Anseio de proteger filho faz muitos terem cuidados extremos

Anseio de proteger filho faz muitos terem cuidados extremos

O anseio de proteger o filho dos males do mundo acabam fazendo com que muitos pais tenham cuidados “extremos”.

Ser pai pela primeira vez, sem dúvida alguma, é uma experiência única. E junto à responsabilidade de educar uma criança para a vida, saber lidar com um novo ser e todos os processos de adaptação pode não ser uma tarefa tão fácil.

Para as mães, o aprendizado que já vem desde cedo torna o processo menos complicado; já para a maioria dos homens que se deparam com a situação, é uma experiência totalmente nova.

Com a novidade, muitos pais acabam criando expectativas em cima da criança para que ela seja uma pessoa melhor. O desejo de proteção do pai e a sobrecarga em cima do filho muitas vezes é admissível, mas se não controlados podem trazer várias consequências ao seu desenvolvimento.


Pai superprotetor, até que ponto?

Gerson Prado esperou a estabilidade profissional e financeira para ter a primeira filha, e embora tenha sido planejada, a expectativa criada em torno do nascimento da pequena Lavínia foi bastante intensa. Hoje, ela tem sete anos, é filha única, já que os pais não puderam ter outros filhos, mas é uma criança exemplar.

?Dedicamos tudo que nós temos a ela. Isso pode ser bom, que tem toda a atenção voltada para ela, mas tem seu ônus, pois eu não consigo evitar de transferir minhas expectativas a ela.

Nós sempre estudamos muito, passamos a vida inteira batalhando e eu exijo muito que ela tenha um desempenho escolar muito bom. Transfiro para ela muitas das minhas frustrações, o que eu não tive oportunidade de fazer eu procuro oferecer a ela?, admite.

De acordo com Fernanda Reis, mãe de Lavínia, apesar de muitos pais de filho único acabarem mimando os filhos ou superprotegendo, o autocontrole e a autoridade são fundamentais para que isso não aconteça.

?Eu acho até mais difícil criar um só filho. A minha filha não é mimada, pelo contrário, ela tem um senso de coletividade até maior, pelo fato de ser única. Ela tem limites, tem horário absolutamente pra tudo, tem datas pra receber presentes?, revela a mãe.

Para Gerson, embora seja exigente, ele afirma que a sua tentativa de proteção é para o bem dela. ?Eu estou dando a ela uma bagagem cultural. Para que, se um dia eu faltar, ela possa seguir em frente sozinha?, pontua.

Sobrecargas podem tornar crianças egoístas e agressivas

A inexperiência na forma de educar e, ao mesmo tempo, o receio de que algo de ruim aconteça são bastante comuns entre pais que possuem um único filho.

Mas essa exigência excessiva de um comportamento exemplar e a superproteção podem trazer consequências. De acordo com a psicóloga Denisdéia Sotero, elas são as mais diversas, desde o egoísmo à agressividade.

?Nesses casos, podemos observar comportamentos de timidez, egoísmo, dificuldade de aceitar o não, a introversão, apego excessivo aos pais?.

Mesmo que os filhos já estejam assim, nem tudo está perdido. O ideal é que os pais possam se lembrarem que eles são um espelho para o filho.


Pai superprotetor, até que ponto?

O que é ser pai?

Cuidar, proteger, prover, educar, apoiar, advertir. Enfim, a responsabilidade de um pai pode ser resumida usando verbos de todas as três conjugações. Mas há uma pergunta que ?martela? a cabeça de pais de todas as idades, cuja resposta certamente não está nas páginas de uma gramática: o que é ser pai nos dias de hoje?

Pensando bem, isso leva a outro questionamento: quais as diferenças do papel do pai há algumas décadas para o cenário encontrado hoje? O jornal Meio Norte conversou com quem viveu as duas fases: os tempos em que a autoridade do pai falava bem mais alto e os novos tempos, em que a dificuldade de traçar a linha divisória entre o comando paterno e a liberdade dos filhos é cada vez mais difícil.

