Dom Odilo Scherer é o mais novo dos papáveis brasileiros

Dom Odilo Scherer é o mais novo dos papáveis brasileiros

Sétimo de uma família de 13 irmãos, o gaúcho de 63 anos à frente da arquidiocese de SP é um dos cinco brasileiros que participará do Conclave

Dom Odilo Scherer viajava para um encontro familiar na localidade de Alto Feliz (RS) quando percebeu a responsabilidade que sua trajetória religiosa encontraria. A poucos meses da visita do papa Bento XVI ao Brasil, em 2007, um comunicado do Vaticano informava que Scherer seria alçado a arcebispo de São Paulo, uma posição responsável por um conjunto de 300 igrejas e cerca de 700 padres.

Governar a maior arquidiocese do Brasil e a terceira maior do mundo preocupava o religioso, que fora ordenado bispo havia apenas cinco anos. Levaria sete meses para Dom Odilo receber um novo reconhecimento: seria elevado a Cardeal de São Paulo por Bento XVI em novembro de 2007.

Mais jovem dos cardeais brasileiros, Odilo Scherer, 63 anos, será um dos membros do conclave que vai escolher o próximo papa, depois da renúncia de Joseph Ratzinger à liderança mundial da Igreja Católica. Na teoria, Scherer pode ser o eleito para a sucessão de Bento XVI.

Oração e estudos

Com um perfil sereno, Scherer é considerado um bom conciliador, que transita com tranquilidade entre diversos setores da Igreja. Estudioso, fala com facilidade inglês, francês, italiano, alemão e espanhol. Concluiu, em Roma, mestrado em Filosofia e doutorado em Teologia. Além do conhecimento, é reconhecido por seu potencial como administrador.

?São Paulo é uma administração com seis regiões episcopais, com seis bispos, e ele administra com uma serenidade, com uma tranquilidade. Não há nenhum problema de relacionamento em toda a diocese, entre sacerdotes?, disse o advogado Ives Gandra da Silva Martins, membro do Conselho de Assuntos Econômicos da Arquidiocese e da União dos Juristas Católicos de São Paulo, fundada por Scherer. ?Ele não é só um bom pastor, mas também um bom administrador?, disse.

O apetite pelos estudos foi incentivado pelo pai, Edwino Scherer. Todo o dia antes das refeições, o chefe da família fazia uma oração e lembrava seus filhos que a terra que sustentava a família poderia ser insuficiente no futuro. ?O espírito religioso esteve sempre presente em nossa família. Era de costume as refeições em uma mesa comprida. A gente rezava antes e depois das refeições, e todos os dias o pai falava ?meus filhos, estudem, estudem, porque pelo estudo vocês podem voar mais longe, a cultura e o estudo ninguém vai roubar de vocês, agora a terra hoje está disponível, mas ela pode amanhar diminuir ou fracionar pela herança??, relatou o professor Flávio Scherer, um dos irmãos de Odilo.

O sétimo de uma família de 13 irmãos, o cardeal de São Paulo é descendente de Mathias Scherer, um imigrante alemão que veio ao Brasil em 1872 e foi morar no Rio Grande do Sul. Apesar de ter nascido em 1949 em uma região que pertence ao município gaúcho de Cerro Largo, se mudou com 2 anos para a localidade de Dois Irmãos, distrito de Toledo, no Paraná. Foi lá que cresceu, iniciou seus estudos e o convívio com a religião.

A família Scherer foi a segunda a chegar à localidade. Foi o pai de Odilo quem doou o terreno e ajudou a construir a capela de Dois Irmãos, o que viria a ser o local da primeira missa rezada pelo filho que dedicou a vida à religião. Convidado pelo então bispo de Toledo, Dom Armando Círio, para a primeira turma do seminário da cidade, Odilo Scherer foi ordenado padre aos 27 anos, em dezembro de 1976. Logo passou a trabalhar no seminário de Cascavel e ajudou a fundar uma faculdade local, na qual lecionou Filosofia.

Viajou para aperfeiçoar o conhecimento em línguas. Estava em Londres quando o pai, incentivador dos estudos dos filhos, morreu em complicação da diabetes. ?Meu pai ficou 30 dias em coma. Meu irmão estava trabalhando em Roma e veio passar uns dias. Ele partiu no dia 16 de agosto para a Europa, foi para Londres estudar inglês, e meu pai faleceu no dia 1º de setembro. Naquela noite o Odilo estava acordado, não conseguia dormir. Ele pressente muito?, disse o irmão do cardeal.

