Sem comunicação com bombeiros, vizinhos resgataram vítimas em Santa Catarina

Apesar de também ter perdido tudo, a família Turani partiu para o socorro da casa em frente

Quando o tornado que atingiu a cidade de Guaraciaba (SC) na segunda-feira (7) passou, as primeiras pessoas a chegarem ao que sobrou da casa da família Schuab, onde duas pessoas morreram, foram seus vizinhos.

Apesar de também ter perdido tudo, a família Turani partiu para o socorro da casa em frente. A cena se repetiu em diversas propriedades atingidas no município: sem telefone para chamar o resgate, vizinhos se uniram para levantar escombros e retirar vítimas.



?Na segunda-feira, no feriado, eu estava com a minha mãe e ela me disse: ?filho, que bom que existe vizinho, né? O que seria da gente sem nossos vizinhos???, contou ao G1 o empresário Mário Schuab, de 27 anos, que perdeu a mãe, Odalice, e o avô, Edvino. ?E foram nossos vizinhos, a família Turani, a família Hein, que se comoveram e vieram para tentar ajudar. O que puderam fazer, eles fizeram?, diz ele

A vizinha de Dona Odalice, Lúcia Turani, chegou à casa minutos após a passagem do tornado, mas teve dificuldade para encontrar a família Schuab. ?A gente ouviu chamando, gritando. Mas era difícil chegar lá, por que estava tudo no chão. Árvore, pedaço de casa, tudo?, conta Lúcia.

?Nós voltamos para o que sobrou da nossa casa para procurar uma motosserra e tirar as árvores do caminho. Demorou para encontrá-los?, conta a agricultora.



Roque Jan, outro vizinho dos Schuab, conta que Odalice foi encontrada já morta. ?A gente cobriu o corpo dela, fez uma oração na cabeça, assim correndo, e foi tentar salvar os outros?, diz ele. ?Foi um dia terrível. Triste de ver. A gente procurava as pessoas e enxergava o rosto delas quando batiam os raios. Os raios batiam tudo no chão, a gente enxergava tudo, era um clarão só?, conta.

Jan ajudou também no resgate de outros vizinhos. ?A primeira coisa que eu ouvi depois que passou foi os gritos. Daí falei para a minha mulher que a gente tinha que acudir eles. Fomos primeiro aqui do lado, os vizinhos estavam embaixo da casa. Fomos tirando um por um?, relata.

Sem telefone

O orientador agrícola Márcio Trantenmuller estava na estrada quando o tornado passou. ?A hora que eu vi que a chuva estava mais forte, decidi voltar para casa correndo para proteger minhas coisas. Mas não dava para enxergar nada. Parei o carro e só via clarão branco. O vento empurrava o carro para lá e para cá?, conta.

?Quando melhorou, eu segui viagem e a estrada estava cheia de árvore. Daí eu vi o que tinha acontecido. Desci do carro e corri para as casas ajudar?, afirma ele.

O tornado derrubou os postes por onde passou, deixando as vítimas sem eletricidade nem telefone para pedir socorro. ?Eu tive que ir 12 quilômetros até Linha Imirim [um povoado de Guaraciaba] para encontrar uma linha funcionando?, conta Trantenmuller.

Com seu carro, ele foi abrindo passagem na estrada para os veículos que vinham atrás levando vítimas para o hospital.

Segundo Luís Henrique Schuab, sobrinho de Odalice e neto de Edvino, o trajeto de 22 quilômetros entre a casa da família e o hospital levou três horas. ?A estrada estava fechada?, conta.

A tempestade tirou do ar o telefone 193 do Corpo de Bombeiros da cidade. Quem ligava para o número foi redirecionado para os Bombeiros da cidade vizinha, São Miguel do Oeste, segundo o tenente Diego Maciel. ?O Corpo de Bombeiros de São Miguel pegava a ocorrência e repassava para a gente aqui. Daí a gente ia?, conta.

Dois dias após a passagem do tornado, as áreas atingidas ainda estão incomunicáveis. ?Celular não pega direito aqui. Para se falar tem que ser à moda antiga e ir pessoalmente?, diz Trantenmuller.

Os vizinhos seguem se apoiando. Segundo a prefeitura, a maioria das famílias atingidas preferiu ficar com vizinhos, amigos e parentes e não no abrigo público oferecido.

Fonte: g1, www.g1.com.br