Eriverton Ferreira afirma que sim, os piauienses estão mais adaptados a esse clima.

?Apesar de não haver estudos que relatem maior resistência imunológica dos piauienses para as infecções decorrentes do clima, podemos afirmar que os piauienses têm mais resistência a esse clima, sim?, conta Eriverton Ferreira. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) quando a umidade relativa do ar atinge índices abaixo de 30%, é considerado estado de alerta para a saúde da população. O assessor técnico da Defesa Civil, Espedito Soares, explica que quando a umidade do ar fica abaixo de 30% as prefeituras dessas áreas devem agir, adiando ou mudando o horário de algumas atividades, evitando que a população forme aglomerações ou até mesmo suspendendo as aulas.



Dr Eriverton Ferreira: Piauienses são mais adaptados ao clima

Eriverton Ferreira alerta para as principais doenças, decorrentes das altas temperaturas. ?Nos períodos mais quentes, as doenças mais comuns são as infecções das vias aéreas, como gripes e resfriados, além dos processos de rinite e rinossinusites alérgicas. Também são muito comuns a bronquite e a pneumonia?. Segundo o médico, um dos fatores que pode agravar esses problemas é o uso excessivo de ar-condicionado. ?O uso do ar-condicionado é um fator agravante para os principais sintomas das altas temperaturas, que são o ressecamento das mucosas do nariz e garganta, associados a obstrução e sangramento nasal?.

Além de se proteger com sombrinhas e evitar excesso de exposição solar nos períodos mais quentes (das 10h às 16h), as principais dicas de Eriverton Ferreira para diminuir as consequências do clima na saúde são: lavagem nasal diária com sorofisiologica 0,9%, hiper-hidratação com bastante líquido e alimentação leve com ênfase para frutas, verduras e legumes. Espedito Soares e Eriverton Ferreira concordam que manter arejados os ambientes de casa e do trabalho, e umidificar os ambientes através de umidificadores ou toalhas umidas, além de fazer a limpeza semanal dos aparelhos de ar-condicionado, são ações que contribuem para a diminuição de problemas alérgicos.



Trabalhadores têm várias maneiras para se protegerem dos raios solares

Fotos: Arquivo Jornal Meio Norte

Fonte: Savia Barreto