A morte do pai levou Odilo a conhecer a solidariedade dos ingleses, povo que até então considerava frio. ?Ele estava rezando missa em Londres e pediu para que o pessoal se unisse a ele porque estava sendo enterrado o pai. Deram tanta força que ele disse que os ingleses não eram frios, não. Ele lembra até hoje desse grande momento de solidariedade?, disse.​

Cardeal conectado

Dom Odilo é o único dos cinco cardeais brasileiros que participarão do conclave a possuir uma conta ativa no Twitter. Criada em julho de 2011, a página na internet é alimentada diariamente e possui quase 23 mil seguidores.

De acordo com a Arquidiocese de São Paulo, o cardeal adotou a ferramenta digital após um fiel criar um perfil em sua homenagem, com citações suas e frases ditas em eventos e missas. Ele, então, criou sua página própria e passou a utilizá-la principalmente como mecanismo de aproximação com o público mais jovem ? um dos maiores desafios da Igreja Católica hoje. Seu primeiro comentário após sua saudação inicial no Twitter foi: ?se Jesus pregasse o Evangelho hoje, (...) usaria também o Twitter?.


Sereno e conciliador, D. Odilo Scherer é o mais novo dos papáveis brasileiros

A partir daí, o cardeal pegou gosto pela ferramenta e passou a utilizá-la para opinar sobre vários temas, inclusive políticos, embora a temática religiosa e cotidiana domine o espaço. Em abril de 2012, por exemplo, Dom Odilo tuitou durante quase todo o julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que concluiu pela descriminalização do aborto de fetos anencéfalos. ?Lição final por hoje: nem tudo que é legal é também moral. O aborto pode ser legalizado, mas isso não o torna moralmente bem?, publicou, na ocasião.

Em entrevistas e artigos, Odilo não questiona os dogmas da Igreja Católica. Não acredita na necessidade de flexibilizar o celibato ou outras ?soluções mágicas? para evitar a redução de fiéis nos últimos anos. No programa de televisão Roda Viva, disse que o preservativo ajuda a difundir a promiscuidade sexual. ?A promiscuidade sexual que é de alguma forma até incentivada pela difusão da camisinha em escolas para crianças. Isso é de alguma forma abrir a porta para novos problemas e novas situações. (O importante) É uma questão de educação para o senso de uma responsabilidade em relação à vida sexual. Não se trata de impor convicções a ninguém, mas de propor aquilo que poderiam ser situações boas, úteis eticamente e corretas?, disse.

Para o advogado Ives Gandra Martins, as posições de Odilo são valores universais defendidos pelos católicos. ?Defendemos aquilo que são considerados valores universais e que tem se defendido há muitos anos, e o Dom Odilo, com muita serenidade, não é um homem polêmico, apaixonado, ao contrário, é um homem que expõe suas teses com muita serenidade, eu admiro muito?, disse.

Política e polêmicas

Na eleição municipal de 2012, Dom Odilo divulgou uma nota em que ressaltava o vínculo do então candidato Celso Russomanno (PRB) à Igreja Universal do Reino de Deus, comandada pelo bispo Edir Macedo, e na qual acusava de fomentar a intolerância religiosa. O candidato liderou pesquisas durante a corrida do primeiro turno, mas acabou ficando de fora do segundo turno, ultrapassado por Fernando Haddad (PT) e José Serra (PSDB).

"Se já fomentam discórdia, ataques e ofensas sem o poder, o que esperar se o conquistarem pelo voto? É para pensar", afirmava o documento, que provocou polêmica na disputa eleitoral.

Outra polêmica envolvendo o nome do religioso ocorreu no ano passado, quando Dom Odilo, que é grão-chanceler da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) decidiu nomear como reitora da universidade a professora Anna Cintra, terceira colocada na lista tríplice, ignorando o vencedor Dirceu de Mello, que ficou em primeiro lugar. A escola por uma reitora mais alinhada à cúpula da Igreja Católica causou revolta entre alunos e professores.

Não por acaso, a escolha do papa Bento XVI em nomear Dom Odilo para comandar a arquidiocese de São Paulo, em 2007, foi bastante associada à sua postura em defesa dos tradicionais ideais católicos. Isso porque, a perda de fiéis para igrejas evangélicas é um dos maiores problemas enfrentados pelo Vaticano, que via no religioso firmeza para enfrentar a situação no Brasil, diziam os analistas.

Fonte: Terra