Com a palavra, os pais experientes. ?Naquele tempo, era muito mais difícil. Meu pai, por exemplo, levava a vida ?no braço?, e nos criou dessa forma?, é o que diz o militar aposentado Lourival Alves dos Santos, de 56 anos.

Lourival é pai de um casal de filhos ? Rodrigo, de 28 anos, e Vanessa de 24 ? e avô de dois netos. Ele lembra das dificuldades que a família de oito irmãos enfrentou, primeiramente na zona rural de Timon (MA), depois na região do município de Monsenhor Gil (PI).

?Vivíamos basicamente da agricultura de subsistência. O esforço do meu pai permitiu, entre outras coisas, que eu pudesse vir para Teresina estudar, de modo que eu só ia a Monsenhor Gil nas férias.

Acabei alistando-me no Exército com 18 anos de idade, e há quatro anos aposentei-me. Foi bem difícil para meu pai fazer com que os filhos pudessem sair de casa para buscar um futuro melhor, mas conseguimos?, disse ele.

O pai de Lourival é José Pereira dos Santos, de 85 anos. (?Mas vou inteirar 86 em dezembro?, lembra ele). De forma direta, fazemos uma pergunta incisiva ao patriarca: Como você avalia seu desempenho como pai ao longo de todos estes anos? Depois de uma pausa, ele ponderou: ?Bem, se meus filhos não reclamam até hoje, creio que fui bem.

Não fui grosseiro com eles?, diz o idoso. ?Nós vivíamos da roça. Se houve alguma falha minha como pai, acho que foi quando meus filhos quiseram algo e eu não pude dar imediatamente por conta das condições financeiras?, finaliza José, confirmando a opinião de que, na maioria dos aspectos, é mais fácil ser pai hoje do que antigamente.

Essa mesma opinião é manifestada por quem ainda está na casa dos 30 anos ? caso do administrador Bernardo Júnior, pai das pequenas Yasmin (10 anos) e Eloá (03).

?Hoje os pais são mais abertos, enquanto antigamente eles escondiam muito as informações. Faltava um pouco mais de diálogo. Apesar de serem meninas, minhas filhas conversam sobre tudo comigo, e elas perguntam bastante. Isso é muito bom. Resumidamente, o pai precisa também ser um grande amigo dos filhos, e acho que está realmente bem mais fácil ser pai hoje?, disse ele.

?Bastava meu pai olhar para eu entender?


Pai superprotetor, até que ponto?

Aos 52 anos, o contabilista José Cordeiro contou ao JMN em plena Praça Rio Branco, no centro de Teresina, um pouco da sua impressão sobre qual é o papel de um pai, comparando sua época de filho com o contexto percebido nos dias de hoje.

?As coisas estão muito diferentes. Antigamente, bastava um olhar do meu pai para que eu soubesse o que fazer, e para que eu entendesse que ele estava dando uma ordem. Hoje é o contrário: os filhos mandam nos pais?, disse ele.

Cordeiro, como é conhecido entre os amigos, é pai de três filhos: Samara, Guilherme e Vinícius, de 28, 27 e 26 anos, respectivamente. Ele defende a preservação da autoridade paterna. ?O pai é o suporte da família. É uma figura essencial, que deve ser respeitada?, resumiu ele.

O contabilista conta que se separou da mãe dos filhos há vários anos, mas que mantém uma relação de amizade com ela, o que acaba fazendo com que ele permaneça presente na vida dos filhos também. ?Meus filhos sempre foram prioridade para mim. Cheguei a pedir dinheiro emprestado para garantir que nada faltasse a eles?.

O amigo de Cordeiro, Benedito Neves, de 77 anos, também concorda que houve uma mudança de contexto no que diz respeito à autoridade paternal. ?Hoje não se pode mais nem repreender um filho?, reclamou.(D.L.)

Fonte: Virgínia Santos