Perdido da família, jovem com deficiência mental vive durante 1 ano em pronto-socorro

Perdido da família, jovem com deficiência mental vive durante 1 ano em pronto-socorro

O paciente, que diz se chamar Walace Fernando de Souza, foi encontrado caminhando sem rumo na altura do km 287 da rodovia Régis Bittencourt.

Um jovem de aproximadamente 19 anos, com deficiência mental, morou durante um ano no pronto-socorro da Unidade Mista de Saúde Irmã Annette, no Jardim Vazame, em Embu das Artes (Grande São Paulo), após perder contato com a família.

O paciente, que diz se chamar Walace Fernando de Souza, foi encontrado caminhando sem rumo na altura do km 287 da rodovia Régis Bittencourt (BR-116), por volta de 20h do dia 7 de outubro de 2011. Na ocasião, ele vestia uma camiseta com o logo do banco Bradesco e calça jeans. Guardas municipais o encontraram e o levaram ao pronto-socorro do Jardim Vazame.

Walace recebeu alta em 18 de outubro do ano passado, mas, por não ter para onde ir, permaneceu na unidade até a semana passada, quando foi transferido para um abrigo em Juquitiba, município vizinho ao Embu.

A transferência ocorreu após a divulgação do caso de Walace em um jornal da região. O fato chamou a atenção do responsável pelo abrigo, que foi até o pronto-socorro e se disponibilizou a acolher o jovem.

Segundo a direção do pronto-socorro, o abrigo destina-se a moradores de rua e dependentes químicos já recuperados --os proprietários do abrigo também possuem um centro de recuperação de dependentes. A Prefeitura de Embu das Artes não quis informar o nome do local, nem fornecer o contato do responsável que acolheu Walace.

De acordo com Marcos Rosatti, controlador-geral do município, o abrigo é provisório, até que a família de Walace seja localizada. ?Ele estava vivendo no pronto-socorro em uma situação que não era adequada. O nosso serviço social encontrou um local provisório. Estamos tentando reencontrar familiares e amigos dele, junto com o Ministério Público?, afirmou.



Sem pistas da família

Desde que Walace deu entrada no pronto-socorro, ninguém o procurou. A equipe o acompanhou não conseguiu localizar familiares ou conhecidos do paciente, mesmo divulgando fotos dele pela região. A polícia também não encontrou nenhum indício de algum desaparecido com características semelhantes às de Walace.

Em uma pesquisa com as digitais do paciente não foi encontrado o seu registro, provavelmente porque ele não tem documento de identidade. Quando questionado, Walace afirma ter pai, mãe e um irmão, mas não demonstra vontade em reencontrá-los, nem sabe dizer o lugar onde vivia. O exame da idade óssea indicou que ele tem cerca de 19 anos.

Não há no município nenhum local ideal para abrigar o paciente. A prefeitura dispõe apenas de abrigos para menores de idade e unidades de recuperação de dependentes químicos.

Sem ter para onde ir, Walace foi acolhido em quarto improvisado do pronto-socorro, recebendo cuidados de psicólogos, assistentes sociais e médicos. Ao longo do último ano, Walace passou as manhãs e tardes em uma unidade no Centro de Referência Especializada de Assistência Social (Creas) do município --onde faz tratamento psicológico. No final do dia, retornava para o pronto-socorro, onde dormia.

Paciente não tem memória

Os especialistas não sabem exatamente qual é a deficiência de Wallace. O psiquiatra da unidade diagnosticou um possível quadro de esquizofrenia residual --quando o doente convive durante muito tempo com a esquizofrenia, que passa a se tornar crônica. Já os psicólogos e assistentes que tratam do jovem suspeitam que ele tenha apenas déficit intelectual.

De acordo com o Dr. Kauê Serdeira, diretor do pronto-socorro, Walace age como uma criança tímida, não manifesta vontades ou descontentamentos. ?Quem o vê pensa que ele é uma criança tímida. Aparentemente, ele não tem vontade de fazer muita coisa.?

O controlador-geral do município afirma que o jovem é dócil, nunca é agressivo e demonstra não ter memória. ?Ele é disciplinado, colabora com todos os passos do tratamento, tem um certo nível de entendimento das coisas, mas não consegue se lembrar de quase nada. Ele não tem memória?, diz Rosatti.

O Ministério Público irá ajuizar uma ação para conseguir o registro de nascimento do Walace e facilitar a garantia de direitos básicos.

Fonte: UOL